ANO 5 Edição 74 - Novembro 2018 INÍCIO contactos

Guido Viaro


O princípio da incerteza

Em 1927 o físico alemão Werner Heisenberg (1901-1976) criou um dos principais enunciados da física quântica, que ficou conhecido como princípio da incerteza. Segundo esse enunciado é impossível determinar a exata localização de um elétron no espaço e no tempo. À medida que aumentamos a determinação de uma dessas duas variáveis, diminui-se a da outra. O problema dessas indeterminações não tem relação com a qualidade ou modernidade dos equipamentos utilizados para verificá-las, mas sim com as próprias características da matéria e da luz.

 

O filósofo e legislador egípcio Hermes Trismegisto viveu por volta do ano 1500 a.c., e sua filosofia, conhecida como Hermética, exerceu grande influência sobre os três pilares do pensamento ocidental: Sócrates, Platão e Aristóteles. Dentre as mais conhecidas leis Herméticas está a da correspondência: “O que está em cima é como o que está embaixo. O que está dentro é como o que está fora.” 
Cito Trismegisto porque há correspondência entre pensadores tão distantes: a incerteza pode estar por toda parte. Já que ela está no âmago do que de menor existe, por que não estaria também nos limites quase eternos entre o universo e o que há (ou não há) fora dele?

 

E mais, nós e todas as espécies vivas, o reino vegetal e mineral somos filhos dessa indeterminação, que não comporta simultaneamente os fardos do tempo e do espaço. A regra parece ser essa: “Quanto mais de um, menos do outro”. Talvez seja através dessa fenda atávica que se instale dentro de cada ente que existe sua condenação a não mais existir (pelo menos com a forma que possui). E aqui voltamos a Hermes Trismegisto e sua lei do ritmo “Tudo tem fluxo e refluxo, tudo tem suas marés, tudo sobe e desce, o ritmo é sua compensação.”        

 

As tragédias gregas e Shakesperianas são esqueletos ficcionais construídos a partir da percepção de nossa condenação, cuja manifestação mais clara (mas não a única) é a inevitabilidade da morte. Mas ao longo da vida conhecemos muitas mortes e renascimentos, cada um deles também condenado a outro ciclo de começo, meio e fim.           
Portanto a vida humana, como todo o resto, é inviável.

 

Dentro do objeto homem, existe sua consciência, que é a maneira  como uma pequena fração do universo enxerga a própria imagem. Essa consciência nutre-se do desejo, e ele, por causa da indeterminação, receberá algo, mas não tudo o que almeja, e de súbito, sem muitas explicações, desaparecerá, levando consigo a consciência que alimentava. Deixando a sensação de que a vida e tudo mais não faz muito (ou o menor) sentido.                                        

 

Então chegamos a uma questão fundamental: as coisas não fazem sentido porque ignoramos a incerteza e suas consequências e enxergamos toda e qualquer realidade sob o ponto de vista idealista. Ao agirmos dessa maneira só nos sobra duas possibilidades: a grande desilusão (e todas suas consequências), ou a invenção de um mito criado sem nenhum fundamento lógico, e que de maneira mágica encobrirá nossas perguntas sem respostas.                                    

 

Por outro lado, se considerarmos a incerteza sem tentarmos negá-la, aceitaremos melhor nossa condição mortal. Menos influenciáveis pelas emoções nos sentiremos acompanhados pelo universo e talvez percebamos que nossa consciência é apenas um acúmulo ocasional de feixes de luz, e nossa personalidade, as respectivas sombras dessa luz.

 

E que, ser esse nada absoluto desprovido de heroísmos e cores, pode ser poético, e porque não, engraçado.

 

Guido Viaro

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2018


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Paginação:

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