ANO 5 Edição 74 - Novembro 2018 INÍCIO contactos

Nagat Ali


Meu Egito, minha América

Ainda me lembro de meus jovens amigos americanos que me ligaram durante a revolução de 25 de janeiro  de 2001, no Egito, mostrando o seu apoio a nós contra a tirania de Mubarak. Alguns deles viveram por um período de tempo no Cairo e adoraram. Um desses amigos americanos ligou-me, dizendo com uma confiança que eu nunca esquecerei: “Teremos um protesto diante da Casa Branca até que o presidente Obama pare de apoiar Mubarak.”

Naquela época, eu senti-me incrivelmente forte, depois de ouvir o presidente americano responder a esses protestos e sentindo-se desconfortável por ter apoiado um regime despótico e corrupto. Alguns meses após a partida de Mubarak, viajei para os EUA para uma residência de escritores em São Francisco e fiquei comovido com o  respeito e apoio que vários americanos demonstraram  à nossa revolução e ao nosso desejo de escolher por nós mesmos.


Todas as vezes que eu visitava um Estado, eu via um sinal da natureza multifacetada da América. Mas, sob muitos aspetos, eu fico mais encantada com o seu lado liberal - tão evidente em São Francisco. Eu vi e visitei a Universidade da Califórnia, em Berkeley, e caminhei pela praça, o local de manifestações estudantis famosas, ouvindo com paixão a minha amiga americana, Lori Wood, sobre a importância das manifestações que o lugar testemunhou, onde as faíscas do anos 60 entraram em erupção: as detenções e a violência que os estudantes sofreram.


Talvez esse toque liberal seja parte da magia de São Francisco - o que levou, então, muitos gays americanos a procurá-la como um refúgio seguro, que acendeu a primeira faísca dentro do “Movimento de Libertação Gay”, formando nos anos 70 a maior manifestação desse movimento, na famosa rua de Castro.


E também me lembro como fiquei entusiasmada quando decidi participar numa pequena manifestação que encontrei, por acaso, no centro de São Francisco - organizada por um grupo de americanos,  não estando, infelizmente, nenhum árabe entre eles - exigindo a saída de Bashar Al-Assad, que havia assassinado brutalmente milhares de pessoas do seu povo.
A minha última visita à América foi para uma residência de escritores na cidade de Chicago, durante a disputa acirrada pela eleição presidencial nos EUA. Foi tema quente em todos os lugares. Uma vez expressei  o meu espanto a vários escritores e artistas sobre os dois candidatos, Trump e Hillary Clinton, e disse-lhes, com alguma surpresa: “A América é o maior país do mundo. Como isso pode ter essas únicas escolhas? E como pode ter como candidato à presidência um Trump?


Em Chicago, nunca encontrei ninguém que apoiasse Trump. Em contraste, ouvi pessoas ridicularizando Trump, dizendo: “Ele é um louco. Desqualificadol para administrar um país como a América. ”


Quando estava em Chicago, seguia Trump pelos jornais e pelos mídia,  e nunca pensei que uma pessoa racista como Trump ganhasse a presidência. Nem uma única pessoa estava convencida da qualidade desse indivíduo para tão alto cargo. O homem só é bom para reality shows cómicos.


Mas, um dia, um dos meus colegas na residência, que era o mais jovem dos escritores americanos que estavam conosco, fez uma piada sobre meu excesso de confiança quanto à derrota de Trump. Ele disse: “Trump assemelha-se aos irmãos muçulmanos que  tu tens no Egito. E a sua derrota não é uma certeza. Ele não é tão tolo quanto tu imaginas. Ele tem muito apoio de conservadores e grupos de interesses especiais. Ele explora com astúcia o desprezo de um grande número de americanos pela crise económica, a prevalência do desemprego, e apoia o racismo já existente em alguns americanos que não dão as boas-vindas aos imigrantes árabes. ”


Voltei ao Egito pouco antes de os resultados das eleições presidenciais americanas serem anunciados. Fiquei frustrada com a vitória de Trump. Pensei: "Meu Deus, como puderam os americanos eleger esse fascista que despreza as mulheres, os negros e os muçulmanos, não respeita ninguém, e até faz pensar, quando o vemos a falar na televisão, que temos pela frente um ditador do terceiro mundo e não um governante dum país tão bom quanto a América!”
Mas a minha tristeza mudou para uma enorme alegria quando vi passar na televisão as imagens da sociedade americana erguendo-se contra Trump e fazendo grandes exibições de chapéus cor-de-rosa. São de muito menor dimensão os vários protestos que se fazem nos estados liberais contra a sua decisão de proibir a entrada de imigrantes de sete países muçulmanos.
O presidente americano passou apenas algumas semanas na Casa Branca e demonstrou um único talento: fazer inimigos rapidamente, de tão agressivo que é interna e externamente.

Alguém poderia interrogar-se sobre quem apoia esse indivíduo quando até mesmo alguns membros de seu próprio partido o rejeitaram e  à sua contínua tolice.


Estou a seguir, agora, os escândalos do Presidente Trump e a batalha sem paralelo que o feroz judiciário americano está travando contra seu despotismo para provar ao mundo que a América ainda é grande. As instituições dos EUA vão proteger essa grande nação, e resistirão a qualquer um que ameace os valores nos quais a Constituição americana foi baseada: uma Constituição que respeita a diversidade e a liberdade. Por isso, não estou tão preocupada com este país, mas confiante  em que Trump sairá em breve, e os Estados Unidos permanecerão uma sociedade que abraça os imigrantes e triunfa pela diversidade e liberdade.

 

Nagat Ali

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2018


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Foto de capa:

CANDIDO PORTINARI, 'Painel Tiradentes: detalhe 3: execução de Tiradentes', 1948.


Paginação:

Nuno Baptista


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