ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Beatriz H Ramos Amaral


Teoria das Ondas

(“Teoria das Ondas", integra o livro de contos  "Os Fios do Anagrama" (contos-pulsações). Este livro foi premiado com o Prêmio Troféu Literatura 2017 e a segunda edição, de julho de 2018, foi lançada em Portugal neste mês de novembro, a convite do Palácio Baldaya, em Lisboa. Foi lançada na Flip, edição 2018, em Paraty; na Bienal do Livro  de São Paulo, e na Livraria Cultura Iguatemi em julho, agosto e setembro de 2018.)

 

A transparência me reporta à (tênue) ideia de mar. Provavelmente haverá uma razão para que as águas não ultrapassem este ponto. A noção provisória ideia das marés, o embrião de sua força, o gesto azul de sua escolha, o embalo da música soprando a narrativa.

 

Fixo-me no intervalo que medeia as ondas – na inocorrência volitiva dos atos. Tenho o azul do raso ao fundo e em meu porto circulam matizes de um cromatismo ancestral. O que vejo? O que me fascina? Paisagem marinha que se projeta, inteira, em minha direção.

 

Vejo ondas superpostas despaginando visões arcaicas. Algumas delas lançam-se contra as rochas. A natureza indômita do mar desconhece as sutilezas da memória e teima em apagar, a cada golpe de água, instantes e acervos de pretérito.

 

É desnecessário precipitar-me. Cristais de areia estendem-se por quilômetros indivisos. Estou firme, âncora resoluta, prestes a conhecer outro oceano. Alguma câmara tentará extrair-me o impenetrável.

 

Olhos colhem fragmentos de antigos naufrágios, sem solução de continuidade. Inaugura-se em mim uma sensação anfíbia: vaga após vaga, meus instantes em segundos devolvidos.

 

(Dizer-te tudo, de outro modo). Dizer com os poros, até onde os veleiros não puderam alcançar. Entender-te, península, pressupondo teus avanços rumo à sub-aquática instância que me penetra as retinas.

 

(Abandonar meus filmes e personagens que amadureceram nos olhos da areia, esses olhos que se escrevem, serenos, sem jamais marejar. Receber-te em terra fértil, a tripular-me na ressurgência das águas).

 

Num barco distante, planam miragens descobertas por binóculos. Impressionismos: correntes/vazantes já me permitem passar além do acaso.

 

Desenho do vento. Inquietude. Onde está a coesão? O que irrompe na tela do enredo? Ruptura de reflexos na superfície marítima. Fresta que me abriga em súbito mergulho – lá onde a mente torna-se plena, navega-me, página em branco adormecida, na avidez poética dos náufragos.

 

(Trazer-te à tona. Saber fixar teu primeiro gesto em minha história, onda após onda, para além de uma ponte incriada. Fluir pelo descuido dos segredos revelados. Afogar-me em tua metáfora – abismo selvagem da luz.

 

(Meditar a véspera da viagem não filmada – relógio partido sobre a areia.

 

(Depois, compreender-te ficção).

 

Oceano, sê completo em tua resposta, cinematografia que insiste em reter o instante inaugural, suspenso no ar, sobre as ondas, qual sensível pupila, em incessante movimento de pesca.

 

 

Beatriz H Ramos Amaral, escritora, poeta, ensaísta e musicista brasileira e paulistana, Mestre em Literatura e Crítica Literária. Publicou os livros “Planagem”, “Alquimia dos Círculos“, “Primeira Lua”, “Cássia Eller - Canção na Voz do Fogo”, “A Transmutação Metalinguística na Poética de Edgard Braga”, “Os Fios do Anagrama”, “Luas de Júpiter”, “Cosmoversos”, “Desencontro”, “Encadeamentos”, “Poema sine praevia lege”, Coordenou ciclos e eventos literários. Palestrante em várias cidades e estados do Brasil e em Portugal. Participa de dezenas de coletâneas e recebeu vários prêmios. É também formada em Direito pela USP e em Música pela FASM. Integrou o MPSP de 1986 a 2016. Foi Secretária-Geral e diretora da UBE-SP e é Assessora Cultural da ABMCJ-SP.

Site: www.beatrizhramaral.com.br

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2018


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