ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Jorge Bateira


O tempo urge

 Alguns comentadores alinhados à esquerda têm visto na actual crise do capitalismo neoliberal uma oportunidade para o robustecimento do socialismo – daquele que vai à raiz da questão social – face ao desmoronamento do neo-liberalismo e às dificuldades de sobrevivência do “social-liberalismo-Terceira Via”.

 

Também eu acho que estamos num importante momento de encruzilhada. Mas, para que os desejos se tornem realidade, a esquerda ainda tem de fazer o seu trabalho de casa, em Portugal e noutros países da UE. De facto, em momentos de agudização das lutas sociais, tendemos a esquecer que realidades socioeconómicas e realidades culturais têm autonomia relativa. A luta da esquerda por políticas de efectivo crescimento com emprego, e por uma partilha mais igualitária do rendimento nacional, é forçosamente orientada por conceitos, ideias, valores, ideologia. Numa palavra, por cultura. Por sua vez, a produção cultural emerge a partir de interacções humanas dominadas por factores socioeconómicos e políticos. Trata-se de esferas interdependentes, mas também com relativa autonomia. De facto, o mundo das ideias é distinto do mundo da economia e das dinâmicas sociopolíticas e, nas últimas décadas, muita coisa mudou em todas estas esferas.

 

Vejamos. Foram as consequências sociopolíticas da Grande Depressão e da Segunda Grande Guerra, nos EUA e na Europa, conjugadas comuma luta tenaz no plano das ideias, conduzida por intelectuais inspirados por Marx, Keynes e muitos outros institucionalistas contra as ideias liberais dominantes, que permitiram grandes mudanças na economia e nas suas relações com o resto da sociedade nas três décadas a seguir à Guerra. Uma guerra no plano das ideias voltou a ocorrer a partir de meados dos anos setenta do século passado, mas desta vez conduzida pelos intelectuais do neoliberalismo muito inspirados por Hayek e seus discípulos, em conjugação com importantes mutações tecnológicas, sociais, culturais e sociopolíticas, todas elas em interdependência.

 

O que pretendo dizer é que, por si só, a crise não leva às mudanças políticas por que lutam os partidos da esquerda, mudanças que permitam uma progressiva subordinação da economia ao interesse público. Na história das sociedades humanas não há determinismos. Por outro lado, não parece que as reformas institucionais que estão a ser discutidas no plano da UE possam conduzir a uma política económica em que o pleno emprego seja assumido como um objectivo central. Para que tal aconteça, teremos de travar, mais uma vez, uma batalha tenaz no plano das ideias, ou seja, no plano programático. Para isso, vai ser necessária uma renovação do discurso da esquerda, por muito que isso incomode os mais instalados.

 

Concretamente, para que a esquerda seja credível, não pode continuar a apresentar-se ao eleitorado com o discurso de sempre, sem um projecto global que transmita uma visão do futuro mobilizadora dos que têm sistematicamente perdido e estão descrentes. Não vamos lá com propostas avulsas. Usando uma expressão muito usada no mundo anglo-saxónico, não basta apresentar uma política económica do tipo “lista de compras”. A tarefa da esquerda é bem mais exigente porque o eleitorado está à espera de uma visão global convincente sobre o funcionamento da economia capitalista neoliberal, de como esse funcionamento gerou a presente crise, e do que está ao nosso alcance mudar e de que forma. A esquerda tem de ganhar a batalha das ideias sobre um futuro desejável, sobre uma sociedade boa, para conseguir chegar ao poder.

 

Quanto à economia, o discurso terá de ser feito pela positiva afirmando quatro vectores centrais: a) política fiscal que reduza drasticamente a desigualdade na distribuição do rendimento e da riqueza; b) reforço do poder negocial do trabalho para obter uma mais justa repartição do rendimento logo na distribuição primária; c) definir o pleno emprego como objectivo explícito da política económica; d) utilização da política orçamental para a promoção do pleno emprego, tendo em conta a inflação e o défice externo. Como é evidente, nada disto é possível no quadro da UE e, por isso mesmo, o populismo da extrema-direita ganha cada vez mais força social e eleitoral. Está à vista que o reformismo progressista, a partir do interior desta UE, é mesmo impossível. A esquerda tem de ser inequívoca neste ponto.

 

Se é verdade que a esquerda tem pela frente algum trabalho de casa por fazer, não é menos verdade que já acumulou nos últimos anos muito estudo e muita experiência. O importante é mesmo começar já a mudar a prática e o discurso porque o povo, como vemos em França, está disposto a fazer-se ouvir por todos os meios ao seu alcance. O tempo urge.

 

 

Jorge Bateira é licenciado em Economia pela Faculdade de Economia da UP e doutorado pela The University of Manchester. Leccionou em várias universidades, mais recentemente Economia Política Internacional na Faculdade de Economia da UC. É coautor do blogue “Ladrões de Bicicletas” e preside à associação política Democracia Solidária.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2018


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