ANO 5 Edição 74 - Novembro 2018 INÍCIO contactos

Krishnamurti Goés dos Anjos


A poesia objetiva e pungente de Lisa Alves em “Arame Farpado”

 

Sem sombra de dúvida vivemos período sui generis na história da humanidade. Uma nova ordem mundial se impôs com suas maléficas características de uniformização cada vez maior da vida cotidiana, normalização dos indivíduos, ausência absoluta de projetos, tanto coletivos quanto individuais, e uma aparente incapacidade de revolta. Assistimos indiferentes a uma vaga condescendência com que o mundo observa a banalização de milhares de vidas a quem é recusada a dignidade da condição humana. O filósofo francês Alain Finkielkraut identifica que o homem moderno, ou pós moderno como queiram, acabou se tornando um turista virtual, passando de cidadão a observador que, conectado à rede mundial de computadores, abole a topologia e a experiência humana, por demais humana, da vizinhança. Em vez da disposição de partilhar o mundo com outros homens, o que se tem é a mundialização do Eu.

 

Muito bem, em um passado próximo, década de 80 do século XX,  uma menininha de 5 anos de idade se depara com um arame farpado na mesma época em que se assusta com o estampido de um tiro. Para ela foi algo assustador a consciência do que representa o arame farpado. Ela relata-nos anos depois: “Pela primeira vez conheci uma arma que não exigia uma manipulação para surtir efeito – era só instalar ao redor de casas, fazendas, terras e qualquer tipo de território. Até um animal irracional era capaz de compreender a proposta: bastava um breve contato para um boi perceber o seu limite e que qualquer tentativa de ultrapassagem provocaria uma série de desconfortos. Um fio de metal cheio de pequenas pontas protegia o lado de dentro do lado de fora. Era um objeto separador, era um objeto confinador – um autêntico obstáculo de tortura. Até hoje nossa espécie se serve dele pelas mesmas razões”. Aquela menina de cinco anos cresceu e hoje nos apresenta seu livro de poemas com o título justamente de: “Arame farpado”.

 

Alguns dos novos autores que estão surgindo hoje no Brasil – dos que li óbvio -, levam-nos – pelo impacto que nos causa o grau de refinamento de sua poética -, a deixar de lado aspectos técnicos e/ou teóricos da literatura para, num ímpeto, revelar aos leitores e saudar a obra, simplesmente reproduzindo os poemas. Simplesmente. Já estaria de bom tamanho e que o leitor se vire e perceba por si. Mas seria, pensando a frio, furtar-nos a um prazer outro, intransferível por certo, e partilhável, que é comentar a obra. O nome da autora é Lisa Alves, e abre seu livro com este poema: “Ecos”.

 

O Eu original foi desconectado / e tudo que restou fomos Nós (esses Eus sem paradigmas), / no escuro de uma tabela periódica, / crédulos da ciência e dos teísmos, / cultivadores de rótulos, diplomas e de imóveis habitações.”

 

E o resultado de tal estado de coisas é que politicamente, assistimos ao fim do Estado-Nação, em proveito de um aquém (região) ou de um além (bloco econômico). Sociologicamente nos deparamos com a tribalização do mundo, caracterizada pela importância cada vez maior que os grupos étnicos vêm assumindo no mundo, dos quais o politicamente correto é uma das manifestações mais significativas e aberrantes. É a guerra surda larga e geral. Onde nossos referentes que não a pura e simples violência?

 

 Poema “Herança”
Fina casta de luz navega a noite / clareando olhos sonolentos. // Percebê-la é ver um aceno de / realidade flutuar entre penumbras rasas e superiores. // Preciso pincelar uma tela ou compor / uma ficção saturada de sonhos sangrentos, / devaneios carniferrínicos e distruição secreta da matéria. // Ninguém pode inventar / isso por mim – nem Freud e tão pouco Dali. // Ontem escrevi uma canção e ofereci a um pássaro urbano, / mas ele me disse que só deseja cantar: // No, woman, no cry.”

 

O pássaro só deseja cantar. Reflita-se nisto enquanto observamos o indivíduo, que tem cada vez mais dificuldades de se projetar num futuro. O projeto, a utopia, são psiquicamente necessários ao sujeito. Vai faltando-nos a elementar capacidade de projetar o futuro, acreditar no próprio tempo. Precisamos de idéias, representações que se interponham entre o momento presente e o fim da vida: a morte. Fora daí, é o sem-sentido de viver, o niilismo, a depressão avassaladora, o suicídio! O deprimido, de que o mundo vai se enchendo, é justamente aquele que não possui mais nenhuma ilusão a não ser a idéia da morte como único indício de um horizonte temporal e espacial. Ele é o avesso exato das normas de socialização, razão pela qual as pessoas vivem cada vez mais na base de ‘pílulas da felicidade’. Tanto faz serem lícitas como o  Prozac ou o Viagra, ou a mais pura cocaína. Parece que a tal felicidade, como dizia Freud, é o objetivo dos homens, só em pílulas e na farmácia da esquina. E paralelamente, tome-lhe chacinas cotidianas, tiroteios a torto e a direito, violência contra os sem-terra, os pretos, os LGBTS, os terroristas do lado de lá e os do lado de cá, os índios incendiados em praça pública etc. Quanto a este último evento macabro, veja-se no livro da senhora Lisa Alves o poema “O homem do museu”, dedicado In memoriam de Galdino. Aquele índio que foi queimado vivo em 1997 lá em Brasília. Alguém se lembra?

 

Poema “O brado”
Entre a sede e o vício / fico com a boca estéril / e o estômago vazio. // Lá fora a desarmonia aponta o dedo e trama / um novo bode – totalmente expiatório. // Eu nunca estimei os muros e muito menos os blocos. / Não abrigam, só apartam. // Há sede e vício nessas veias paralisadas. / Há dívida de viciado / com a nau traficante. // Movimente a hemoglobina, oxigene as têmporas! // Sanguessuga é a velha / união européia / ou o louco Tio do “time is Money?”.

 

A especulação financeira que vem se tornando mais importante que a produção industrial (ou qualquer outra), os papéis financeiros levando à acumulação do capital e à falsificação da riqueza, que até pouco tempo atrás era mensurável em termos de produção e de capacidades industriais toma corpo francamente. E queremos viver tal e qual uns tarados abestalhados a viver de ‘rendas’. Com a vitória do neoliberalismo, as empresas passaram a dar prioridade absoluta aos acionários em detrimento dos assalariados e trabalhadores em geral. A palavra de ordem impositiva é priorizar a rentabilidade instantânea, medida pela Bolsa, nunca investimentos de longo prazo e de retorno social. Estamos a valorizar irresponsavelmente o presente em detrimento do futuro.

 

Poema “Cartilha do missionário”
“Caminhar pelos templos do Deus Capital e / prestigiar as formas etiquetadas com seus preços. / / Lacrar o buraco da ideologia, / ignorar o próximo, esquecer o distante – essa é a lei. // Olhar para frente, nariz em pé, / roupa impecável e o soldado sem nenhum desgaste. // Não bocejar, não oferecer, não sorrir./ O coletivo deve ser impessoal. // Ser formatado, limpo e com linguagem padrão. // Não desejar nada ao outro que não seja um degrau abaixo. // Comprar presentes, ações na bolsa e o carro do ano. /Possuir todos os dentes, unhas bem feitas e um estômago podre. / Ser religioso, pagar o dízimo, temer o Diabo e Deus que se exploda!”

 

Observe-se a fina ironia da autora, que se reveste também de sarcasmo, na estrofe do poema “Comédia de uma sociedade privada”. É poema dedicado “aos olhos de uma filosofia não acadêmica e in memoriam de Diógenes (o pai dos cínicos).

 

“... Eu nasci para a comédia, / eu nasci para a colméia, / para um canto de legiões & gralhas / que riem da própria falta de graça / ao assistirem o gato comer / o rato que roeu a roupa do rei / quando almejávam mesmo / era ver o gato se aliar ao rato / e roer o Rei por inteiro”. 

 

O mesmo vale para esses versos do poema “Terapia”.

 

“Não, não mesmo! Não nasci para falar. / Não posso olhar para o vizinho e fingir / que é importante saber se ele está bem, / se no fundo eu desejo mesmo é perguntar: como você suporta?

 

Como lutar contra a globalização? O homem moderno está sem rumo e ora se refugia na indiferença, ora parte para a violência contra aquele que imagina estar impedindo sua “felicidade”, roubando-lhe algo que no fundo nunca lhe pertenceu. O indivíduo contemporâneo acreditou ter-se libertado dos sistemas de coerção e inscrição nas instâncias dos deveres coletivos. Ninguém se responsabiliza por nada e vamos ao caos completo. Transgressões sem interdições. Escolhas sem renúncias, razão pela qual, mais que uma miséria afetiva, a depressão contemporânea (entendida já como a do próprio Sistema que dá claros sinais de colapso), vem se transformando num modo de viver. Cansados e vazios, agitados e violentos, vivemos um tempo sem futuro. E veja-se se não é precisamente nisto que toca o fecho do poema “As mesmas mãos”:

 

“... O tempo sempre me doa mãos / e eu as leio com minha visão turva e limitada./ O futuro é alquebrado, leva consigo lápides, / histórias e resistentes construções. / O comum fica, fica também o rancor, / o coração partido e a multidão dentro de mim”.

 

No poema “O Tao do caos”, percebe-se a que ponto chegamos:

 

Viver correndo atrás, sempre atrás, causou-me successufobia. / Viver buscando a paz, sempre a paz, causou-me esquizofrenia. // Fingir ser outra, pisar no palco e rir. / Assisto-me de camarote e nem o auto aplauso consegui.”

 

A cultura, então, deixou de ser o que costumava ser na sociedade ocidental, cultura-contestação, cultura-revolta, para se transformar cada vez mais na cultura-consumo ou cultura-divertimento.

 

Poema “Próximo”
A minha justiça encurva-se aos ultimatos da Prole SocioCapital. / Minha reputação cai por terra / quando minha tecnologia é antiquada: / o mesmo celular, / o mesmo computador, o mesmo...
O mesmo após dois anos causa-me alcunhas: / Antediluviana, Subdesenvolvida, Decadente!
Nosso apetite alargou: / temos fome de fibra ótica, / fome de silício, / fome de plasma, / fome de ver a realidade / projetada através de um / elemento artificial.
Bons tempos aqueles cujas contradições pariam lutas. / O futuro nos oferecerá ventos e chuvas nas salas de espera. 


Mas não se pense que ainda que o livro nos passe certa sensação de que estamos fadados ao desespero, e isso nos cause mal-estar - e é muito positivo que assim o seja-, não haja momentos de franca lucidez de esperança num porvir na obra da senhora Lisa Alves. Veja-se a verdadeira consciência do que afinal une todos os seres humanos. No poema “3ª lei de Newton ou uma pequena oração”. Interessante observar aquilo que Hannah Arendt identificou nos homens ressentidos de nossa era. Ressentidos contra tudo que nos é dado, inclusive nossa própria existência, ressentidos contra o fato de que não somos criadores nem do universo nem de nós mesmos. Levados por esse ressentimento fundamental a não ver o menor sentido no mundo tal como se apresenta, o homem moderno, na opinião de H. Arendt, proclama que tudo é permitido e crê secretamente que tudo é possível. A gratidão é a única alternativa ao niilismo do ressentimento, gratidão fundamental pelas coisas elementares que nos são dadas: a própria vida, a existência do homem e o mundo. Os homens, todos, incluindo esses miseráveis que evitamos, e dos quais nos desviamos, dos quais sentimos medo ou asco e que nos são indiferentes ou simplesmente hostilizamos.

 

“Deseje-me sorte antes que as labaredas / consumam nossos pés e nossas memórias / ou antes mesmo que só restem de nós insignificantes cinzas.
Deseje-me sorte antes que eu deslize nesse / abismo humano de posturas desonestas e vaidosas.
Deseje-me sorte antes que nossa espécie seja / transformada em Sapiens Mechanicus.
Deseje-me sorte antes que eu engula sobras / e bem antes que teus filhos padeçam de / carcinoma no estômago.
Deseje-me sorte até depois da morte / para que o meu silêncio / não oferte a tua insônia.
Deseje-me sempre o melhor / para que o meu pior / não desertifique a tua biografia.”

 

O exemplo acima caracteriza uma visada mais esperançosa. Sobretudo nos poemas da última parte da obra que tem o título: “Da poesia”. Veja-se, e leia-se, “Aquilo que não é”, ou “O fantasma de um poeta” ou ainda “Quadro de avisos”, do qual retiramos as estrofes abaixo:
 “Há tempo de pensamentos. / Há tempo de inquietações. / Há tempo de bandeiras. / Há tempo de poesia.
Cairá a forma dominante das contradições? / Estaremos em estado de Poesia? / Haverá a ditadura do livre-pensamento? / Seremos livres?

 

Drumond avisou:
No meio do caminho tinha uma pedra.

 

E a pedra é enorme.”

 

Sim, não há dúvida de que a pedra é enorme e há inúmeras cercas de arame farpado a tolher-nos os caminhos. Tome-se essas metáforas como aquele trecho de estrada sempre aberto diante nós que é preciso ultrapassar. Essa a imposição de nossa evolução. Evolução que nos espera, que nos atrai, para a qual nos precipitamos a fim de que absorvamos o nosso eterno instinto de subir e assim, nos leve para mais alto. Esse o mecanismo “sem fim ” - porque nossa perspectiva tem sido estreitada por nós mesmos -, que nos lança num jogo de forças pelas quais, de ilusão em ilusão, substancialmente subimos. Disto, nos parece, falou Eduardo Galeano quando afirmou: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”  E só isto verdadeiramente importa. O sonho está no amanhã, para que se transforme em sociedade real e atuante, e um novo sonho eternamente surja. Assim, continuamente se desloca a nossa posição na linha do progresso. Assim tem sido. A questão é saber como isso se dará (???).

 

Voltando aos poemas do livro acrescentamos como grata surpresa que aguarda o leitor a concepção da autora do que é “livre-pensamento” e “liberdade”. Vem no último e belíssimo poema do livro que é “Aos conquistadores fecundos”. Vale a pena, e muito, conferir este e todos os demais poemas do livro dessa autora que apresenta apuradíssimo sentido do humano em variadas latitudes existenciais porque tece sua poesia, como deve ser aqui e agora. Sem rodeios ou floreios. Direto ao âmago. Petardo na nossa sensibilidade insensível. Ao final de tanto sofrimento há de surgir sempre a luz no fim do túnel. Como não?

 

Livro: “Arame farpado” – Poesias de Lisa Alves – 2ª ed. Editora Penalux - Guaratinguetá – São Paulo.  2018, 118 p.
ISBN 978-85-5833-416-7
 Link para compra e pronto envio:

http://editorapenalux.com.br/loja/arame-farpado

 

Krishnamurti Góes dos Anjos. Escritor, Pesquisador, e Crítico literário. Autor de: Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos,  Embriagado Intelecto e outros contosDoze Contos & meio Poema. Tem participação em 27 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro publicado pela editora portuguesa Chiado, – O Touro do rebanho – Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional -  Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance. Colabora regularmente com resenhas, contos e ensaios em diversos sites e publicações, dentre os quais: Literatura BR, Homo Literatus, Mallarmargens, Diversos Afins, Jornal RelevO,Revista Subversa, Germina Revista de Literatura e Arte, Suplemento Correio das Artes, São Paulo Review, Revista InComunidade de Portugal, e Revista Laranja Original. /

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