ANO 5 Edição 74 - Novembro 2018 INÍCIO contactos

Henrique Dória


Editorial

As comemorações do armistício da chamada Primeira Guerra Mundial (na realidade, não uma guerra mundial mas uma guerra europeia), fizeram perceber a tensão que se vive hoje entre a Europa democrática e a América de Trump. Quando Macron disse que a Europa tem de se defender da China, da Rússia e da América de Trump, ele disse o óbvio para os mais atentos: um Trump que manda o fascista Steve Bannon para a Europa, a fim de colocar no poder dos estados europeus os herdeiros de  Mussolini e Hitler e destruir a União Europeia como começou a fazê-lo com o Brexit, um Trump que é colocado no poder por Putin através dos seus serviços secretos, é algo que a Europa deve considerar como perigo eminente.


Mas certamente que Macron e Merkl têm boas razões para acreditar que Trump já acordou com Putin fazer da Europa uma zona de influência russa. Não pelo poder económico russo, nem pela sua importância demográfica: na verdade, a Rússia é uma apenas uma média nação em termos económicos e demográficos, muito abaixo do poder económico e demográfico da Europa. Mas o enorme poder militar da Rússia não pode deixar de assustar e por a Europa em guarda.


Uma Europa fracionada, como a querem Trump e o seu mentor e emissário para a desintegração europeia, Steve Bannon, será sempre presa fácil para a Rússia. Não é só o quarto, e hoje mais importante, ramo das forças armadas que conta, o ramo da inteligência artificial. São também os acordos traiçoeiros que se fazem por detrás da cortina.
Esteve bem Macron ao mostrar a Trump que os líderes europeus que defendem uma Europa unida sabem o que Trump e Putin tramaram.


E a Europa que se meteu em aventuras e despesas militares para defender, no Iraque, a força do dólar contra o euro, que Sadam Hussein queria como moeda para pagamento do petróleo, não deve aceitar os recados de Trump sobre a participação europeia nas despesas da NATO.


A proposta de umas forças armadas europeias é o melhor garante desta Europa onde se respira a liberdade, essa liberdade que Trump não quer na América nem na Europa, e que está disposto a destruir, como os casos do Brasil de Bolsonaro e da Itália de Salvini o demonstram.
Mas a Europa não se deve ficar por aí. É tempo de que faça soar o alarme sobre a política das zonas de influência que Trump mostra ter acordado com Putin e Xi Jinping: as Américas para os EUA, com o Brasil como pilar de apoio; a Eurásia para o eixo Pequim- Moscovo, e a África para quem mais rapinasse.


É tempo de a Europa reconhecer que a África é a nossa vizinha e amiga. É tempo de a Europa perceber que o Mediterrâneo é um lago europeu/africano hoje, como o foi no tempo da Roma imperial. É tempo de perceber que as línguas e a cultura que fazem muito da unidade africana são, no essencial, europeias, e, no caso da cultura, uma cultura europeia influenciada pela cultura africana.


O colonialismo fez, e faz, muito mal na África. Mas também fez muito bem e deixou, apesar de tudo, muitos afetos, como o demonstra o último sistema colonial, o português.


São esses afetos, são essas língua e cultura, juntamente com relações económicas justas, que devem ser o cimento duma nova relação entre a Europa e a África: uma relação entre vizinhos, entre irmãos ( não ignoramos que os europeus tiveram o seu berço  na África, no grande Vale do Rift) que se dão bem, mas têm de se dar muito melhor, para bem de ambos.

HENRIQUE DÓRIA

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2018


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Paginação:

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