ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Henrique Dória


Editorial 76

Um fantasma varre a Europa: a revolta das multidões contra a opressão do poder político e económico de uma percentagem da população europeia que não ultrapassa os 0,5% e que domina os destinos da União. Se é verdade que nunca houve tão poucos pobres dentro da Europa. Se é verdade que, ao contrário do que sucede noutras partes do mundo, nem sequer os mais miseráveis morrem de fome. Também é verdade que as desigualdades e a insegurança das classes médias e baixas atingiram proporções que, no meio de tanta riqueza, de tanta fraude, de tanta corrupção levadas a cabo pelos mais ricos, essas desigualdades e insegurança se tornaram insuportáveis.

 

Quando se sabe que os bancos, a grande distribuição e os grandes serviços quase não pagam impostos e são escandalosamente beneficiados pelo poder político que para eles não só transfere a riqueza produzida pelas classes médias e pelos trabalhadores, como também fecha os olhos à fraude e à evasão fiscais. Quando o presidente francês Emmanuel Macron tomou como medida mais emblemática, logo que chegou ao poder, a abolição do imposto sobre as grandes fortunas criado pelo governo do Partido Socialista, e agora, face aos problemas do défice público, tenta colmatar a perda de três mil milhões de euros daquele imposto com a criação dum novo imposto sobre os combustíveis, que atinge, sobretudo, o pequeno comércio e os trabalhadores, está aceso o fogo da revolta.

 

É verdade que por detrás dessa revolta está a mão escondida e sinistra da extrema direita que o estratega da suja campanha eleitoral de Donald Trump, Steve Bannon, anda a liderar a partir de Bruxelas. É verdade que, à falta de uma estratégia certa por parte daqueles que defendem a Liberdade, a Justiça e a Solidariedade, talvez o poder venha a cair nas mãos duma Marine le Pen, tão ignorante e mentirosa como Trump, mas sem ser a caricatura de ser humano que este é, pelo que poderá ser “aceitável” para as classes médias europeias que não caíram ainda na indigência intelectual das classes  médias americanas.

 

Mas esse perigo muito real não retira legitimidade às reivindicações do movimento dos coletes amarelos, entre as quais se contam as seguintes:

 

 Favorecer o pequeno comércio nas vilas e centro das cidades (cessar a construção de grandes áreas comerciais em torno das principais cidades, que prejudicam os pequenos negócios

 

 Que os grandes (MacDonald’s, Google, Amazon, Carrefour...) paguem muito e os pequenos (artesãos, pequenas e médias empresas) paguem pouco

 

Sistema de segurança social igual para todos (incluindo artesãos e empresários). 

 

Nenhuma pensão abaixo dos 1200 euros

 

Os salários de todos os franceses, bem como as pensões e subsídios, indexados à inflação.

 

Fim do trabalho desvinculado

 

Limitar mais o número de contratos a termo nas grandes empresas

 

Fim da política de austeridade, interrompendo o pagamento da dívida considerada ilegítima sem fazer cobranças aos mais pobres e arrecadar 80 mil milhões de euros perdidos devido à evasão fiscal.

 

Resolução das causas que geram migrações forçadas

 

Que os requerentes de asilo sejam bem tratados. Colaboração com a ONU para criar centros de acolhimento em todo o mundo para instalar imigrantes e refugiados enquanto o processo de pedido de asilo decorre

 

Implementação de uma política de integração real. Curso de francês, de história de França de educação cívica, com certificação

 

Aumento do salário mínimo para os 1300 euros

 

Criação de empregos

 

Rendas mais baratas, sobretudo para estudantes e trabalhadores precários

 

Como o  preço do gás e da electricidade aumentou desde que o sector foi privatizado, pede-se a nacionalização e a redução dos preços

 

Incluir o referendo na Constituição e consulta mais frequente do povo a nível nacional e regional

 

São medidas justas, que a sociedade francesa suporta se for governada com Justiça. Não importa que os cínicos e malvados que levaram Trump ao poder tenham estado por detrás do início do movimento dos coletes amarelos. Esse movimento já ultrapassou as reivindicações típicas da extrema direita populista. Por isso, se aqueles que defendem a Justiça, a Liberdade e a Solidariedade não forem capazes de fazer reverter a revolta a seu favor, em termos eleitorais, à sua mediocridade e incompetência o ficará a dever. E por isso ficarão responsáveis perante a História.

 

 

Henrique Dória

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2018


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Paginação:

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