ANO 5 Edição 74 - Novembro 2018 INÍCIO contactos

Luiz Otávio Oliani


Canto de lirismo à humanidade

 

"qual é mesmo a medida da alma do homem?"
Narlan Matos

 

         No mundo globalizado, a descoberta de bons poetas continua sendo difícil, uma vez que muito se escreve, porém, em qualidade pífia; o que dificulta uma análise mais criteriosa de quem produz uma literatura de qualidade. Soma-se, também, a ausência de críticos literários, a qual não alcança a dimensão de livros escritos no Brasil, quer em prosa, quer em poesia.

 

         Por conta deste viés, Narlan Matos é um caso à parte, uma exceção à regra. O poeta, natural de Itaquara, na Bahia, hoje residente nos Estados Unidos da América, onde leciona como professor universitário, obtém maior representatividade e interesse pela obra que realiza no exterior e não no próprio Brasil, terra natal.

 

         Dono de obra que se avoluma com livros já em línguas diversas, textos traduzidos avulsos e participações em eventos por plagas diversas, Narlan Matos é um nome que merece maior atenção por parte de críticos, ensaístas e acadêmicos brasileiros.

         É, do Brasil, no entanto, que surge esta manifestação sobre mais um volume da obra do autor. Aqui, merecem todas as loas o título de poemas "Canto aos homens de boa vontade", publicação da Editora Penalux, 2018. A obra tem orelhas do Dr. Georg Walter Wink, Professor de Estudos Brasileiros da Universidade de Copenhague, Dinamarca e quartacapa que reproduz trecho alusivo à obra do baiano, no Jornal Wasgehtheuab, Berlim, Alemanha, referendando a dimensão internacional do vate.

 

         Na “nota do autor”, fica evidente o testemunho fiel da gratidão de Narlan pela partilha da vida com tantos intelectuais, amigos e leitores descobertos mundo afora.

 

         Já “Idílio” é uma obra-prima com a qual inicia o livro. Trata-se de uma carta endereçada à figura paterna. Ausente do contexto físico, mas em pensamento, Narlan Matos alcanca um lirismo pungente ao destacar a paternidade e o desejo de que o filho conhecesse o avô. Um lindo texto como segue: "Pai, já faz tanto tempo que você me escreveu. Preciso lhe contar que meu filho nasceu”, (p.14), escrito no dia do próprio aniversário, quando o poeta esteve em Havana, Cuba, em importante missão literária naquele País.

 

         No tocante a este "Canto aos homens de boa vontade", urge dizer que cinco características podem ser observadas neste volume de poemas, a serem tratadas aqui de forma não linear. A saber, do ponto de vista gramaticale literário: a ausência de pontuação nos textos, salvo raras manifestações como “evocação no metrô Washington D.C” (p.28, 29); a presença de versos assimétricos; a riqueza da imagética por meio de figuras de linguagem e jogos sonoros, além da intertextualidade. Já a última característica volta-se à temática do livro: a forte preocupação humanitária de grande parte dos poemas tem respaldo no título da obra.

 

         Toda a carga de exploração de um povo pelo outro perpassa a obra.

 

         As anáforas do primeiro poema do livro "eu creio nos homens" trazem à tona  uma poesia forte ao levantar a bandeira da esperança, porque o eu lírico proclama: “eu creio nos homens / que acreditam nos homens / acreditam nos milagres e nos peixes (...)", isto porque “eu creio nos homens /que acreditam na profunda ternura" (páginas 15 e 16).

 

         Já em "cântico dos desaventurados do mundo", o poeta afirma o olhar sobre os desvalidos e, por meio da palavra, denuncia as atrocidades mundo afora, como os conflitos  bélicos, as prisões injustas, a fome, entre outros disparates. E se "os soldados e enviados a distantes postos / afastados de seus filhos suas famílias de seus amores" estão em convivência com  "encarcerados em desumanas obscuras prisões / em celas sujas privadas de luz e esperança", eis o papel da poesia ao humanizar quem está cego diante de tal quadro.

 

         O coração de Narlan Matos consegue captar com beleza e profundidade os dramas humanos. Escrito em Dublin, na Irlanda, o poema "acalanto para os homens" é de alto lirismo e forte impacto. Por meio de versos assimétricos, (característica que percorre o livro), diz:"à noite os homens sonham em suas casas feitas de estrelas / todavia despertam para as ruas de ferro e estanho/ se amanhã de manhã eles fossem como são agora / o mundo seria um outono de rara beleza" isto porque"os homens são muito meus possíveis / e reais quando estão sonhando" (p.25).

 

         Os poemas "Canto para os homens deuses” e "outono vermelho", (p.58  e 59) tratam de um amadurecimento mais que necessário. Isto porque “(...) quando restar pouco, muito pouco / e ainda menos do que isso /- quando não restar mais nada/e ainda maior e mais inclemente /for o vento a sobre nossos rostos / (...) / teremos afinal uma chance de nos convertermos / verdadeiramente em homens." Ou porque, no segundo poema citado, "leva um tempo até abrirmos os nossos olhos/e desnudarmos a manhã, a lira, o outono // (...) leva tempo para nascermos de uma vez por todas." E o nascimento, aqui, metafórico que é, guarda o desejo de que os homens sejam irmãos, nestes tempos de barbárie e truculência em que se vive em várias partes do mundo.

 

         E, ao viajar pelo planeta e pelos livros, na paixão pela cultura e pelo conhecimento, Narlan Matos teve cabedal para escrever poemas antológicos como “flores para Fukushima”, “trenchtowns”,gueto de Varsóvia, 1942”, “observatório nuclear”, “refugiados”, entre tantos outros, nos quais dores e assombros foram transformados na mais pura e autêntica literatura.

 

         Os versos assimétricos de Narlan Matos revelam, por si só, uma opção autoral mais libertária. Por se tratar de uma poesia de contornos internacionais, quanto aos temas universalizantes nela tratados, a voz do poeta não podia se prender a regras de escansão, isto é, rígidos sistemas métricos. O eu lírico precisava de uma liberdade para um diálogo mais fraterno com os leitores; razão pela qual não cabia, aqui, uma poesia fechada em si mesma quanto à estrutura.

 

         A riqueza imagética de Narlan impressiona pelo conjunto arquitetônico de figuras de linguagem que desfila por meio de metáforas, prosopopeias, comparações, entre outras, a saber: “uma profunda esperança me faz companhia” (p.25); “a vida é um campo de lava e metano”, (p.52); “o mundo rodopia numa montanha-russa” (p.30); “a poesia é um anjo terrível vista deste escuro” (p.91); “a vida entra pela janela do quarto como um hábil ladrão” (p. 91), até as anáforas já citadas, entre outras.

 

         Como exemplo de jogos sonoros, ainda que haja a presença de rimas pobres e belíssima prosopopeia, nota-se: “somos  uma multidão de desencontros / de dúvidas queixas desencantamentos”, já que “’o sol aguarda que a multidão / se converta em mutirão” (p.42 e 43).

 

         Ainda que Narlan beba e conheça literaturas do mundo, a intertextualidade nele comparece como o diálogo fundamental de um poeta que conhece a fundo os poetas brasileiros. Em “homem comum”, ao dizer: “sou alegre sou triste sou poeta” (p.50), traz à tona versos de “Motivo”’ de Cecilia Meireles.

 

         Em “pelas ruas de Druskininkai” (p.73), o verso “como são belos estes meus quintais” remonta a um clássico do romântico Casimiro de Abreu, o poema “Meus oito anos” quando se tem:   Como são belos os dias /  Do despontar da existência!”

 

         “Retirantes” (p.78) lembra o modernista Mario de Andrade, já que o eu lírico do texto medita no grandes sofá vermelho nos Estados Unidos da América e Mario diz: “Abancado à escrivaninha em São Paulo / Na minha casa da rua Lopes Chaves”, em belo diálogo intertextual, por meio da paráfrase.

 

         Não obstante, a análise destas cinco características presentes neste livro não significa dizer que todos os textos se valem do mesmo ideário temático. Muito pelo contrário, Narlan Matos foge desta classificação aqui feita, somente para fins de estudo. Trata-se de um poeta de envergadura a escrever sobre qualquer tema, em qualquer momento. A prova disso são alguns poemas como “a figueira do tempo” (p.96), com olhar existencialista; ou “a escuridão e o cortinado” (p.91e 92), no qual o eu lírico declara “alta madrugada, frio / os galos nos quintais cantam e recitam / meu estranho passado de cor / saudando meu retorno – após muitos / anos – à casa de meu pai.” Tais textos bastam para provar a versatildade e a genialidade de Narlan Matos que, em ascensão, aos poucos, começa a ser um nome festejado também no Brasil.

 

Luiz Otávio Oliani é professor e escritor. Em 2017, a convite da escritora e ativista cultural Mariza Sorriso, integrou a equipe de poetas que representou o Brasil no IV ENCONTRO DE POETAS DA LÍNGUA PORTUGUESA, em Lisboa, Portugal. Publicou 13 livros, sendo 10 de poemas e 3 peças de teatro. O título mais recente é: “Palimpsestos, Outras Vozes e Águas”, Penalux, 2018.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2018


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Paginação:

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