ANO 5 Edição 74 - Novembro 2018 INÍCIO contactos

Pollyana Quintella ; Bianca Madruga


Bianca Madruga: canto-te à noite e tu definitivamente existes

Canto-te noite
 e os meus olhos sempre abertos são a pergunta
 instante pendente de eu te interrogar noite
 e interrogo as coisas em seu ser nocturno
 em seu estar sombriamente presentes na tua claridade
 obscura.
Excerto do poema Noite Canto-te Noite, Ana Hatherly

 

Depois de expor um outdoor vazio — e para o vazio — no pátio do Paço Imperial, Bianca Madruga especula sobre as propriedades da noite nesta instalação individual apresentada no Alinalice. São 60 quilos de pó de mármore, objetos, folhas, fios e ganchos dourados que estruturam um desejo do escuro, onde o sentido é aberto e fugidio, mas denso. 

 

Com a matéria que retira de buracos feitos nas paredes da casa (aqui são três, no total), Bianca constrói objetos do tamanho do seu punho e do seu útero, explorando as cavidades da arquitetura como matéria orgânica. De um lado da sala, um tapete de pó de mármore foi feito com o mesmo peso do corpo da artista. Ele ocupa o chão como uma mancha negra com pontos luminosos, efeito dos minérios, enquanto um disco suspenso se equilibra por um fio dourado. Do outro lado, dois objetos feitos com restos de concreto e folhas de ouro pontuam silenciosamente o espaço. Um buraco foi preenchido com uma peça de mármore negro, enquanto mais abaixo, no chão, os resíduos da sua cavidade permanecem expostos. Junto a isso, a luz rarefeita projeta sombras de arabescos nas paredes.

 

Essa matéria que se desloca — das paredes para os objetos, do corpo para o chão — é essa espécie de magia do estado noturno, espaço subterrâneo de reinvenção e suspensão das definições, vetor de êxtase e criação. O corpo, cujo peso foi transformado em pó e a medida foi transformada em objeto, experimenta um exercício de diluição, buscando também alguma leveza que se assente.

 

Bianca se serve do vazio e da falta incessantes e de seu preenchimento impossível. O fracasso, a impossibilidade de completar-se, é elemento do trabalho, sua matéria e assunto. De algum modo, há uma disputa entre desejo e melancolia. A noite tem seus riscos, mas algo se concretiza, o corpo organiza a agonia, desloca a matéria, transforma o resto em objeto, o desejo se afirma.

 

Além disso, há duas constâncias no seu trabalho: primeiro, uma sinceridade da matéria, um certo respeito pela substância com que se trabalha — o mármore é ele mesmo, o resto de parede é ele mesmo, não há vontade de simulação; segundo, um interesse em utilizar a medida do mundo como medida do trabalho — o peso do corpo, o tamanho do punho, o tempo dos dias, a duração das horas. São metodologias rituais, orientações, procedimentos. Mas é preciso, sobretudo, nutrir-se de algum silêncio.

 

Como Herberto Helder ilumina, há em cada instante uma noite sacrificada ao pavor e à alegria. Espaço de disputa, a noite é o tempo do desejo, do nosso desejo, apesar deles.

 

 

 

Pollyana Quintella é curadora assistente do Museu de Arte do Rio, pesquisadora independente e colunista da Revista Pessoa. Formou-se em História da Arte pela UFRJ e é mestre em Arte e Cultura Contemporânea pela UERJ, com pesquisa sobre Mário Pedrosa. Atuou como pesquisadora na Casa França-Brasil, coeditora da revista USINA e colunista do jornal Agulha. Curou exposições em instituições e espaços independentes no Rio e em São Paulo. 

Bianca Madruga é artista visual. Doutoranda em Artes Visuais na UERJ. Formou-se em filosofia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Participou de exposições coletivas no Rio, Niterói e em Curitiba.  Em 2012, realizou a exposição individual na Sala José Cândido de Carvalho. É gestora e cofundadora do espaço A MESA.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2018


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Foto de capa:

CANDIDO PORTINARI, 'Painel Tiradentes: detalhe 3: execução de Tiradentes', 1948.


Paginação:

Nuno Baptista


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