ANO 5 Edição 74 - Novembro 2018 INÍCIO contactos

Angela Maria Zanirato Salomão


Tumulto na caixinha de costura

Na caixinha de costura o botão cinza reclamava da sua cor apagada. Sonhava com o dia em que a costureira o colocasse num lindo vestido vermelho de alguma senhora que fosse a Paris. Mania de grandeza, dizia o alfinete que vivia a falar dos sonhos de todos que ali ainda moravam.  O botão tinha pena do coitado; sabia que ele jamais iria adornar uma roupa. Nascera para um ofício determinado: sua função era quase sempre marcar barras de saias e calças. De vez em quando espetava alguém. Era odiado! Às vezes caia no chão e quase ia para o lixo. A sorte era ser um dos poucos alfinetes naquela caixa.

 

   A esbelta agulha vivia cansada. Resmungava do uso contínuo e, quando chegava a noite, estava estressada. Queria dormir, mas era uma dificuldade em meio aos objetos que raramente eram usados e viviam com a corda toda. Tinha muita afinidade com as linhas e cada vez que um carretel acabava ficava dias em silêncio, até criar laços com outro. Tinha ciúmes quando a costureira precisava usar mais a agulha da máquina do que ela, apesar da reclamação de excessos de trabalho, de direito e deveres. Não gostava de trabalhar mais de oito horas diárias. Sempre que precisava consultava o colchete.

 

     O colchete era um dos moradores mais antigos da caixinha. Diziam que estava fora de uso, fora de moda. Para não entrar em depressão, começou a ler leis trabalhistas e sabia os direitos de todos, até dos que já tinham ido embora, como as fitas e as rendas. Tinha por estas uma antipatia enorme. Dizia que eram burguesas, metidas a ricas, que viviam de fofocas e intrigas. Gostava de colocar o elástico contra elas, porque em uma briga elas saiam sempre machucadas e os hematomas muitas vezes as impediam de enfeitar ricos vestidos de festas. Os hematomas em fitas e rendas serviam para fraldas de bebês, motivos de riso e escárnio do colchete. O colchete se achava leal, ético e justo, mas temia a Lei Maria da Penha.  Sempre saia do sério com a tesoura.

 

     A tesoura um pouco cega e desvairada ia para a caixinha toda noite depois de um dia de trabalho intenso e continuava com a adrenalina alta, o que ocasionou a elaboração de normas. Mesmo assim a tesoura vivia descompensada, quebrava as regras.  Era o terror dos moradores, e a queridinha da costureira. Tomava tarja preta toda noite para suportar os gritos do colchete... A coitada não entendia de assédio moral, pensava o colchete com seus botões...

 

     O zíper de cinquenta centímetros esperava há tempos uma mulher longilínea que encomendasse um vestido para que ele saísse da vida da caixinha. Tinha síndrome do pânico naquele pequeno espaço. Volta e meia reclamava de dor de cabeça. Falta do que fazer dizia o colchete de gancho, um dia você vai e essa frescura passa, falava enquanto  olhava de canto de olho para um pedaço de retalho de seda que foi parar sem querer na caixa. A pequena e linda tira de seda ficava corada com os olhares do colchete  e não via a hora de ter uma serventia qualquer. Não se encaixava naquele ambiente.

 

     Quando a costureira esquecia a caixinha aberta, o viés de bolinhas, que morava do lado de fora, também assediava a pequena tira que se derretia em lágrimas para desespero dos objetos de aço que temiam ficar enferrujados como um pobre alfinete de cabeça que estava com os dias contados para ir morar no lixo.  Não tinha mais serventia.

 

     Um dia, a costureira chegou com uma caixa grande de costura. Nova tesoura, bordado inglês, sianinha, viés de todas as cores, dedal, carretilha, zíperes de vários centímetros, rendas, fitas de cetim e outros  novos moradores que os da antiga caixa nem conheciam, nem sabiam da existência.  Foi um frisson o dia inteiro. O colchete convocou todos para uma assembleia. Fez um discurso inflamado e pediu greve. A adesão foi total. Combinaram que assim que a costureira abrisse a caixinha, eles se rebelariam e não iriam para o trabalho. Fariam uma manifestação com palavras de ordem. O colchete reivindicava o estatuto dos idosos, enquanto todos gritavam que caixinha unida jamais será vencida.

 

     Mal o dia amanheceu a costureira entrou cantando no quarto de costura, abriu a nova caixa, suspirou feliz e numa demonstração de desapego, foi colocando todos os objetos da antiga caixa, separando-os por  espécie  para enviar  todos os moradores  para  uma usina de  reciclagem.

 

     Foram todos moídos na grande roda.   Reza a lenda que o colchete bradava em alto e bom que resistiria até o final com dignidade.

 

Na nova caixa novos personagens com personalidades distintas foram surgindo.  A pequena tira de seda havia caído ao chão na hora da distribuição dos objetos por suas especificidades e foi morar na nova e luxuosa caixa.  

 

 Também não se encaixou naquele ambiente. Espera ansiosa uma serventia, mas sabe que seu destino é enfeitar fraldas de bebês.

 

 

Professora de História, Pós-Graduada pela UNESP de Assis e pela UEM, Maringá.
 Participou do Mapa Cultural Paulista versão 2015/ 2016, onde foi classificada para a fase final na modalidade conto . Participa da Associação de Escritores e Poetas de Paraguaçu Paulista- APEP. Tem poemas publicados em três Antologias: “Um olhar Sobre” coletânea da APEP em 2014, “Filhas de Maria e Valentim”, 2015 e “Um Olhar Sobre”, coletânea da APEP 2017.  Possui poemas publicados  nos sites : Blocos Online , Parol , Movimiento Poetas del Mundo , Antologia do Mapa Cultural Paulista edição 2015/2016 ,versão  ebook ,Revista de Ouro , Revista Ver-O- Poema ,  Revista Portuguesa InComunidade , Mallarmargens e Revista Digital Literatura e Fechadura.

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Paginação:

Nuno Baptista


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