ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Maria Emília Lino Silva


O nome

"Ninguém pensa o pensamento: este aguarda o advento do pensador que se projeta através do pensar. São os pensamentos que se afirmam em nós. E nós nascemos para carregar essa ferida que nos supõe e nos espreita."  (Bion)

 

"Ninguém que, como eu, conjure os mais maldosos dos demônios semidomesticados que habitam o peito humano, e que com eles procure se medir, pode esperar sair ileso do combate."    Sigmund Freud, (Caso Dora).

 

E o que é um nome? Para um músico, pode ser um som; para um artista plástico, uma cor, uma forma, uma textura; para as pessoas em geral costuma ser uma palavra, embora talvez se precise ser um poeta para realmente entender o que seja uma palavra. Ou uma Hellen Keller. Nascida cega, surda e muda, sua educação foi a princípio negligenciada. Contava já seus sete anos quando teve a oportunidade de aprender o que é uma palavra. A professora, Ann Sullivan, oferece o precioso relato:

“Hoje cedo, enquanto se lavava, ela quis saber o nome correspondente a ‘água’. Quando quer saber o nome de alguma coisa, aponta para essa coisa e dá umas palmadinhas na minha mão. Soletrei ‘água’ e não pensei mais no assunto até depois do café… Mais tarde, fomos até a casa da bomba, e fiz que Hellen segurasse sua caneca debaixo da bica, enquanto eu bombeava. Ao jorrar a água fria, enchendo a caneca, escrevi ‘á-g-u-a’ na mão aberta de Hellen. A palavra, que se juntava à sensação de água fria que lhe escorria pela mão, pareceu sobressaltá-la. Deixou cair a caneca e quedou como que paralisada. Nova luz iluminou-lhe o rosto. Soletrou ‘água’ varias vezes”.

 

Esta descrição pode ser vista segundo dois vértices complementares, seguindo as ideias de Bion. O primeiro, mais dinâmico, focaliza o momento em que os estímulos mentais relativos às sensações táteis da água e dos sinais que a designavam, ligados entre si mas dispersos na mente, reuniram-se aí subitamente a outras conjunções e todas, nesse instante, passaram a pertencer à mesma ordem de fatos. Emergiu assim a concepção de relacionamento entre representação e coisa representada, uma relação que se passa não ao nível do concreto (coisa) mas do simbólico (não coisa); não ao nível do particular mas do universal. Em outros termos, a concepção de NOME, com sua característica de “princípio”, com sua relação com a “não-coisa”, podendo ser aplicado na ausência, na inexistência, na dimensão temporal.

 

A representação se passa, pois, em dois níveis. No nível de consenso (grupal), ela tem a ver com o código linguístico e permite a troca de informações entre pessoas. Embora tendamos a ver uma língua como algo cristalizado em dicionários e gramáticas, ela não é estática nem intemporal, mas viva e suscetível a mudanças, inclusive à possibilidade de “morrer”, como o latim. Há palavras, por exemplo, que caem em desuso, como “dandi” ou “glamour”, e também há aquelas que perdem seu valor. Num tempo em que se “limpa o nome” com procedimentos burocráticos remunerados, parece estranho recordar que houve épocas em que se “lavava a honra” com sangue.

 

Resolver um problema na ausência do objeto do desejo pode ser facilitado recorrendo-se a esse instrumento importante: o NOME da coisa ou fato, não precisando ser necessariamente uma palavra articulada. O nome é uma representação da coisa, e portanto difere da coisa mesma. Esse NOME pode ser uma hipótese definitória, ou seja, uma demarcação provisória para ser reformulada com o decorrer da experiência. Pode ser também um fato selecionado.

 

“O fato selecionado, quer dizer, o elemento que dá coerência aos objetos da posição esquizo-paranóide e inicia assim a posição depressiva, o faz em virtude de seu caráter de pertinência a um número de diferentes planos dedutivos em seu ponto de interseção”. (BION)

 

Talvez fosse melhor chamá-lo “fato emergente”: uma pista – ou conhecimento – que, ao invés de ser acrescentado externamente, emerge da situação com base em suas próprias características intrínsecas. Como o lendário fio de ARIADNE, esteve presente desde o começo do problema, invisível embora. A conjuntura total, as condições de sua presença, suas relações com a solução conferem-lhe a importância vital que a caracteriza.

 

Encontrar o fato selecionado supõe tolerar a situação frustradora que ele resolveria, e manter a atenção relaxada à espera que os dados dispersos revelem seu sentido. Sem esta paciência é frequente que se procure forjar saídas apressadas. Sua aparição se reveste da emoção vitoriosa e que teria sido experimentada, suponho, por Teseu, ao se ver novamente fora do labirinto, vencedor do Minotauro-Objeto Mau. Saída do labirinto que pode simbolizar a passagem do caos à síntese, da dispersão de estímulos ao sentido de EP a D.

 

“A intromissão de um fato selecionado é acompanhada de uma emoção como a que se experimenta ao observar uma perspectiva reversível. O processo total depende de uma atenção relaxada. Esta é a matriz para a abstração e identificação do fato selecionado” (Bion). Esse fato selecionado, essa solução salvadora não é mágica nem instantânea: esteve ali a cada passo, a cada medo, a cada dor. Abstraído de cada experiência. Construído, trabalhado, conquistado. E um fato selecionado geralmente floresce em forma de nome.

 

 

Três modelos de funcionamento mental

 

Procurando extrair dos enunciados de Bion um modelo para o “aparelho de pensar”, surpreendi-me encontrando três. Ou seja, a mente subentendida nos processos de pensar descritos parecia variar segundo a situação específica em questão. Convém esclarecer que nem toda atividade mental pode ser chamada de pensamento, mas aquela que se destina a resolver problemas e a aprender da experiência. Relaciona-se, portanto, com o Princípio de Realidade. O que acontece quando este é atacado ou, como vimos anteriormente, quando a função alfa não pode operar adequadamente? 

 

PRIMEIRO MODELO. Bion descreve situações em que, ao invés do “aparelho para pensar”, desenvolve-se o “aparelho para a identificação projetiva”. Este segue processos diferentes dos usuais, dos quais emerge uma “mente geométrica”, representada/representando através de pontos e linhas. (Sua descrição mais detalhada está no livro intitulado “Transformações”.)

 


Para alguns pacientes que sofrem de distúrbios agudos de pensamento – também chamados “psicóticos” – os “símbolos” que criam substituem os objetos, ao invés de representá-los e, portanto, não se forma a base para que as palavras venham a ser utilizadas como um prelúdio ao invés de um substituto para a ação. Ou seja, seu pensamento é caracteristicamente “concreto”, utilizando-se em larga escala de elementos beta ou pensamentos-coisas.

 


Para poder ajudá-los é preciso que o psicanalista alargue seu próprio continente. Como a mãe de um bebezinho ainda desprovido de elementos alfa, o psicanalista precisa desenvolver uma capacidade de “rêverie” capaz de acolher os elementos beta que lhe são projetados e devolvê-los despidos do excesso de emoções, toleráveis, para que o paciente vá se acostumando a conter elementos mentais e, posteriormente, possa introjetar a função alfa. 


SEGUNDO MODELO. O “aparelho para pensar” propriamente dito desenvolve-se para entrar em contato com a realidade, resolver problemas e aprender com a experiência. Este foi detectado como uma “mente ternária”, operando por ‘pré-concepções’ e ‘realizações’. (Na tese eu a chamava de “mente edípica”, mas mudei para ternária por ser um termo mais abrangente). Duas exemplificações interessantes podem ser observadas no hai kai e no silogismo. Em psicanálise existe também uma estrutura ternária fundamental: o Édipo. Baseado no mito grego que lhe dá o nome, apresenta-se também como um modelo de funcionamento mental em que os elementos obedecem a uma ordem narrativa delimitando uma conjunção constante, característica de uma experiência emocional particular. Para isso é necessário o contato com a realidade. A esse processo se dá o nome de conhecimento, ou de aprendizagem a partir da experiência.

 


A partir disso eu ‘realizei’ assim o seguinte modelo: O princípio para a expansão, para a animação, precisa do princípio para a contenção, o limite. A vida precisa se fazer forma, o ilimitado precisa se definir. O primeiro (   1) é como o pai biológico, fertiliza num átimo. O segundo (   2) é como a mãe biológica, precisa gerar no tempo a nova forma, a concretização do impulso. A imagem ou o impulso visualizados de relance, efêmeros e intensos como a vida, requerem tempo para nascer na palavra, no gesto, na imagem concreta (  ). Estes produtos tornam-se continentes para novas situações, e assim as experiências vão adquirindo um sentido primitivo. Com o desenvolvimento mental outros modelos, mais evoluídos, vão sendo articulados, até se chegar a abstrações. O que permanece destas primeiras construções pode adquirir, depois, a caracterização do que os psicanalistas denominam “fantasias”.

 

Uma intensa emocionalidade perpassa ambos os “aparelhos”, especialmente através do conceito de tolerância à frustração e de seu polo negativo, o ódio à realidade.

 

TERCEIRO MODELO. Outras vezes, Bion falava em pensamento sem pensador, em contato direto, intuitivo, com a Divindade (sem nenhuma caracterização religiosa). E então como que emergia um outro modelo, em que a mente podia “estar” não no interior do sujeito pensante mas na relação, no grupo, ou mesmo “pairando no ar”. Por falta de uma melhor denominação, chamei-a de “mente transcendente”, por essa propriedade de estar além (ou aquém) dos continentes mentais, produzindo pensamentos que podem, então, buscar um pensador.

 


“A verdade não é humana – existe, apesar do homem”. Assim, BION afirma a independência entre pensamento e pensador, ou antes, entre a verdade e o pensador. Quando este busca a verdade seu trabalho é muitas vezes subjetivo, no sentido de se despojar de tudo que possa interferir como um obstáculo na captação do que existe antes e apesar desse esforço. Livrando-se, por exemplo, de memórias, desejos e teorias anteriores que se interpõem entre o pensador e a ideia nova. Receptividade, pôr-se de acordo, fé na existência da verdade são as atitudes correlatas. Tal é a base para a atividade clínica do psicanalista.

 


Já a mentira não existe: precisa ser inventada. Para isto, é necessário um pensador. Diferentemente da falsificação, ou erro, que é por assim dizer um acidente natural, a mentira supõe um viés moral, uma afirmação de superioridade, uma presunção de vitória sobre os semelhantes. Se a verdade requer uma atitude passiva de simples constatação, a mentira exige um esforço ativo de construção. Tal “esperteza” constitui, em si, uma pretensa prova de superioridade. A mentira é, pois, uma falsidade associada com moral. Supõe a defesa de um sistema moral violentado. Nesse sentido, aparece como uma forma de resistência encarada aqui não como um pensamento, mas, ao contrário, como uma defesa contra um pensamento à procura de um pensador, ou contra sentimentos de depressão.

 


O delírio é pois uma atividade substitutiva para evitar o “trabalho que se faz em nós apesar de nós”, como disse COCTEAU, ou seja, a preparação para a emergência de um pensamento verdadeiro.  Uma forma dessa defesa é o apego ao rigor lógico e, em especial, a uma teoria de causação que só tem sentido no domínio da moralidade, uma vez que o significado (a verdade) não causa nada. Estas são, pois, as regras de manipulação dos pensamentos nas transformações que levam a uma mentira. 


É possível que, ao “realizar” estes três “modelos”, – o geométrico, o ternário e o transcendental – eu tenha me afastado demasiadamente do texto bioniano. Mas não será talvez isso mesmo que ele pretendia, quando recomendava que se “esquecessem” seus escritos? Não será assim que ele incentivava o advento da “ideia nova”? 

 


(A partir de LINO DA SILVA, Maria Emilia, Pensando o pensar: uma introdução a W. R. Bion, São Paulo: Casa do Psicólogo/Flama Editora, 2ª edição

 

Maria Emília Lino  Silva nasceu em Ponta Porã, MS, Brasil, em 1945 e com onze anos foi morar em São Paulo, SP. Fez a graduação, mestrado e doutorado na USP, SP. Sua tese, Pensando o pensar com pensamentos de W. R. Bion está publicada como Pensando o pensar: uma introdução a W. R. Bion. Exerceu a clínica psicanalítica por 30 anos e a docência em pós-graduação em psicologia clínica por 20 anos na PUC-SP e PUC-Campinas. Coordenou o livro Investigação e Psicanálise onde participa com o artigo “Pensar em Psicanálise”. Publicou vários artigos em revistas de Psicologia e de Psicanálise. Mantém duas páginas no Facebook, uma ligada à Psicanálise (W.R.Bion por M.E.L.S) e outra ligada à Literatura (Livre pensar é só pensar). Publicou um conto na antologia Sós e está preparando seu primeiro romance.

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2018


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Dezembro de 2018:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandra Vieira de Almeida, Alicia Salinas ; Rolando Revagliatti, entrev., André Caramuru Aubert, André Nigri, Beatriz H Ramos Amaral, Caio Junqueira Maciel, Casé Lontra Marques, Cecília Barreira, David Sarabia, Eduard Traste, Eliana Mora, Fernando Andrade, Francisco Orban, Geovane Monteiro, Helena Barbagelata Simões, Henrique Dória, Ivy Menon, Jandira Zanchi, Jorge Bateira, Jorge Castro Guedes, José Antonio Abreu de Oliveira, Katyuscia Carvalho, Krishnamurti Goés dos Anjos, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Lino de Albergaria, Luiz Otávio Oliani, Luiz Roberto Guedes, Maria Emília Lino Silva, Marinho Lopes, Narlan Matos, Ramon Carlos, Ricardo Ramos Filho, Rita Faleiro, Rocío Prieto Valdivia, Salomão Sousa, Silas Correa Leite, Taise Dourado


Foto de capa:

Tríptico do pintor alemão George Grosz


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR