ANO 5 Edição 74 - Novembro 2018 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


Crônica: VAUDEVILLE, MAS NÃO TANTO...

Quando eu morava no Rio (e ainda comia peixe – há mais de três décadas sou lacto-ovo-vegetariana), costumava ir com uma amiga paraense ao restaurante Arataca de Copacabana, saborear pupunhas como entrada e surubim como prato principal, delícias acompanhadas por uma das marcas de cerveja que mais gostávamos.

 

Ficamos tão habituées da casa (íamos, pelo menos, uma vez por semana), que o maître, quando o local ainda estava vazio à tarde, sabendo que eu escrevia novela de televisão e gostava portanto de ouvir histórias, nos contava alguns “causos” acontecidos no restaurante e, um deles, em especial me é inesquecível, porque ri muito, como se tivesse ouvido uma gostosa piada: um garção, no primeiro dia de emprego lá, foi avisado de que não havia peixes de água doce naquele dia; o rapaz, não sabendo o que era pupunha (nosso palmito brasileiro) e não querendo ser desatencioso diante do pedido de um cliente assíduo, respondeu cheio de pose: — "Desculpe-me, senhor, mas a pupunha está em falta". E como o cliente ficasse muito desapontado, acrescentou muito compenetrado: — "É que a pupunha está em desova...". 

 

Ao ver e ouvir o maître representando o garção, imitando o novato, lembrei-me dos filmes que vi de vaudevilles, gênero burlesco do final do século XIX, começo do XX, uma espécie de teatro de variedades, de teatro de revista em que muitos esquetes de comédia ligeira (independentes uns dos outros) faziam o público rir porque beiravam o non-sense de um grand Guignol... Pois lembrou-me um vaudeville bem próprio também à origem da palavra em francês: voix-de-ville, voz/vozes da cidade... Porém paro de me divertir quando associo este episódio a tantos falsos experts falando difícil para disfarçar seus poucos conhecimentos de algum assunto: enrolam a língua, juntam palavras incoerentes, são capazes de argumentar com bombásticas frases de efeito, e acabam, em sua soberba, se achando soberbos, ainda mais se podem exibir dois ou três livros em seu currículo mesmo com uma tiragem de sete exemplares), mencionando que têm mais um a caminho sobre algum assunto que eles achem de suma importância para toda a humanidade....  

 

Há muitos poetas, prosadores, bloqueiros, ou youtubers parecidos com o garção do restaurante, que “ouviram cantar o galo, mas não sabem onde”, e que “pegaram o bonde andando”, como diria minha mãe. A Internet está cheia deles. Falam com voz empostada, solenes, compenetrados. E ainda existe muita gente que os aplaude, por achar que falar difícil é sinal de erudição, cultura, sabedoria. Por isto, estou sempre atenta a não exibir este tipo de ethos, este ar superior de “magister dix”, pois não me satisfaz que as pessoas me considerarem o máximo só porque não entendem o que eu digo... Não quero que uma piada se torne, em minha prática de vida, uma demonstração pretensiosa, vaidosa, árida e estéril de grandiloquência, ao falar  do que não sei, como se soubesse... Uma vez me perguntaram, de forma um tanto irônica (insinuando no subtexto uma contradição que inexiste), como eu podia escrever novela de TV ou um tipo de poesia tão informal tendo pós-doutorado em literatura... E eu respondi que adequar minha linguagem a diversos tipos de ouvintes, a públicos-alvos heterogêneos, é arte que me encanta porque com isso aprendo a respeitar todos os tipos de pessoas: sejam letrados, iletrados, mulheres, homens,  jovens, crianças, e adultos de qualquer idade. Porém, é preciso entender a diferença entre: criatividade e maleabilidade no modo como se fala (afinal todos têm o direito a entender com clareza o que estão ouvindo ou assistindo), e invencionices absurdas, falsamente teóricas, as quais associo de imediato a engodo, a engambelação, a enrolação, e me recordam os esquetes com técnicas vaudevillianas, só faltando mesmo, para completar a cena, uma música francesa bem frenética prenunciando a entrada das alegres dançarinas do Cancan...

 

Leila Míccolis, escritora de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2018


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Paginação:

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