ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Eduard Traste


Poemas

atemporal


peço perdão toda vez que fecho os olhos
e consigo me desfazer da realidade
quando o ódio adormece
e os pássaros se fundem em metal pesado
e tinta amarela
quando a cantoria habitual
torna-se um ruído cortante
impossível de ser digerido
e meu pai incomodado desce da cruz
para discutirmos sobre aquele aluguel
que atrasei quando tinha
nove anos
de absolutamente,
nada.

 

 

 

 

 

 

uma verdade


tudo em mim soa assim
desagradável, sim
mas vou mentir
pra mim? seguir assim, eu
por mim desejo que meu fim
seja assim, nesta linha verdadeira
eu por mim e minha vida,
inteira.

 

 

 

 

 

 

vivas criaturas


no ônibus,
você escuta a conversa
e acha aceitável.
dois seres autênticos
um assunto
plausível
um ponto de vista
interessante
e então você se vira
e confirma: os pés ainda
não alcançam
ao chão.

 

 

 

 

 

 

receita de bomba caseira


deixe de trepar
deixe de se masturbar
deixe de fumar
deixe de beber
deixe de reclamar
alimente-se mal /
mal se alimente
- tanto faz? tente!
durma pouco
e tome muito café,
ou cuidado.


repetir até
explodir.

 

 

 

 

 

 

atenção às perguntas


- o que você faz? você
não trabalha? não estuda?
não toma banho? não se
barbeia? não escova os dentes
todo santo dia?
e peida sempre alto? e
arrota na mesa? e não vai
à igreja? e não acredita em Deus?
e bebe todo dia? e começa sempre
de manhã? e só termina
quando acaba
contigo? – ela não se calava
depois de ver de perto
minhas cuecas
sujas..

“baby,
sou no máximo
um mínimo
poeta, e olhe
lá..”
 

e quando ela olhou
eu me fui, ainda em tempo
desta vez..

 

 

 

 

 

 

de um inferno ao outro


antes eu sempre sabia
quando o capiroto me espreitava.
agora vivo na dúvida: é ele
ou a debochada da minha vizinha
outra vez
de tamancos
novos?

 

 

 

 

 

 

Deusas


poucas mulheres
já me deixaram
com o pé
atrás, na dúvida
quanto à existência
desse tal
Deus
e suas obras
divinas..


você, Raissa
sem dúvida alguma
é uma delas.

 

 

 

 

 

 

sonata dos infernos


toco o dantesco piano
com minhas patas de cachorro
humano


esperando soar como satã
mas a música é simples
sem nenhum elã


ainda assim persisto
porque o agrado precisa ser feito
ainda hoje, ou nada


feito.

 

 

 

 

 

 

na prece diária


encontrou na Igreja
o Papa de joelhos
abençoando Jesus,


Cristo!

 

 

 

 

 

 

entre livros e litros


sirvo-me dos livros
como sirvo-me
dos litros, assim sendo
tenho alguns bons
amigos.


– pra não citar
Voltaire

 

 

 

 

 

 

no frescor da doença


tornou-se
retardado
mentol.

 

 

 

 

 

 

poeta amarelo


nasceu estranho
e virou piada
mas era bom demais
pra ser apenas piada
no fim das contas
virou poema
e morreu estranho


sem rima,
sem nada.

 

 

 

 

 

 

consciência apurada


alguns poemas se perdem feito consciência
no sábado à noite, e nunca mais
são recuperados.


em mais uma noite
mal iluminada pelos observadores
postes, movimento meus pés
repetidas vezes, saindo do lugar
decidido a ser alguém
melhor.
já não posso mais.
preciso largar o cigarro
o trago, a erva
a putaria, os tecos
os baques
e todos os outros
vícios.
preciso ter horários
preciso ter amigos
preciso ver meus
filhos



PRECISO MUDAR!



preciso incluir comida
no cardápio diário
compartilhar com a mesma mulher
um almoço farto
alimentar o gato
com comida de gato
no fim das contas;
viver uma vida
mais digna.
afinal, que sujeito ébrio
tenho sido? quem foi
que ainda
não desrespeitei?
quem sou eu
para o gato que atualmente
mudou de cardápio?
e para o rato
que desamarrou
meu cadarço?



no caminho do trabalho,
que já não percorro há alguns dias,
começo a seguir um homem.
um sujeito aparentemente
normal.
com passos precisos
parece saber onde quer
chegar - e isso muito me atrai
por isso apresso o passo
ainda mais
visto que ele caminha rápido
lembrando bem
minhas próprias passadas
meu próprio
ritmo,
a diferença;
parece saber
onde vai - definitivamente
por isso continuo seguindo-o
disfarçadamente
não ousando se quer
tirar as mãos sujas
dos bolsos furados.
preciso ver
onde este homem vai chegar
e como vai se salvar.
eu verdadeiramente não sei o motivo
mas não consigo evitar
sinto que preciso aprender algo
com ele
parece ser a única saída
por isso aperto novamente o passo
quando o vejo
sem nenhuma dificuldade
adentrar em um ônibus
todo vermelho.
eu grito com o motorista
que fechou a porta na minha cara
chuto a porta, faço o diabo
e então ele a abre
novamente, embora que me ignorando
totalmente, como se
eu fosse invisível, ainda assim
antes que eu possa dizer
qualquer coisa
ele me comunica sem dizer
uma única palavra:

"permitimos animais
porém jamais
uma consciência
apurada"



sem reação, observo o ônibus partir
lentamente, a ponto de conseguir ler
em sua lateral em letras sinceras
e amarelas:



   ser “normal” é o ideal
   dos que não tem
   êxito.

 

 

 

 

 

 

fragmentos espaciais


não comprei
comida de gato
declarei falência
renal
dormi com a janela
em cima dos braços
abertos.

 

 

 

 

 

 

infância


vejo crianças na rua
e quando olho para trás
não vejo


nada.

 

 

 

 

 

 

poema


com a mente distante
ansiando ouvir o som de outros lugares
desejando respirar outros ares
descobrir outras almas,
mas não querendo ficar por lá
por muito mais tempo, muito menos
aqui.. por hoje apenas
respiro contigo
junto de ti,
poema.

 

 

 

 

 

 

da natureza


recorto um jornal
afio uma faca
amarro um cadarço
pinto uma parede

e então percebo
que todos poemas
de alguma maneira
deveriam soar simples

assim.

 

 

 

 

 

 

 

pergunta quente


“então é assim
que começa o começo
do fim?” - me pergunta
o cigarro já em meus lábios
embora que ainda
apagado.
como responder
tal pergunta? não sei!
inicialmente brocho
e o cigarro pende
para baixo - obviamente
mas em seguida
minha mente ausente
se faz presente
tentando não soar doente
frente ao indagador
cigarro quente..
em vão, eu até tento mas
mais uma vez me calo
e o calo, fumando
-lhe até
o talo.

 

 

 

 

 

 

 centrípeto


o que esperam da poesia
aqueles que ainda hoje
feito galinhas hipnotizadas
seguem linhas estipuladas
pelo poeta das coordenadas?
quem poderia por mim pensar
melhor maneira de se expressar?
porque deveria então hoje
continuar seguindo o perdido
cantando na corte de Frederico
que nem se quer era o primeiro?
porque encaixar minhas ideias
em uma forma estabelecida?
talhar da natureza sua beleza?
não tenho dúvidas só certezas
de que formas ou coordenadas
honestamente, pouco ou nada



me importa.

 

Eduard Traste descobriu que não tinha salvação. Desde então vem destilando os necessários pingos de vida para seguir em frente, de seus escritos e outros tragos. Escreve no projeto www.estrAbismo.net, e tem materiais publicados nas revistas: Alagunas, Escambau, LiteraLivre, Philos, Ruido Manifesto e Subversa.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2018


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Colaboradores de Dezembro de 2018:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandra Vieira de Almeida, Alicia Salinas ; Rolando Revagliatti, entrev., André Caramuru Aubert, André Nigri, Beatriz H Ramos Amaral, Caio Junqueira Maciel, Casé Lontra Marques, Cecília Barreira, David Sarabia, Eduard Traste, Eliana Mora, Fernando Andrade, Francisco Orban, Geovane Monteiro, Helena Barbagelata Simões, Henrique Dória, Ivy Menon, Jandira Zanchi, Jorge Bateira, Jorge Castro Guedes, José Antonio Abreu de Oliveira, Katyuscia Carvalho, Krishnamurti Goés dos Anjos, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Lino de Albergaria, Luiz Otávio Oliani, Luiz Roberto Guedes, Maria Emília Lino Silva, Marinho Lopes, Narlan Matos, Ramon Carlos, Ricardo Ramos Filho, Rita Faleiro, Rocío Prieto Valdivia, Salomão Sousa, Silas Correa Leite, Taise Dourado


Foto de capa:

Tríptico do pintor alemão George Grosz


Paginação:

Nuno Baptista


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