ANO 5 Edição 74 - Novembro 2018 INÍCIO contactos

Carlos Alberto Gramoza


Poemas

Reflorescências

 

Florescem os Ipês
Para os meus olhos
Em Teresina.
Esse gosto bom 
De amar Teresina.
Alçadas asas 
Pela janela da alma
Em direção ao infinito.
Em simples Ipês 
Mostra a deidade
A sua força:
Para dentro de nós a vermos
Decalcarmos os Ipês
Dentro em nós agregados
As galharias em flores...
Suas reflorescências
E em nós
Pelas suas raízes.
Vôos no céu azul
Do pensamento
Vôos alterosos:
Entre virações e regougos,
Alçados pela janela
Da alma
Não mais rasados
Pelas ranhetas pobres almas:
Sem porta de saída
Encontrarem.
Prossegue 
Em seu parco
Humano
Progresso:
O homem.

 

                 Para Lenitália Mourão

 

 

 

 

 

 

A cor do ventre livre

 

Trazemos para o futuro,
O passado de Palmares
Os pilares
Socializados pensamentos
Entre dédalos
E pureza da acesa lua
Sôbre a floresta.
Os povos que viviam nas margens
E que continuam no agora,
Buscando retornadas essências,
Serão do nosso destino
Decisores...
Despertamos com o sol
Despertamos com a lua
Bebemos desse vinho
Que nos faz vivaz
Incandescente
Para retornar no futuro
O passado de Palmares.
Dadas mãos
Desde onde estão
O cordão do nosso umbigo
Pelo sem fim até.
Soprarão os ventos direções
Sopraremos ondas furiosas
Se espraiando
Rochas destroçando...
Lançaram quantas mãos
Dos tumbeiros seus corpos 
Sem apelação
No trevoso mar em tormentas
Como solução última
Em momento de loucura.
Os povos das margens
E que continuam no agora
Buscando retornadas essências
Serão do nosso destino
Decisores...

 

 

 

 

 

 

Áncoras

 

Queremos terra firme
Estamos no oceano
Sem margens
O mar em padecimentos.
Congeminadas
Ondas altas
Espalhadas
Erguidas para todos lados
nelas renhidas nossas lutas.
Persiste indicando
a canção,
a direção...
Estamos à deriva
Sob o mesmo céu
Ante o naufrágio.
Mas persiste o canto
O esperar um lance
Como um relâmpago
a ouvirmos
Frêmitas flôres
Em barulhos...
Destruindo rochas
Impetuosos ventos
por todo o oceano.
Queremos a felicidade
e nesse instante
ela está nessa brisa,
ridente nessas folhas,
Nesses lábios
remidos.
Jogadas
as âncoras de todos os portos.

 

 

 

 

 

 

Utopista


Encontrar-me sorrindo
Nos seus lábios
Vêm a lua cheia e estrelas...
Vêm lá dentro 
Os meus olhos
O iluminado horizonte
Numa nau de longo curso
A navegar.
Já aprendeu o meu coração
Já sabe o horizonte a navegar...
Já tem da direção certa
O seu farol.
Não contenta meu coração
A cabotagem
Também não faz mea-culpa
Pororocas nas marés 
Cheias.
Fazem-me retornar 
Por rios e riachos
não para um sempre 
Reinício
mas para sempre o sentir 
O oceano
A reta
Como o horizonte-linha
A fugidia meta.
Meu destino é de riachos,
Rios, verdes... e suas seivas
No intervalo de baixas marés
Sigo entre bonanças e revéis,
Refaz o barco o seu trajeto,
Entre o labrego 
E o não imergir da canção:
Navegar
Navegar...

 

Para o poeta e sociólogo Clóvis Moura
No aniversário de seu nascimento hoje 10-6- 2018

 

 

 

 

 

 

Todos os brasís

 

É nosso berço a amazônia
Minha bandeira é a arte:
A arte de agregar
De não segregar...
É nosso berço a amazônia
Agregadora de muitos corações...
A sua vida é a nossa vida
Seu nada é nosso zero inicial.
Sem poder pousarem
Asas sem galhos
Chãos sem sombras
Para os bichos outros,
As fontes secando...
Investindo a avareza sofômica
Afugentando 
Para o desaguadouro:
Os sumidouros 
No mundo todo para a morte.
Com os seus conflitos
Somos os mesmos
Nós seres humanos.
Acossadas favelas
E periferias...
Seu coração sem mais bombar
Seivas nas artérias do país.
Nosso interagir
De filho e mãe
Índios guardiões ser
Deveríamos.
Queria abraçar, beijar, 
Aquele que me enche de bons ventos,
De uma suada esperança,
De que uma esperança
Existe ainda
Que desprendidos esses galhos,
Ainda nos acenam nos sorrir.

 

Para minha mãe Maria Soares da Costa Vilarinho 
E meu bizavô Joaquim Caitano Soares
( caboclo ) que chamava a roça de mãe.

 

 

 

 

 

 

Transe

 

Tirar nectar dos sátrapas
Ser um agressivo inseto, 
Com seu ferrão,
Injetando mortal veneno,
Nos seus sempre coros 
Intermitentes
Contentados.
Desde que você partiu
Passaram por debaixo da ponte
Muitas águas:
Somos frutos dessas velozes
Corredeiras infrenes.
Pedra-e-cal
Em tantas mesas continuam.
Não mais me encontram
Em desprendidos galhos
Sorrisos na porta do quintal.
Ressoam no meu coração
Tornando uma só:
Vozes urbanas e agrárias...
Pássaros, quadrúpedes
O afugentar -se perder as verdes
Lareiras de vidas opimas,
Pelas motosserras
Fazendo clareiras...
Seus gritos e os meus
Um só tornando
A exorar estridentes e penetrantes...
No século 18 
Com espadas traspassaram
Crianças indígenas guegueses;
No século 20 
Queimaram vivo
Gualdino indío pataxó;
Queimaram viva
Uma criança indígena
No maranhão
No já século 21.
Nossos gritos num só
Demorado
Querendo percutir nos sátrapas
Sanguessugas saciados.
Nossos filhos
Netos
Bisnetos
Não verão o fim desse grito
Se volta ou não
Seu coma profundo
O tempo.
Amigo não existe mais
O social interagir
Não esperemos mais 
Que alguém venha nos dizer...
Um aviso...
Poetas&poetas&artistas&artistas
Uni-vos
Um outro cerzido palmares.

 

Minha homenagem singela ao mês do índio

 

 

 

 

 

 

Vozes loquazes


Teu silêncio perturba
Turbilhão de angústia
No peito...
Mais uma mão dada
Negra se solta
Inerme abatida.
Nessa prolongada longeva
Renhida refrega, 
Mais uma voz murchada
Uma voz que era loquaz...
Mas o sol afora
Virá por dentro,
Rasgando, 
Descerrando outros dentes,
Tomando todos outros 
Tantos lábios.
Turbidezes de sempre causando
Na audição dos seus senhores...
Muitos cantos e vozes
Assim pois era a sua...
Aspiramos o ígneo do seu coração,
As cores dos seus eflúvios,
As suas resiliências...
No sem fim desse fundo
Desse rio.
Seu espelho nos diz
Do nosso viço
Da nossa igualha
Ainda possíveis, 
Do cerne
Da essência, 
Não mais encurtada 
As correias do nosso existir.

 

Para Marielle Franco


 

 

 

 

 

Chãos


Madeireiros no maranhão
Incendeiam corpo de uma criança
Indígena viva.
Um pé de árvore 
Ainda não lenhosa.
Ficará flor pendente
Num ramo da fruteira
Como símbolo.
Quantos sorrisos nesses pingos
Fortes e frios
Descendo na terra.
Feixes de corações contentados
Nesses solos férteis
Fibras de longas raízes
Lhes atiçando como outrora
Também os seus agora.
Passando-lhes os verbos
No caminho longo dessas refregas
" na marcha que não tem volta
Na marcha que é de avançar. " 
A chuva passa
A noite chega:
O sol é dentro do peito,
Ardente
Esperando saudar,
Os renovos da floresta
Em suas vozearias e cantos
No querer de todos de dizer tudo
A voz do sol nas gargantas...
O vento despredendo o sorriso,
Parado nos lábios dessa criança,
Nessa foto no facebook
Levando... 
Acarinhando as frondes
Festados de aves e passarinhos
Rumores de folhas...
Na marcha do extermínio
Numa reenvida...
Não mais o exício:
Das lideranças indígenas
Das lideranças negras...
Pelos ianquistas
Europeístas.
Mais uma manhã
A floresta 
No resistir os seus não
Silenciados sonhos,
Essência 
Pelas bestiais reenvidas
Desde os seus algozes primeiros...
Para as minhas origens

 

 

 

 

 

 

Quilomboje

 

Somos viçosos rebentos
Em resistências
Nascidos de tantas lágrimas
Derramadas nesses chãos.
Desde África,
Tumbeiros
Senzalas...
Somos mares de ondas revéis
Com estrelas nas mentes
Nas mãos
Voando
Com bússolas e arados
Reverberando...
Traçando o mapa...
Ainda soam batuques nas noites.
Os mares que os ventos os levantam 
Em ondas
Querem os rochedos racharem
Do mal destroçar o seu navio
Avassalar os avaros: 
Até passar a tempestade...
As calmarias dos mares
Dentro da gente
Como se o tempo ficasse parado
Dentro da gente:
Como essa paz que bebo nos seus olhos
Que acalanta-me:
Negro
Índio
Mulher
Lgbt...
Eufóricos suspiros de alívios enfim:
Final grito
Depois da luta
Neste grande quilomboje
No brasil
Mundo.
Para clóvis moura
Conceição evaristo
Sueli rodrigues
Marcelo filho
Rodrigo portela
Mateus asmacerlam
Isabel da costa carvalho
Sãmia alves


 

 

 

 

 

Lassidão


(Rotina)
Na cadeira de balanço
A matrona em cochilos
Nos vaivens do seu passado.
A matrona respira o ar da cidadezinha
Se confunde com a cidadezinha.
O sono da cidadezinha
Ninguém o acorda.
Passos que passam que querem
Que vão na direção de um presente
Hirto de um povo em riste
Revolvendo o mar de ondas lassas.
São despercebidos: emurchecem
Deles qualquer percussão nas ruas,
Praças, varandas, da cidadezinha.
O soterrãneo gelado, tenebroso rio
Que angustia, asfixia. Do morro, olhos para ela volvidos
Para as suas ruas desertas.
Passos alguns e manzanzando
Que acordará o sono,
Alguém o acordará da cidadezinha?...
O rio, o outro, escorre na noite
Volvedoura para o rio a lua cheia,
Em mordentes risos
De mornas ventilações.
Na toda estrelada noite
Sobre a cidade sem faróis.

 

 

Carlos Alberto Gramoza - Nascido em 08 de Janeiro de 1958
 Nascido em Boa Esperança – Distrito de Amarante, Piaui-Brasil.
- Publicações: “Tempos Perplexos” – poesias
                     “Passos Oblíquos”
- Prestes a ser publicado: “Ressacas” – Poesias
- Participou da antologia “Baleia Verde”: poesia ecológica Tv Educativa produtora intervídeo e Editora Shogum Arte Rio de Janeiro;
- Grito, logo existo: poesia protesto organizado por Nilto Maciel – Brasilia-DF;
- Colaborou com a revista  “LB Revista da Literatura Brasileira” – São Paulo;
- Publicações em outras revistas e jornais.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2018


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Colaboradores de Novembro de 2018:

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Foto de capa:

CANDIDO PORTINARI, 'Painel Tiradentes: detalhe 3: execução de Tiradentes', 1948.


Paginação:

Nuno Baptista


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