ANO 5 Edição 74 - Novembro 2018 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


Uma sátira certeira

Há pouco tempo, vi uma matéria em que a Biblioteca Pública de Belo Horizonte estava organizando leituras para portadores de deficiência visual, que eram chamados de cegos antes da linguagem do politicamente correto. Curiosamente, um dos livros lidos e analisados por esses deficientes era a narrativa A carteira de meu tio, de Joaquim Manuel de Macedo – escritor do Romantismo, célebre pela açucarada história intitulada A moreninha. Fui verificar meu exemplar de A carteira de meu tio, editado pela José Olympio, em 1995, e encontrei ali alguns trechos grifados por mim, que percebia, então, da atualidade de uma obra escrita em meados do século XIX. Como agora, a cegueira ideológica parece imperar entre os brasileiros, seria interessante dar uma beliscadinha nessa história, picaresca e ainda real.

 

Joaquim Manuel de Macedo viveu entre 1820-1882, fluminense de Itaboraí, formado em medicina, eleito algumas vezes deputado, além de ter sido professor de História e Geografia e jornalista político. Na literatura, foi teatrólogo, cronista, poeta e romancista. No campo da sátira, além de A carteira de meu tio que é de 1855, Macedo escreveu Memórias de um sobrinho de meu tio e A luneta mágica. Sua vida transcorreu praticamente sob o regime imperial e sob o signo da estética romântica. Entre seus livros, destaca-se As vítimas-algozes, de 1869, um libelo contra a escravidão. O pano de fundo de seus livros exibe uma sociedade marcada por costumes afrancesados a viver um momento de ostentação, em decorrência da produção do café, que se tornou uma sustentação da economia brasileira. Em meio ao processo de urbanização crescente, a sociedade vive sob ameaça de uma deterioração moral, e, como vê a ensaísta Tania Serra, “é nesse vazio ético que entra a prosa moralizante, nos moldes de Macedo, aceita e mesmo requerida por uma sociedade em busca de paradigmas” (Joaquim Manuel de Macedo ou os dois Macedos: a luneta mágica do II Reinado, Editora UNB, 2004, p.73).

 

O humor é um aspecto recorrente em sua obra, que costuma ser criticada por certo desleixo formal. Mas é preciso apontar que há algo de antecipadamente moderno em sua linguagem coloquial, com muitos trocadilhos, ainda que haja muitos conceitos moralizantes, enroupados por figuras alegóricas. No prólogo de Vítimas-algozes, ele se rotula como “pobre escritor de acanhada inteligência, rude e simples romancista sem arte, que somente escreve para o povo.”

 

Na época de Macedo, os partidos existentes, o Liberal e o Conservador, representavam a mesma aristocracia agrária e pouco se distinguiam. Um político daquele tempo dizia que “o partido que sobe entrega ao partido que desce o programa da oposição e dele recebe o programa do governo.”  Em A carteira de meu tio, o autor glosa a anedota a respeito da diferença entre conservador e liberal, citando um político inglês que dizia que os “Whigs” (liberais) eram os “Tories” (conservadores) fora do ministério, ou, para adequar à realidade da época, os Luzias e Saquaremas. A conciliação entre esses partidos chegou a ponto de se tornar uma instituição, como ocorreu entre 1853-1858, no Gabinete de Conciliação, chefiado pelo Marquês de Paraná. A sátira presente em A carteira de meu tio foi inspirada justamente por esse momento político em que, por detrás das aparências liberais do regime, ocorria mesmo era a mão de ferro de uma sociedade repressiva, conservadora e preconceituosa, não obstante o aspecto progressista da economia. Recorrendo ao personagem Compadre Paciência, alter ego do autor, Macedo faz incisiva denúncia da descrença popular em relação aos políticos: “Eu estou simplesmente dizendo as coisas como elas são. Vejo o santo fogo de um povo entusiasta extinguindo-se ao sopro frio e enregelado dos mais tristes desenganos; vejo a desconfiança por toda parte; o ceticismo nos grandes; a indiferença na classe média, e a miséria na classe baixa, posto que nela haja homens de muito boa altura. Vejo o povo cansado de ser iludido, zombado pelos seus guias, e desconfiado até dos poucos que se conservam firmes em seus postos de honra. Vejo nobres e generosos ombros doídos por terem servido de escada a arlequins de todas as cores; vejo a abjuração de todos os princípios confessados publicamente por aqueles mesmos que mais ardentemente os pregavam.” (p.85, da edição publicada pela José Olympio, 1995).

 

A carteira de meu tio se assemelha a uma crônica romanceada, repleta de digressões. O narrador, que se identifica como o sobrinho, é alguém inescrupuloso, insolente, que não sente vergonha das falcatruas eleitorais ou da própria inexperiência com os negócios públicos, à maneira de certo candidato na atual campanha política no Brasil. Desde o prólogo, o narrador exalta sua ideologia cínica, afirmando que a única verdade existente é a centrada no próprio EU. Cínica é a metáfora da grande garoupa, que é a pátria, dividida de tal maneira que ao povo só caberiam as espinhas... A carteira do tio é um cartapácio, no qual o sobrinho registra suas impressões, dá suas opiniões em relação aos lugares que percorre, levando um exemplar da Constituição, “pobre mártir apunhalada todos os dias”. O sobrinho se encontra com uma figura antagônica, o Compadre Paciência, incorruptível, que caracteriza a pátria como um único coxo cheio de milho, mas insuficiente para alimentar muitos porcos. O sobrinho tem um sonho alegórico no qual a imoralidade política aparece vestida de casaca, enquanto a honra é coberta de farrapos.  O sonho é analisado pelo Compadre Paciência: “A sua visão quer dizer que é efêmero, falso e insubsistente todo o progresso material que não se demonstra a par do progresso moral do povo; quer dizer que nas épocas desastrosas em que se faz da corrupção um sistema político, ou um meio de governo, os homens do Eu, que se acham de cima, declaram-se amigos e patronos dos interesses materiais, pregam a sua excelência sobre todas as questões de princípios; porque sabem que o materialismo político mata o espírito público, que é a alma dos povos livres, e a enxada que abre a cova dos ministérios corruptos.” (p.158)

 

Sãos constantes as conversações e oposições entre o sobrinho e o compadre. O primeiro defende o nepotismo, o segundo critica as péssimas condições da carceragem. O sobrinho e um escrivão desdenham do júri e da justiça, enquanto Paciência argumenta que se o júri é mau, é porque o governo é péssimo, e “a causa da impunidade é a mania de fazer deputados e senadores que têm o governo”. (p.189)

 

Ao término da viagem com esses dois personagens, o leitor tem bem definidos diante de si modelos opostos de participação política: o cinismo e a vigilância permanente. A atualidade do livro está na crítica à ineficácia do sistema político, pois o que define o “bom” político é ser “leviano, inconsequente, inconstante e vira-folha” (p.116); a política é vista como profissão lucrativa, protagonizada por atores inescrupulosos, tipos individualistas, acima de tudo. Vemos no narrador um antecedente do cínico Brás Cubas, que expõe o que é um político por dentro, ambicioso, interesseiro, nada altruísta. Individualistas travestidos em homens públicos que destroem a ética e usam estratégias certeiras para rechear carteiras.

 

 

Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2018


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Paginação:

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