ANO 5 Edição 74 - Novembro 2018 INÍCIO contactos

Adriane Garcia, Sérgio Fantini, org.


Minicontos para futuro nenhum

Introdução

 

Adriane Garcia & Sérgio Fantini

 

O mundo sabe que o Brasil acaba de eleger um candidato de extrema direita. A campanha eleitoral deste 2018 foi o clímax de um estado de ânimo que começou com as Jornadas de Junho de 2013, iniciadas por uma reivindicação local (diminuição do custo da passagem de ônibus na cidade de São Paulo) que tomou proporções nacionais e outros vieses graças à manipulação da mídia. Naquele momento, começava a ficar mais claro para os bons observadores que a sociedade, grosso modo, vinha se transformando de uma forma assustadora. A ignorância demonstrada sobre a história, a política, a cultura e todas as pautas humanistas passou a ser ostentada como uma bandeira; o culto a elementos há muito dados como danosos à sociabilidade, como a homofobia, o racismo, a xenofobia, o machismo e a misoginia passou a pautar as atitudes das pessoas: amigos, familiares e colegas de trabalho começaram a se estranhar em sua rotina. As instituições todas revelaram conter em suas entranhas quadros corruptos e bastante dispostos a desrespeitar as leis para obter vantagens as mais espúrias possíveis. Por fim, o Estado brasileiro assumiu uma postura antidemocrática e partidária como nunca se viu.

 

Os artistas não foram insensíveis a este movimento. Muitos se posicionaram claramente e colocaram sua arte e seus corpos à disposição da vida, e assim estamos resumindo vida em sociedade fraterna em uma situação política democrática e justa.

 

Em setembro, com a iminência da eleição de Jair Bolsonaro, dada pelas pesquisas, a poeta Adriane Garcia criou o projeto “Minicontos para futuro nenhum”: ela própria deu a partida e deixou em aberto que seus amigos, via redes sociais, contribuíssem. O tema deveria ser, claro, como será a vida em um Brasil sob a presidência de um governo excludente, militarista, armamentista e preconceituoso. Aqui estão quatorze autores e suas quatorze previsões para um terrível futuro.


ÁDLEI DUARTE DE CARVALHO (Belo Horizonte/MG)

 

A bola foi dar, novamente, no milharal do Jeremias. Isso sempre acontecia nos finais de semana, quando os meninos desciam para jogar no descampado. Sempre dois ou três atravessavam a cerca, à surdina, para resgatar o brinquedo. Sempre bêbado e ranzinza, o Jeremias corria atrás, desengonçado, até que tropeçasse nas pernas e estatelasse no chão. Os garotos sempre riam, faziam troça, depois sumiam.

 

Desta feita, entretanto, o Jeremias havia conseguido adquirir uma arma de fogo, porque, nos registros da repartição, sempre fora um “cidadão de bem”.

 

Nunca o vilarejo vira um féretro tão pequenino e triste.

 

 

ADRIANE GARCIA (Belo Horizonte/MG)

 

Douglas e Sheila se despediram de Lucas. Tarde para chorar. O Brasil não se transformava na Venezuela. Transformava-se nas Filipinas. O novo presidente batera continência para a bandeira dos Estados Unidos e não fora à toa. Boas relações, apesar da oposição interna e do asco da comunidade internacional. Em outubro mesmo, já chegavam os primeiros tanques. A ordem era o Brasil invadir a Venezuela e retirar Maduro. Os casais que apoiaram o novo governo experimentavam a dor inédita de enviar um filho para a guerra.

 

 

ALEXANDRE BRANDÃO (Passos/MG)

 

Estava feliz com o resultado das eleições, a corrupção havia sido varrida da história. Motivo para tirar a cerveja da geladeira e, ainda que sozinho, brindar.

 

Acomodava-se no sofá, quando a campainha soou. A correspondência veio selada, com carimbos e assinaturas. A mensagem era clara: “o Estado, agradecido pelo voto, proclama ao exmo. sr. Fulano de Sicrano, homem de bem, que dê fim ao negro abaixo identificado”.

 

 

ALOÍSIO SÁ (Belo Horizonte/MG)

 

O professor entra na sala e logo pede aos alunos para abrir o livro na página 13. Uma foto do general 4 estrelas ilustra um texto sobre a ditadura no país. Antes mesmo que ele pudesse iniciar a aula, Serafim coloca o 38 sobre a carteira, abre o livro na página indicada e a arranca. É seguido pelos colegas. O professor faz menção de criticar o gesto, ouve-se o estampido. O professor foi alvejado na cabeça, pedaços do seu cérebro colaram no quadro negro, agora colorido de vermelho. O sinal toca, os alunos são dispensados. O conteúdo daquele dia estaria disponível na internet antes que a tarde chegasse.

 

 

CARLANDREIA RIBEIRO (Belo Horizonte/MG)

 

As principais lojas do ramo já oferecem os anacrônicos enfeites de Natal. Todas as famílias de bem já deram início aos preparativos para a chegada do Deus-menino. Esse ano será especial, Papai Noel virá em seu trenó puxado por milhares de bolsoRenas. Surgirá nos céus do Brasil tal qual besta do Apocalipse, os tropéis poderão ser ouvidos a quilômetros de distância. As criancinhas estarão ansiosas e correrão pelas ruas eufóricas gritando: Papai Noel, Papai Noel, me dá uma bala, manda bala pra nós, Papai Noel!

 

Atendendo ao clamor infantil, lá do alto ele enviará suas balas. Calibres 22, 38, 40, 380... Mas, alegrem-se, o Menino-deus está prestes a chegar! Presépio montado, na manjedoura, sorri imóvel um menino Jesus embranquecido, cercado por seus pais, também imóveis e embranquecidos e alguns animaizinhos também inertes. As ceias finalmente estão nas mesas, arroz de forno, peru, farofa e maionese, tudo com muita uva-passa (nas periferias e bairros populares), caviar, trufas, folhas de ouro, bife Wangyu, melancia japonesa (na zona sul e na alta burguesia).

 

Quando o relógio bater as doze badaladas, todos irão brindar efusivos. Desde o delicado tilintar das taças de cristal nos condomínios e mansões até a estridente fricção dos copos de requeijão das periferias.

 

Mais uns dias e chegará o dia de ano novo. Farofa, pernil, chester, champagne, vinho Sangue de Boi, mais champagne, caviar e trufas... o relógio bate meia-noite. Novamente o tilintar das taças de cristal, a estridente fricção dos copos de requeijão, pular sete ondinhas, todos vestindo o branco da paz... o branco da paz? Alguém já disse que a paz é branca. Pessoa, o Fernando, dizia que é uma pomba estúpida.

 

1º de janeiro de 2019, ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Menino-deus agora já se faz homem adulto, embora continue embranquecido, já tem idade bastante para ser crucificado — por que diabos insistem tanto naquela pele branca e naqueles olhos azuis? Porém, aqui, no Planalto Central, no coração do Brasil, o Messias é outro. Reiteradamente anunciado pelos grupos de Whatsapp e glorificado pelas fakenews, finalmente ele subirá a rampa. Enquanto o Brasil escorre ladeira abaixo, a parte branca do Brazil permanecerá em seus condomínios e mansões. O resto, o povo mesmo, iniciará um calvário e muitos morrerão no Pelourinho de Pampulha (*), escolha bem feita para amenizar o ambiente, quando exalar o fedor dos corpos. Ah, o doce perfume das Pampulhas!

 

Mas, alegrem-se, hoje é o dia da Confraternização Mundial! E como somos globalizados, Trump já tem aqui os seus representantes trabalhando em prol do seu bem-estar.

 

Feliz Ano velho!

 

Bem-vindos a 1964!

 

(*) A expressão foi cunhada por Gil Vicente, em A barca do inferno. Quem a diz é o personagem Parvo, que representa o povo. Pampulha é também um lago e um bairro de Belo Horizonte.

 

 

CARLOS ANTONHOLI (Araras/SP)

 

2021: uma ilha, cento e cinquenta quilômetros ao sul de uma Barra da Tijuca aniquilada por alguns eleitores arrependidos e uma forte oposição ao presidente da república, todos reunidos para “esvurmar” os culpados, grande parte agora refugiados por medo, vergonha pela situação em si, isolados (até deus sabe quando) naquele aglomerado dos novos miseráveis. O que era uma elite de fato em sua bolha endinheirada, agora está literalmente ilhada em um enorme aterro sanitário decorado com obras de Romero Britto.

 

 

DANIEL LAKS (Rio de Janeiro/RJ)

 

João dizia que tortura era morrer na fila do hospital. Na verdade, nunca tinha enfrentado fila de hospital público. Ele e toda a sua família tinham plano de saúde. Era uma fala de revolta, mas isso foi antes. João agora tinha vergonha de dizer que apoiou ele, que votou nele, que fez campanha para ele. Hoje, João se sente enganado, queria um país melhor, ignorou os avisos e se deixou levar. A primeira coisa que o fez se sentir traído foi o aumento do preço dos planos de saúde. Aumentaram logo antes dele perder o emprego. Com tudo mais caro e ainda por cima desempregado, não tinha mais condições de pagar o plano de saúde do pai aposentado. Cancelaram o plano do pai pouco antes de descobrirem o câncer. Na sua revolta, João começou a participar de grupos de protesto contra o governo. Ele não sabe, mas neste exato momento, enquanto toma café da manhã, dois investigadores da polícia política estão a caminho da sua casa. Hoje João aprenderá na carne a diferença entre tortura e fila de hospital. 

 

 

NATHALIE LOURENÇO (São Paulo/SP)

 

A unha parecia maior no alicate do que quando ainda era parte do dedo. A cabeça de Chicho pensava esse tipo de coisa inútil quando a dor escoava por um momento. Era a última unha do pé e ele ainda resistia bravamente. Não tinha dito nada para o homem de capuz, que escolhia agora um novo instrumento como quem escolhe um lápis de cor.
– Quem é você?

 

Era um cabo com presilhas de metal denteadas, os dentinhos a lhe morder os mamilos com força. E então veio a corrente elétrica. Uma vez e outra vez, a pele sofrendo a queimadura de mil cigarros. O torturador deu mais um ou dois choques e voltou para a mesa de instrumentos.

 

– O que está planejando?

 

Era um vidrinho de ácido com conta-gotas, e a dor da primeira gota, na coxa, parecia quase suave depois de tudo, mas foi ardendo e espalhando, incontrolável. Na terceira gota a pele parecia borbulhar, dissolver. Pela primeira vez quis confessar. Confessar... o que? Se deu conta que até agora, era apenas ele, torturado, quem tinha feito perguntas. Outra gota caiu e Chicho recomeçou a gritar.

 

– Me diz o que você quer saber! Eu falo! Eu falo...

 

– Não precisa falar nada, fique tranquilo, já estamos acabando.

 

– Então por que? Isso tudo não é pra arrancar a verdade?

 

– Isso aqui? É só tradição. Eu não preciso arrancar nada de você. Não preciso que você me diga a verdade. A verdade é o que eu disser que é.

 

 

RENATA PY (São Paulo/SP)

 

E os sonhos? Os sonhos a gente não controla, dizia Seu Zé. Era um homem que sempre devaneou esperança. Mas hoje não, acordou borocoxô, não quis nem comer. Disse apenas não desejar viver tanto para ver tamanha maluquice nesse mundão de meu Pai. Mirou pra longe da janela, ficou um tempo avantajado sem dizer uma única palavra. Comentaram até falta de lucidez. O pobre estava desacorçoado. Acontece com a realidade, ele desenterrou memórias que não gostaria. Tinha também consciência que não viveria para ver calamidade nenhuma findar. Sobre os sonhos? Roubaram, exclamou cansado.

 

 

RICARDO CELESTINO (São Paulo/SP)

 

Do Congresso, só um nome. Do Senado, uma lembrança. O STF, um contexto. Tudo está mais fácil e acessível na surfaceciberespacial de uma rede imersiva de criptografados. A vida integra bolhas meta(in)flexíveis de reação. (Trans)penetração em um trânsito intransitivo de galerias e galerias de informação. Comoção! A biopraticidade de metadados da próxima diversidade. O paraíso em foco. Comoção. Balada do louco. Comoção. Olhar rouco de um povo néscio, integrado em poços (trans)continentais. O cobertor das vaidades. A volta de todos os choques e a (sub)missão opressiva do verde-amarelo.

 

 

SÉRGIO FANTINI (Belo Horizonte/MG)

 

Quando o milésimo cidadão-de-bem arrependido foi imolado em praça pública pelo Ministério da Eugenia, as pessoas começaram a apagar as suásticas que haviam pintado em suas casas. A única que permanece é aquela riscada a canivete no corpo da garota gaúcha.

 

 

SILVANA GUIMARÃES (Belo Horizonte/MG)

 

Segundo turno, casa cheia, a fila enorme na seção eleitoral. Ele custou a esperar sua hora. Vestia calça cáqui e blusa amarelo-ouro, a bandeira do Brasil sobre os ombros. Quando chegou a sua vez, entrou marchando na sala. Antes de votar, bateu continência para a urna, lascou um “pela moral e bons costumes” bem alto e saiu de lá olhando por cima das pessoas. Semana passada, sua foto apareceu no jornal. Pederasta, pego em flagrante, quando obrigava o menino a lamber suas bolas, na praça, atrás da igreja. Antes de entrar na cadeia, ouviu do delegado: — Ordinário, marche!

 

 

SILVANA MENEZES (Belo Horizonte/MG)

 

Pai e mãe aprovavam o novo governo. O filho agora mantinha distância da escola, das drogas, dos pervertidos, das vadias, da vida lá fora. Eles podiam ficar 24 horas colados no garoto, que mantinham asseado. A única literatura da casa era a Bíblia Sagrada. O menino não reclamava, embora achasse as historinhas de Jesus meio repetitivas. Aos domingos tocavam teclado e cantavam música gospel sertaneja. Tudo parecia bem para a família longe dos pecados, protegida por Deus e pela Taurus. Até que um dia o garoto tirou a arma do pai do armário e deu um tiro na cabeça. Ao seu lado, boiando em sangue, foi encontrado um papel escrito “eu gosto é de menino”.

 

 

SÔNIA NABARRETE (São Caetano do Sul/SP)


Enquanto apoiava a tortura, esqueceu-se de que a filha não se conformava com a derrocada da democracia. Agora não tem nem ao menos um corpo para enterrar. Da moça só restou uma foto no celular. Tão bonita.

 

 

 

Adriane Garcia, nascida em Belo Horizonte/MG - Brasil, em 1973. Historiadora, funcionária pública, arte-educadora, atriz. Escreve poesia, infanto-juvenil, crônica, conto e dramaturgia. Venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Paraná 2013, Helena Kolody, com o livro de poesia Fábulas para adulto perder o sono. Publicou além deste, O nome do mundo (Armazém da Cultura, 214), Só, com peixes (Confraria do Vento, 2015) e Garrafas ao mar (ed. Penalux, 2018)

Sérgio Fantini, poeta, contista e romancista brasileiro, voz de uma literatura de resistência e de independência das regras de mercado. Publicou em revistas e em antologias como Contos Cruéis, Cenas da Favela, Rock Book, 29 de abril - o verso da violência e 90-00 - cuentos brasileños conteporáneos e Lula livre Lula livro, entre outras. Estreou em 1979; mantém um olhar agudo sobre as relações humanas; tece considerações sobre aspectos subversivos das relações
sociais, admitindo certas intimidades com o Existencialismo e o
Socialismo. Além de Lambe-Lambe, publicou os livros Diz Xis,
Cada Um Cada Um, Materiaes, Coleta Seletiva, A ponto de explodir, Camping Pop, Silas, A Baleia Conceição, Novella e O município de Tormenta.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2018


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Foto de capa:

CANDIDO PORTINARI, 'Painel Tiradentes: detalhe 3: execução de Tiradentes', 1948.


Paginação:

Nuno Baptista


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