ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Helena Barbagelata Simões


Jebel musa

Levantavas-te, ao suplicar das
almádenas, regando o meu rosto
com a água do nardo, nas madrugadas
desguarnecidas, e o mundo a nascer
e a renascer três vezes, nas tuas
vinhas estanques, a encharcares
de terra os tonéis dos olhos, água,
água, para os peregrinos, a vergares
a ossatura da alma sobre o soalho
despido de tua casa, venderam
os joelhos dobrados, pela
sepultura de um homem, dizias,
e carregávamos o mundo no dorso,
subíamos, todos os dias ao
alcantil gravando decálogos
nas areias do caminho longo,

 

O teu sol murchava sobre os lençóis
de vento das minhas meias-tardes,
abocando galés de pássaros estrangeiros
na preamar, com a pólvora estalando
na escora inerte do teu rosto, quando
dizias, o amor e a morte passam pela
cidade, e se insinuavam pelo dédalo
das ruas, pelotões de alfanjes
e sombras; e vinha a noite e a fome
desbastava a seda aos teus tapetes de rosas,
e desvestiam-se os palmeirais, um por
um, e os irmãos trocados
por quarenta ouros amoedados
de sangue, e tu

 

Suplicavas às almádenas, acontecia-te
nascer na garganta o contraponto
de uma filomela, que abalava
ao cair do verão, quando dizias
só ter por amigos, um inferno
e um paraíso, e havia um
hino ao atracar do meu sorriso,
e havia logo, a marcha fúnebre
com as minhas lágrimas
que sempre partem, água,
água, para os peregrinos,

e o teu,

 

Coração que sempre fica,
na gema dos dedos, estendendo
o cálice suspenso, a ressobrar
de almíscar, a abraçar-me sem
um gesto, embrulhada nas alas
finas das tuas mãos, como uma
criança perdida no ventre de
um monte, e o mundo a nascer
e a renascer três vezes, nas artérias
quentes dos teus ombros, a transportares
o meu corpo exangue por uma
escadaria de quatro mil degraus,
com os meus pés gastos trazendo
a memória perambulada do sal,
feitos andorinhas-de-mar,

 

De trânsito pelo entreposto
branco da tua açoteia, a esvaziarem-se
no teu mercado de sentidos, no arrimo
de um deserto distante, dizia-te,
amor colocou uma espada sobre
a minha alma, e só permite que
veja a noite, e tu pousaste o meu
coração e a pluma sobre os pratos
do dinamómetro, e sentenciaste
a leveza justa, com uma espinha
de dor no olhar calado, verteste
o luto sobre a concha das
minhas mãos,

água, água, para os peregrinos,

e ali,
o meu rosto.

 

Helena Barbagelata Simões (Lisboa, Portugal, 1991). É artista visual multidisciplinar que desenvolve trabalhos em pintura, ilustração e fotografia. Seus trabalhos que misturam técnicas de pintura e aquarelas, apresentam matizes que caminham entre as nuances do abstracionismo e surrealismo. Helena é também escritora, cientista política, curadora e colunista da Revista Philos.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2018


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Paginação:

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