ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Alexandra Vieira de Almeida


A AMBIGUIDADE DE NOSSA CULTURA SALOBRA EM THIAGO SCARLATA

 

(fotos de Wladimir Vaz)

 

Neste novo livro de poemas de Thiago Scarlata, salobre, dividido em três partes (soro, salário e salinas), o poeta extrai o sumo e despeja o apodrecimento do mundo, as duas faces de uma mesma moeda. Tendo um olhar que lembra o imaginário barroco, ele nos revela a transitoriedade e brevidade das coisas em nossa realidade. É primorosa a qualidade literária de tal livro por ora aqui analisado. Ele vem nos falar da utilidade e inutilidade das coisas e o título não poderia ser mais convidativo. Salobre, o mesmo que salobro possui algum sabor de sal e , que na água, por ter como componentes os sais e outras substâncias, tornam a água de sabor desagradável. Jogando com a ambiguidade do sal, ele tanto agrada quanto desagrada. A segunda parte do livro, intitulada, “salário” nos mostra o poder do sal e de sua polissemia. Salário tem origem no latim salarium, que significa “pagamento de sal” ou “pelo sal”, tido em alta conta no Império Romano.

 

No Dicionário de símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, temos a potência deste elemento em sua extrema ambiguidade. E é neste sentido que Thiago Scarlata vai construindo seu livro, com riqueza analítica, aguda e corrosiva, ao mostrar a duplicidade do símbolo. Lemos no Dicionário acima mencionado: “O sal é, ao mesmo tempo, conservador de alimentos e destruidor pela corrosão”. Scarlata tem a agudeza da análise cirúrgica, como um perito da escrita, em cortar as faces múltiplas das palavras, as esmiuçando: “e então o osso/ esse não é fácil.../ envolve sede/ dente/ e perícia/ para saber exatamente/ como sugar/ o que ainda há de caldo (...) ”.

 

Utilizando letras minúsculas tanto nos títulos das partes quanto nos versos, Thiago tira a solenidade das coisas nobres, para falar do abjeto, dos restos, daquilo que nos incomoda, sem ser sublime. A beleza de seus versos ampara a crueldade com que ele nos mostra a face escatológica do mundo. Num dos poemas em que fala do ônibus, podemos nos lembrar de dois poetas consagrados da literatura. Primeiramente, percebemos a relação entre o erótico e o maquínico, ao discursar sobre este meio de transporte, transportando-nos para o heterônimo Álvaro de Campos, que, em “Ode triunfal”, nos apresenta a relação erotizada entre o homem e a máquina. Como futurista, Campos mistura a tensão entre o artificial e o carnal/natural. Scarlata dá um novo sentido a isso, nos revelando o poder da metáfora e da imagem ao revelar sobre a utilidade ou inutilidade dos objetos da contemporaneidade: “ônibus/ essa máquina/ de levar// ejacula óleo, fuligem/ e fumaça (...)”.

 

Num segundo momento, temos a lembrança de um Augusto dos Anjos, que mostrava nos seus poemas termos científicos e o abjeto. Vemos em Scarlata palavras técnicas próprias ao maquinário do ônibus. Ele diz: “cárter, virabrequim/ pistão, biela/ válvula de escape,/ cilindro e vela (...)”. Tudo em itálico para nos mostrar a especificidade de uma linguagem que se valeu da extrema pesquisa e conhecimento de causa. Com ironia, humor negro e perícia, Scarlata produz uma obra que contém elementos heterogêneos e ambíguos como a água salobra, que tem um pouco de sal e doce. O poeta mistura poesias mais longas com menores. Versos mais longos com mais curtos. Também temos a fragmentação do discurso, ao usar estrofes de apenas uma linha. Dando pausas ao caráter impactante dos versos, Thiago sabe driblar com maestria seu entendimento da natureza das coisas. E isto é muito filosófico. A poesia de abertura nos revela este poder de análise adentrando a alma do sal e suas sombras, apesar da cor branca: “morrer de sede/ rodeado de água/ num barco/ à deriva// ou// beber o sal// sentir o sal// viver o sal// até entender// o sal”. Scarlata, fugindo da sublimidade, faz uma apoteose do insólito e não nos mostra algo tão palatável assim, como a água salobre, e nisto temos o eco de Augusto dos Anjos, mas numa versão diferenciada pelo poeta por aqui analisado.

 

No poema “saco de lixo”, vemos a reflexão sobre a inutilidade dos restos, como se aquilo que adoeceu em nós fosse expelido para fora das entranhas. Esta comparação entre o resto e o humano é magistral, fazendo a poesia de Scarlata ganhar um peso especialíssimo. No livro do grande crítico literário Alfredo Bosi, O ser e o tempo da poesia, temos, no capítulo “Poesia-resistência”, a seguinte análise: “A poesia resiste à falsa ordem, que é, a rigor, barbárie e caos, ‘esta coleção de objetos de não-amor’ (Drummond). Resiste ao contínuo ‘harmonioso’ pelo descontínuo gritante; resiste ao descontínuo gritante pelo contínuo harmonioso. Resiste aferrando-se à memória viva do passado; resiste imaginando uma nova ordem que se recorta no horizonte da utopia.” O poder de reflexão sobre o real em Scarlata produz esta dupla face de crueza e sonho, a realidade e o simbólico, sendo a terceira parte do livro, “salinas”, a mais metalinguística e que trabalha mais com a linguagem simbólica.

 

No poema “branco”, encontramos a face simbólica da cor branca do sal e do silêncio do poeta, a página branca da escrita produzindo seus medos e anseios. Mas também fala de crítica social, nesta mudez imperturbável do homem que quer gritar aos quatro cantos do planeta e produzir seus ecos. Vejamos esta resistência na poesia de Scarlata: “branco-branco/ tudo branco// a fome/ a falta// dor/ e/ mofina/ a pomba/ a guerra// e os dias/ que duram anos ” . Unindo imagens díspares, Thiago nos propõe a experiência do impacto e choque da realidade: os resíduos, os restos, as ruínas, o esfacelamento do mundo, do tempo que se esboroa. Apesar da brutalidade do mundo, ainda nos resta a paz e a utopia, com o sabor da escrita onírica e simbólica. O poeta aqui em questão joga com a linguagem, com a palavra , nos põe de frente ao duplo da palavra, sua luz e sua sombra, sua outra face na linguagem. Em “sujeito e verbo”: “o arranque/ drástico/ do braço// assim o pastor/ prega orações/ subordinadas”. É pelo riso e pela ironia que Thiago Scarlata consegue a difícil proeza de amainar o peso das coisas.

 

O livro também traz algumas homenagens a nomes consagrados da literatura como Cervantes e Manoel de Barros, tendo uma intertextualidade com eles, trabalhando com a linguagem intensamente. Mas apesar das referências e diálogos, Thiago Scarlata tem uma voz própria, especialíssima, produzindo um livro ímpar e singular. Sobre as coisas necessárias e desnecessárias, o autor sabe, com grande domínio da linguagem, cotejar. A mistura das coisas, esta natureza dual de tudo, nos faz recordar de Guimarães Rosa que mostra a força dos contrários, o divino e o demoníaco, a coincidentia oppositorum de tudo que nos rodeia, inclusive dentro de nós mesmos. Em “O poço”, de Scarlata, lemos: “nenhuma água/ de poço é neutra// energizada pelos séculos/ e corrompida de argila,/ traz consigo à superfície/ um verdadeiro folclore/ de sais minerais (...)”. 

 

Thiago nos fala desta “cultura salobra”. A ambiguidade da própria expressão nos leva ao terreno do poético e da imagem. Sem pontuação final nos poemas, ele nos dá a ideia de continuidade, num ritmo que não para, o próprio movimento da vida e da sua escrita que só faz evoluir. Com variedade estilística, Scarlata produz uma obra excepcional que revela seu amadurecimento como escritor que não para de crescer. A frieza e a crueldade da realidade são traduzidas em belos versos que diminuem o impacto da brutalidade do mundo e nos faz refletir sobre o real e nós mesmos num poder de autorreflexão e conhecimento. Portanto, Thiago Scarlata consegue traduzir em salobre a voz de nossa face ambígua e da natureza dual das coisas, com grande encanto, ironia e beleza. O poeta vai longe e se supera cada vez mais ao longo do tempo, mostrando que a genialidade não está pronta, mas é produto de um longo trabalho com a escrita que não acaba, mas que progride cada vez mais.

 

Alexandra Vieira de Almeida é poeta, contista, cronista, ensaísta e resenhista.Tem Doutorado em Literatura Comparada (UERJ). Tem quarto livros de poesia publicados, sendo o mais recente Dormindo no verbo ( Penalux, 2016). Tem poemas traduzidos para vários idiomas e publica constantemente em jornais, revistas, antologias, e alternativos por todo Brasil e também no exterior.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2018


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Paginação:

Nuno Baptista


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