ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Fernando Andrade


Dois contos

Mark| Frank
Identidade


Mark nunca tinha sido marcado na escola, nem na lista de chamadas. Um dia passaram a marcá-lo. Mark ia à escola para aprender tanto as disciplinas quanto se socializar um pouco. Mark nasceu e já saiu com este nome. Seu pai adorava outro Mark – o Twain. Mark morava mais ou menos longe da escola, e no ponto de ônibus ele ficava na marquise, lugar que lhe dava uma certa tranquilidade, pois achava que se escondendo ali, ninguém haveria de notá-lo para fazer trocadilhos com seu nome. Ninguém ia notar que ele estava exatamente no lugar que serviria para zoar ele. Pois Mark quando estudou a Revolução Francesa no oitavo ano, alguns gaiatos lhe apelidavam de o marquês; além disso, nas provas de múltipla escolha não conseguia fazê-la pois no enunciado vinha a seguinte palavra: marque a alternativa certa. Todos olhavam para ele, ficava nervoso e acabava tirando zero na prova.

 

Mark saiu da escola e fez vestibular. Passou por que a prova era dissertativa, se fosse por sua livre espontânea escolha, provavelmente ficaria sem uma profissão de peso que sua família tanto queria. Tinha pela sua frente que esquecer os rótulos pois estes vinham com algo que vinha com uma marca. No seu psicanalista ele pensou - falando alto - que eu sou uma marca. Sim, você é uma marca da existência, disse o psicanalista com os decalques que toda marca traz. “O erro é que nos faz existir”.

 

Viu esta frase num muro quando ia para seu primeiro dia de trabalho. Estava nervoso com medo de dizer seu nome, algo tão próprio dele que pensou em falsificar o nome e dizer que se chamava, Antônio. Quando estava passando por uma marquise viu uma mulher ameaçando pular lá de cima. Era uma situação danada de aflitiva. Parou e olhou para ela, a altura não era nem tão alta, mas ela podia se machucar.
 Pensou em puxar papo; mas começou a suar muito. A mulher notou e de lá de cima, perguntou – por que você está suando tanto, meu caro? Eu tenho uma “alergia”. A quê? A trocadilhos. Filhos? Não! Meu nome é Mark. Prazer Mark. Eu sou operada, e tenho um marca-passo no coração. Mas hoje meu coração parou... - por quê? Um rapaz bonito me deixou. Estudei filosofia sabia? O rapaz resolveu se aquietar pois não sabia que viria pela frente, e as lembranças da infância adolescência vinham à sua mente a todo momento. Marcuse. Pelos menos ela estava trocando o K pelo C. Um cara genial que tacou fogo no pensamento da Contra Cultura. Ele ensinava a individualizar-se sem se conformar. Que os rótulos não prestam para nada! Que as pessoas são bombas morais para pegar fogo no sistema! Mark use, fala alto, pulando lá de cima de jeito cinematográfico.

 

 

 

 

 

 

Frank
e Potência

   Frank achava que o ar era o meio ideal para transmitir palavras. Mas Frank tinha por vocação poetizar tais palavras numa espécie de casulo. Segundo seu mestre: palavras são pontos seguidos de som que seguem linhas, ainda não melódicas. O espaço é o meio da viagem das palavras. Como o é, também, o lugar onde existe ouvintes para compreenderem tais palavras. Embora estes tais estejam cada vez mais incorpóreos, se já é difícil a fala como enunciação, imagine se Frank encapsular as ditas palavras.

 

Frank tinha os olhos azuis.

 

Frank tinha a voz e era conhecido com (o dono da voz). Frank não tinha amigos pois quando falava tinha o dom do falar, sem importância. Ele adorava círculos, (não de amigos). Tudo nele era tracejado, assim como desejado. Explico:  Frank não tinha o jeito de falar de montão, nem de falar à montanha, nem de montantes? Frank adorava fraquejar traçado de linhas.

 

Frank entrou para o cinema, e foi ser ator. Achava que ele, Frank inserido entre cenas e cortes era algo bonito demais para sua imagem pessoal. Ele atuou naquele filme o Homem do braço de ouro, onde ele usava algumas coisas que iam além da sua linguagem de pássaros. E nestas horas Frank traçava linhas de fuga para o que ele mais gostava de fazer: cantar. Emitir som desta forma sem uma conotação eminente, sem ficar preocupado, se vão lhe entender se houver ouvidos por perto.

 

   Frank um dia foi pra Guerra. O som lá era altissonante. Frank começou a pirar. Via uma algazarra de linhas sonoras indo e vindo numa comutação de vida-e-morte. Frank não sabia onde meter a cabeça. Vinham fortíssimos de estalidos de bombas, metralhadoras, mísseis, e Frank via seu corpo como uma única forma de não se desintegrar mentalmente. Frank começou a fraquejar em linhas, não de fuga, mas de desinência. Frank ia para lá , para cá em busca do silêncio primordial.

 

Fernando Andrade, 49 anos, é jornalista e poeta. Faz parte do Coletivo de Arte Caneta Lente e Pincel e do coletivo Clube de leitura onde tem dois conto Quadris na coletânea  “volume 3” e Canteiro no “volume 4” do Clube da leitura. Colaborador no Portal Ambrosia com entrevistas com escritores e resenhas de livros.  Tem dois livros de poesia pela editora Oito e meio.  “Lacan Por Câmeras Cinematográficas” e “Poemoemetria”, “Enclave” ( poemas) pela Editora Patuá e “A perpetuação da espécie” pela Editora Penalux.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2018


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Paginação:

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