ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Ivy Menon


Crónicas

Operação salva cotia

 

Ouvi os gritos das crianças e corri para ver o que estava acontecendo, do outro lado da cerca do quintal. Logo no início do mato. Apavorei-me. Os chinelos de dedos, a dificultar-me a prova. O capim alto. “Por que essas crianças estão do lado de lá?”, questionava-me. Sou avó. Sou mãe. Cuidei dos irmãos mais novos. Trabalhei de babá dos filhos dos outros. Experiente nas artes de molecada que se junta, não visualizei fumaça ou fogo. “Menos mal”, pensei. Eles rodeavam alguma coisa, no chão. Os cinco falando ao mesmo tempo. Gritei mais alto que eles. Essa técnica pode não ser politicamente correta, mas é infalível. Exigi que um apenas me contasse o ocorrido.

 

O coração aos pulos, à toa. Esse negócio de ter sido mãe, desde muito cedo, perturbou-me. Por certo, tirou-me o equilíbrio. Antes de completar três anos, eu ajudava a mãe a cuidar da minha irmãzinha, recém-nascida. Balançava o berço. Cantava para ela dormir: “tantangue, telelém. Tantangue, telelém”. E o berço ia e vinha, no compasso da minha voz de nenezinha. A mãe precisava cuidar do almoço. O pai plantava hortelã, na roça. As onze, em ponto, ele chegava morto de fome. De arroz com feijão. E de silêncio. Fui ensinada, cedo. Compreendia.

 

Uma vida toda gasta em não deixar meninos se matarem. Nem quebrarem braços, pernas, clavícula, nariz. Não botarem fogo na casa. Nem pularam no poço. Tampouco no sumidouro do Rio Encantado. Não deixar o filho do patrão comer terra. Colocar comida na boca do menino. Ter vontade de comer a comida, que jamais poderia ser minha. Nem vir-me à boca. Acudi moleques, de tudo quanto é jeito. Existo para cuidar dos outros. Tenho pavores calcificados dentro de mim. Vez ou outra, eles botam os narizes para fora. Eu deveria ter sido do Corpo de Bombeiros, se as letras a mim não tivessem escolhido.

 

Bem, eu voei, até eles. Cheguei perto. E vi. Uma cotia arfando no chão. Os pelos imensos marrons. Com tonalidades que chegavam ao verde musgo. A menina maior explicou: “vovó, salva esse ‘cotio’, coitadinho. Ele levou a maior coça. Tentou chegar perto da cotia, cheia de filhotinhos!”. “Um ‘cotio’, meu Deus do céu, o que eu faço?”, gritei. Eu carregava uma toalha de banho, nas mãos. Toalha de banho, para mim, serve para apagar fogo. Estancar hemorragia. Afugentar bichos. Pegar peixe grande preso no raso. E, inclusive, enxugar-me depois do banho, além de carregar “cotio” que apanhou da mulher. Ou melhor, apanhou da cotia.

 

Pensei que o bichinho sairia em desabalada carreira, quando eu o tocasse. Mas, não. Deixou-se entregue. Envolto na minha toalha branquinha. Há que se reconhecer a solenidade dos atos. Aquele era um raríssimo e solene momento. A vida selvagem. Arisca. Intocada. Obrigado a entregar os pontos para o inimigo. Para um ser humano. No caso, eu. Humana. Pensei nas muitas vezes em que me escondi de gente. Quando, com o estilingue, caçava passarinho para o almoço. Quando armava arapuca. E arrancava tatu, pelo rabo, de sua toca. Eu enfrentava qualquer bicho. Mas homem, não. Tinha pavor dos animais da minha espécie. Senti-me compreendida pelo bichinho.

 

Um misto de agradecimento e ternura pelo “cotio”, no meu colo. Que foi no colo, que o carreguei para os primeiros socorros. Como um bebê, aconchegado no peito. Fiz como de costume: cuidei de mais um filhote. Depositei-o em uma bacia de plástico. A toalha branca, ainda o protegia. As crianças cochichando: “vovó, não deixa ele morrer, por favor”. “Vovó, coitadinho, está sagrando, perto dos olhinhos”. “Vovó, você sabe salvar cotios?” Enquanto eu avaliava o que fazer. A sala de visitas, uma improvisada enfermaria.

 

Fiz o óbvio. Dei-lhe água, na boca. Pingando da ponta do meu dedo indicador. Ele bebeu duas gotinhas. Continuou quietinho. Aspergi-lhe a fronte. Águas sagradas. Meio que batismo. Rito de iniciação, no meio dos humanos? Nada disso. Na verdade, dei-lhe um enorme susto. Netos berrando. Aos pulos, para não esmagar o selvagenzinho. Maior correria, em volta do sofá. O bicho recuperara-se. E batia a cabeça na porta de vidro. Não tinha saída.

 

Escondeu-se. Escancarei a porta. A corrente de ar o atingiu. Abrimos caminho. Ele fugiu. Ensandecido. Um tiro, em direção à segurança de apanhar da cotia. Eu fiquei com a toalha e a bacia. E as mãos abandonadas, ainda molhadas pela sede do bichinho. Meus olhos atentos na tela de arame galvanizado. Um medo, imenso, de o cachorro interceptar-lhe o caminho. Mas o ‘cotio’ passou ileso. E embrenhou-se mata afora. Ou adentro, tanto faz.

 

Na manhã seguinte, cuidava eu de coisas próprias de vovó. Creio que fazia bolinhos de chuva. Ou poemas. Não me recordo direito. De repente, deparei-me com ele, o serzinho. Passeava pela minha sala de visitas. Cheirava todo e qualquer cantinho. E o susto, dessa vez, foi meu. Segurei a respiração. Ele deu mais umas três voltinhas. Mirou a porta aberta. Vazou, feito um míssil. “Passei para retribuir o carinho”, tenho certeza que ouvi a voz do ‘cotio’. A gratidão comoveu-me. Agradeci aos céus, por minha vez. Por pouco não pego no choro. Escolhi rir. Quase a mesma coisa, nesse caso. Nunca mais apareceu, por aqui, o “cotio”.

 

 

 

 

 

 

Vale-tudo

 

Geraldo morava do lado da minha casa, quando éramos adolescentes. Ele, um pouco mais velho. Gostávamos de Raul e dos Secos e Molhados. Quando e eu meus irmãos resolvíamos fumar, para contrariar nosso pai, corríamos para a casa de Geraldo. Eles eram ainda mais pobres do que nós. Todos abaixo da linha da miséria. Os quatro irmãos, homens, mais o pai e mãe, formavam a família de Geraldo. Ninguém lia ou escrevia. Todos analfabetos. Nós íamos para a escola, quando dava. Fizemos o Ensino Médio. Mal completavam dezesseis e extraiam os dentes para colocar dentadura, sempre que os meninos do Projeto Rondon aportavam na cidade. A maioria ria dentes maiores que a boca, alinhadinhos de dentadura.

 

Baixinhos, para os padrões italianos da minha família, tinham, no máximo, um metro e sessenta e cinco. Lutadores, literalmente. Os quatro irmãos formavam duas duplas de “luta livre”, conhecida também como vale-ludo. Eram bons. Os músculos bem torneados, a despeito da comida escassa, da pouca idade, representavam o Município, em toda a Região. Eu tinha medo, mesmo quando me diziam que era faz de conta ou mentirinha. As vezes que assisti aos combates, tinha certeza de que todos sairiam quebrados. Ouvia o estalar de ossos, dos meus amigos e dos seus adversários.

 

Na verdade, eles lutavam vale-tudo nos fins de semana, porque, durante os dias úteis, a luta era ainda maior. Como eu e meus irmãos, trabalhavam como boias-frias, volantes, diaristas rurais, como éramos conhecidos. Subíamos em um caminhão, descoberto, antes das seis da manhã e, às vezes, rodávamos cinquenta quilômetros apinhados, um segurando no outro. Uma corda amarrada de uma ponta à outra da carroceria do caminhão velho e pronto: a mão direita agarrava a corda, a esquerda, o ombro ou o braço do amigo. Formávamos um bloco para sobreviver às curvas, aos buracos, à chuva e ao vento gelado do sul. Nós nos protegíamos. Paredões humanos, presos à mesma sina. Reféns de garantir “o pão nosso de cada dia”.

 

Sábado e domingo eles tornavam-se heróis. Aquelas centenas de pessoas amontoadas nas arquibancadas de madeira, do campinho e o um ringue no meio. Eles ganhavam uns trocados que ajudavam na compra da comida. Muitas vezes, recebiam para perder. E perdiam. Que diferença haveria perder, no ringue, o que a vida lhes roubava todos os dias? A dignidade é conceito de quem passou da fase da barriga vazia. Dar o peixe vem antes de se ensinar a pescar, eis que a fome impede o aprendizado, qualquer que seja. Até mesmo da pescaria.

 

Geraldo gostava de mim, diziam. Eu, quatorze anos, ele, dezoito. Tocava violão. Eu amava ouvi-lo imitar o Ney Matogrosso: “Vira-vira, vira homem, vira-vira vira vira lobisomem”, e o Raul: “eu que não me sento no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”. E “metamorfose ambulante”, a melhor de todas. Por vezes, estava em casa, lendo uma fotonovela escondido do pai (“isso é coisa de biscate”, falava ele) e, de repente, o Geraldo me gritava; “Ouve, lindinha, tá tocando nossa música, no rádio”. Era o Raul. Metamorfose. Vivíamos o vale-tudo e éramos felizes. Talvez, alienados. A miséria tira também o foco, rouba a visão da realidade e o direito de se buscar alternativas que libertem. O estômago fala mais alto, aliás, o único som que se consegue ouvir, quando faminto, é o ronco do estômago vazio.

 

Eu e minha família nos mudamos da cidadezinha da nossa nudez. Dos meus amigos de infância, poucos sobreviveram. A maioria morreu antes dos quarenta.  Mentira que você constrói o próprio caminho. Mentira que só depende de você. Faço parte dos dois por cento dos boias-frias que, de lá, saíram e da única família em que os filhos foram para a Universidade. Não fossem meus pais brancos e incentivadores; se meu pai não fosse um jovenzinho que acreditava no futuro dos filhos, tenho certeza de que eu não estaria, aqui, contando histórias. Teria ficado à beira do caminho ou na zona de meretrício. Ou nas mãos de um peão alcoolizado, a apanhar na cara, como tantas meninas que conheci.

 

Geraldo permaneceu por mais um tempo, naquela cidade. Não foi muito longe. Eu sempre procurava por notícias dele e da família. Passou a fase do vale-tudo. Ninguém mais se interessava por aquilo. Nem mesmo existia o MMA. As máquinas substituíram os braços escravos, nas lavouras de soja, de café e de algodão. Geraldo não construiu família. Repetia: “a ninguém deixarei, o legado da minha desgraça”. Decorou. Eu havia-lhe contado sobre Machado de Assis.

 

Soube por uma amiga comum que, um dia, Geraldo não quis ir à missa, porque se sentia indisposto. Semana difícil, não conseguira trabalho. A mesa quase vazia. Não entendia os pais, irem à Igreja, agradecer. Estava triste e preferia ficar sozinho. Na volta, depois de participar da eucaristia, a família chegou e encontrou uma corda pendurada no teto. E Geraldo pendurado nela. Não há romantismo na falta de o que comer. Na sina dos pobres não cabe meritocracia.

 

 

 

 

 

 

Meus quarenta dedos do meio

                    
Só é livre quem conhece a prisão. Cresci correndo pelo meio do mato, feito bicho. Livre, da fome, inclusive. Quando se carrega fardos grandes demais, o corpo quase plana, quando o peso é largado fora. Lei da gravidade descompensada. Meio labirintite. Porém, depois que se recupera o prumo, a vida torna-se leve. Aprendi a ser livre. Tenho predileção pela liberdade de expressão.

 

Quando menina da roça, eu escutava mais que falava. Era quieta, como as cobras quando espreitam corruíras. Por outro lado, nasci italiana. Um dia, pulei entre a cobra e o passarinhozinho hipnotizado. Um pedaço de pau nas mãos ameaçando a cobra e um grito de “xooô” pra espantar o aladinho. A jararaca sibilou, botou a língua partida ao meio, algumas vezes, para fora e sumiu no meio da capoeira. O passarinho, zonzo, voou para longe do perigo. Também aprendi a lutar em favor dos mais fracos: não suporto injustiça contra os oprimidos.

 

Das minhas memórias de menina, surgiu também a lembrança de uma história que recentemente vivi. Eu estava na fila do açougue do supermercado, enquanto aguardava o vagaroso andar da carruagem e minha vez de ser atendida. Ouvia o zum-zum-zum das conversas ao redor, para mim, tique-taques do relógio que espero despertar: só ouço o sino quando explode a hora marcada. O gongo me arranca do sono.

 

Por isso mesmo, sobressaltei-me quando escutei dois marmanjos discorrerem sobre a desnecessidade de dar carne aos pobres: “ao menos carne de primeira, não precisava”, concordavam. E enfatizavam a ninharia do custo dos pés de galinha e dos ossos separados para descarte, ou para os cachorros, mas que davam excelente sopa. “Só passa fome vagabundo ou quem quer”, dizia um. Ao que o outro replicava: “tudo na mão, hoje, Nestor. Não entendo tanto drama. Povo mal acostumado”. E riam alto. E meneavam as cabeças engorduradas. Os olhos gordos, empapuçados. E andavam mais um passo.

 

Sou contra me meter em conversa alheia. No entanto, do sangue quente dos italianos, herdei também a dádiva de ter vinte dedos do meio. Eu os imagino eretos, em destaque, toda vez que estou no caos do trânsito, ou quando um desinfeliz se mete, a dez por hora, na minha frente. Na verdade, tenho quarenta dedos do meio para qualquer tipo de injustiça. Civilizada, escondo-os.

 

Assim, não entendo porque, naquele dia não resisti, e desabei a rir, feito louca, na fila. E meus dedos do meio se rebelaram. E se levantaram por mim. Comprei dois quilos de pés de galinha (aliás, amo de paixão pés-de-galinha, basta olhar ao redor dos meus olhos), e comecei a atirar, um a um, na fuça dos marmanjos desgraçados, aos gritos de “que tal um churrasquinho?”.

 

Mostrei os dedos. Muitas vezes. Mais de quarenta vezes, enquanto pinchava os pezinhos brancos, cheios de dedos – coisa maravilhosa – na testa dos debochados, aqueles apavorados demônios, meus vizinhos de ambiente climatizado, carvão e cervejas geladas. Eu me arrependo. Errei. Deveria ter comprado ossos, que são bem mais pesados, para tacar na cara daqueles cachorros de dentes arreganhados.

 

Talvez tenha me lembrado dos dias das minhas agonias, quando o fogão de lenha e barro, na cozinha de panelas quase vazias, crepitava gravetos e solidão. Os calos de sangue nas mãos do meu pai, quando derrubava mata atlântica. O desdém do patrão em não lhe dar a paga. Meu estômago à espera do feijão com farinha. Ou, quem sabe, tenha visto no espelho, que brilhava na parede da frente, os olhos dos meus irmãos a espreitarem espigas que não cresciam. Ou as covas feitas no chão, nu, para cobrir de terra os corpos dos menininhos desnutridos. O que conta é que, naquela tarde, saí da linha.

 

Pode ser, também, que a corruíra hipnotizada pela cobra, em meu caminho, tenha, realmente, me despertado a sair em defesa dos mais fracos. Me ensinado a não suportar desatinos de injustiça. Ando por aí, livre, do mesmo jeito de quando morava no mato. Faço compras onde quero e não pretendo mudar, coisa alguma, por hora. Ninguém mais me cumprimenta, na fila do supermercado. Por dentro, rio. Quieta e cheia de dedos – em riste.

 

 

 

 

 

 

Dos pés vermelhos de algodão

 

A colheita do algodão era trabalho pesado, embora a brancura de nuvem e os fios de seda enganassem. Eu e meus irmãos catávamos algodão. Acho que comecei a sumir no meio dos espinhais da safra, antes dos onze anos, e era a mais velha. Os três menores, que já podiam trabalhar, desdobravam-se, pois tínhamos meta. A cada arroba colhida, mais chance de não faltar comida naquela semana, já que nas entressafras, faltava. E não tínhamos crédito. O pai nem sempre conseguia honrar os compromissos financeiros. Nossa casa não possuía luz elétrica ou água tratada, por isso, aprendemos a tirar água, do poço, desde os sete anos. Lamparina de querosene, até os meus dezessete. Como não tínhamos conforto algum, só o não ter o que comer era fantasma que estava sempre a nos assombrar.

 

Quando acabava tudo, a mãe, desesperada, tentava acudir os filhos, lavando roupa para fora, enquanto eu e minha irmã fazíamos faxina. Não poucas vezes, ficamos ser receber a diária, já que não era somente o pai que não pagava o que devia. A mãe, então, mandava: “vai, lá, no mercado do Seu Moacir e pede para ele vender um quilo de arroz, fiado. Fala que eu mesma pago, na semana que vem”. E eu ia. Muitos nãos eu recebi. A mãe não desistia, ordenava, segurando o choro, para que um de nós fosse ver “se tinha osso, no açougue, para doar”. Ou “pé de boi, no matadouro”. Ou “uma caneca de feijão, na vizinha”. Bendito tempo de colheita do algodão. Benditas as semanas de despensa garantida.

 

Para catarmos o algodão, primeiro, tínhamos que amarrar um fardo de estopa na cintura que, cheio, chegava a uns sessenta quilos. Nossas mãos ágeis de crianças bicavam as maçãs abertas do algodoeiro a arrancarem tufos de lã, até sangrarem os dedos, em volta das unhas, mas nem nos importávamos com isso. Jogávamos a neve dentro do fardo e arrastávamos a carga mais uns metros. Quando a distância do carreador ficava grande, voltávamos para pesar o recolhido, para trocar o abarrotado, pelo vazio. Deixávamos uma esteira cavada no chão vermelho, e os rastros dos nossos pés descalços, de meninos, sumiam.

 

Às vezes, o frio chegava, antes da hora, e o mês de maio se tornava inverno. Trabalhávamos descalços, mesmo quando a geada cobria tudo. As primeiras horas do dia eram dolorosamente geladas, mesmo no almoço, quando comíamos a boia fria. Uma marmita cada, para serem divididas em duas refeições. A água, ao contrário, era servida sempre morna. Não dispúnhamos de banheiros. O algodoal nos protegia. A humilhação das necessidades fisiológicas, não pode ser descrita. Nada sabíamos de nossos Direitos, que dirá dos tais Humanos.

 

Os escravocratas não têm limites. São poços sem fundo de egoísmo. Por outro lado, a submissão à opressão extrema, desde a meninice, roubou-nos a força de reação. De tanto sermos forçados, perdemos os limites sobre nós mesmos, assim, não nos pertencíamos mais. Tornamo-nos objetos para uso dos fortes, a se formar um círculo vicioso: “Coisa extremamente dura é lutar contra os aguilhões”, registra o Livro Sagrado.

 

Nos anos de ferro, da ditadura, o trabalho infantil, bem como aqueles em condições análogas à de escravo eram naturais, normais, aceitáveis. “Melhor o pouco que o nada”, diziam-nos, enquanto agradecíamos a Deus. O lado bom – se é isso fosse possível – é que, sendo legal, não necessitavam nos esconder das autoridades, por isso, pudemos ir à escola e a educação nos redimiu. Abriu-nos os olhos. Arrancou-nos as algemas. Estudar fez toda a diferença na minha vida e na vida dos meus irmãos.

 

Quando ouço notícias sobre trabalho escravo, especialmente o infantil, choro. Não consigo ficar imune a tão grande dor: à tamanha vergonha. Sempre que uma fazenda com trabalho escravo é descoberta, flagrada, desmontada, e os trabalhadores resgatados, alforriados, a liberdade deles também se torna minha. Nossa, da minha família, dos meus amigos que morreram intoxicados pelo BHC. Dos que morreram, porque caíram do caminhão que nos levava para a lavoura, feito animais. Das minhas amigas meninas que foram para as casas de prostituição, em busca de uma vida melhor.

A Justiça que, hoje, se faz, alcança-nos, aqui, quase quarenta anos, depois da nossa redenção. Falo a verdade. Quem luta contra a escravidão sabe. Quem foi escravo sabe mais ainda.

 

Ivy Menon é poeta, advogada, pós-graduada em Filosofia e Teoria do Direito, Bacharel em Teologia. Nasceu em Cornélio Procópio, o Norte Velho do Paraná. Boia-fria até os 20 anos, Ivy, desde pequena, amava os livros e os bancos da biblioteca. Depois de sair da roça, trabalhou em “O Diário do Norte do Paraná”, em Maringá, onde deu início a uma carreira de jornalista autoditada. Atuou em jornais e assessorias de comunição, tendo sido, inclusive, Chefe da Seção de Imprensa do Tribunal Regional do Trabalho, em Cuiabá, e do Cartório da Justiça do Trabalho, em Rio Negro, onde se aposentou.

Em 4 de dezembro de 2006, venceu o I Concurso Carioca de poesia promovido pela Associação Brasileira Cultural de Apoio à Cidadania (Abraci) que contou, entre as parcerias, com a Academia Brasileira de Letras (ABL), Como prêmio, teve publicado seu primeiro – e único – livro de poesia, “Flores Amarelas”. Ocupou a Cadeira nr. 31 da Academia de Letras de Maringá. Este ano, foi uma das classificadas no Prêmio OF FLIP, na categoria Poesia.

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Paginação:

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