ANO 5 Edição 74 - Novembro 2018 INÍCIO contactos

Marta Aguiar


Poemas

5 POEMAS (livro “Desvelares”  , Editora Penalux, 2018)

 

1. CÉU SEM RUMO



Com um gesto angelical                                              
Olhou-me da janela                                                            
Sorriu-me tão pueril                                                            
Que me queimou por dentro                                                   
E no ato deslumbrado                                                             
Eu me perdi, lá fora,                                                  
Arrancado do peito                                                     
Engolido com jeito                                                            
E nunca mais foi embora                                                           
Esse esplendor de céu

Senti meu corpo inteiro                                                   
Coberto deste mal                                                              
E vivo, em devaneio,                                                   
Levou-me todo nela                                                           
E assim, qual coisa vil                                                              
Neste feliz tormento                                                    
Caminho em céu e inferno                                                           
Por um amor tão terno                                                   
Perdido e pouco em mim. 

 

 

 

 

 

 

2. DESVELOS

 

Espera um instante! 
As águas caem lá fora
Nas ruas que agora se calam
Pelas flores que desabrocham, resvalam
São segredos de tempos de outrora.

 

Descansa ao meu lado!
No colo de tua esperança 
Ainda há gosto e calores
Sorrisos quentes
Uma doce lembrança 
E chuvas que aliviam dores.

 

Amanheça em meu desejo!
Sugarei com dulçor tua lágrima
E, desnudo, negarei desapego
Em silêncio colherei tua lástima
Na tempestade, me farei teu sossego.

 

E, ao dormires, coberta de calmaria 
Eu entrarei com constante cuidado
Repousarei em ti minha ousadia.

 

 

 

 

 

 

3. COISAS DA NATUREZA

 

Chove...
O vento frio me envolve
A chuva quente convida.
Nas árvores as folhas balançam 
Cheiro e barulho me alcançam
A Terra se abre...Vida!

 

A Água perfura, inquieta
E a Terra, gozando, aberta
Se sente feliz, invadida.

 

Chove...
O barulho da chuva comove
Há encanto. O caminho conduz...
Os seres se abraçam, se esquentam
Olhos e bocas experimentam
Desejos repletos de luz!

 

A água penetra, doce espinho
A terra a recebe em seu ninho.
O sêmen forçando passagem
Semente que assume outra imagem 
Aflora e em flora reluz!

 

 

 

 

 

 

4. EMBATE

 

Perdidas, as antigas ilusões 
Equilibram - se no correr do ontem
Embriagadas de verdades, se corrompem
Explodem no ardor dos corações.

 

Todos os sonhos, desejos incontáveis 
Calam - se diante da requerida existência 
E o pesado pensado com fazeres inadiáveis 
Aprisiona quereres, questiona incoerência.
"No maquinário imposto
O viver de agora!"
Tudo tão palpável, concreto, pressuposto
Que parece certo agarrar - se ao chão.
Com pressa o ser se apressa 
E o tempo passa
Vazando cores, sonhos, amores
Engolindo espelhos e dizendo: - Não!

 

Enquanto lá na praça
A Poesia pousa e chora
Ama, esperneia, sente
Pressente a espera de sua hora.

 

 

 

 

 

 

5 . DESENCONTROS

 

Nasceste pássaro
Com anseios de liberdade 
Nasci riacho
De águas calmas, paradas
E nos delírios
De suas asas sonhadas
Vivi tristeza
De incerteza e saudade

 

Teci gaiola
Para prender-te ao meu lado
Teceu silêncio 
Uma ausência de vida
Vivi martírio 
Desencanto calado                                                                                                                                   Senti  tua angústia 
Esta dor repartida

 

Nasceste pássaro
Eu, teu riacho, te quero!
Águas sofridas
Que aguardam sedentas
Achas teu céu 
E tuas guerras enfrentas!
Nasci teu repouso
Pelo teu pouso eu espero.

 

 

 

 

 

6. ANDORES

 

Nos andares dos sentidos ocultos
Variações para uma ação adequada
Engole-se o medo do castigo
Com ele, os atalhos para insultos
Os muitos ais, desejos plenos
Uma fé que não exija nada
A pretensão de não haver perigo

 

Os altares, nós levantamos pelo caminho
Construindo templos para deuses de barro
Carregando, nos ombros, charola e fantasias
No coração, enfeites muitos para um ninho
A solidão, amargo veneno, em um jarro
E prosseguimos na procissão dos dias

 

Que pode o homem contra o seu destino?
Que pode a vida quando chega a morte?
Quem saberá para onde estamos indo?
Carregando sonhos e, assim, seguindo
Estrada afora com nossos andores
Tentando na lida a nossa própria sorte
Levamos conosco o medo de quem somos:
Pobres mortais, que esbarram em dores.

 

 

 

 

 

 

7. ENAMORADAS

 

Eis a manhã: bela, montanhosa
Do mar o sol levanta caloroso
No quarto, a mulher cheirando a rosa
Penteia-se com gesto caprichoso

 

Espreita, na janela, a cotovia
Encanta-se com os lábios de quem canta
Tão vida e, assim, tão mais que o dia
A noite dos cabelos lhe suplanta

 

A cotovia olha deslumbrada
No espelho se reflete a dor de um seio
E a curva que aos poucos logo veio

 

E presa, na janela, estagnada,
Esquece o dia belo, coisa qualquer,
Se perde nos caminhos da mulher.

 

 

 

 

 

 

CINCO POEMAS INÉDITOS

 

1. NUVENS


Os olhos embargados pela dor
Vagando a espreitar pegadas
Sonhos ou marcas deixadas
Por um sentimento algoz.
Coração repleto de nós!...
 
Águas turvas na face amargurada
E nas curvas, atalhos inventados
A saudade de momentos passados
Uma vida em uma morte interligada
Que resiste, insiste em permanecer
Sendo eterno, mesmo sem o ser.

 

Na gota que vomita saudade
Carrega a Tristeza um delírio
Saciar-se e partir em seu martírio
Na solidão curar - se e revolta
Deixar- se ir, como uma folha solta.

 

 

 

 

 

 

2. EU?

 

Já não sei de mim...
Sinto esta incompletude
Toques, cheiros, sabores.
Esta amplitude de dores
Que prenunciam um sim

 

Se me encontro, quase bela,
Andando por atalhos da vida
Rio daquela, já não sou ela,
Simplesmente me desprendo
E esquecida
Já não sei de mim

 

Se me achares
Me prendas
Não avise!
Ainda que eu de ti não precise
Não me deixes jamais!

 

Quando em ti,
Me desnudo
Me descubro
Quero tudo
Me completo. Te desejo.
Enlouqueço, incapaz...
E, surpresa, nos teus olhos me vejo!

 

 

 

 

 

 

3. CAMINHOS

 

Entre as escarpas da estrada
Deslizes forjados pela vida
Encontramos razões diversas
Sorrateiras, submersas
Em nossa ilusão descabida
Para simplesmente desistir
O nada refaz - se em um todo
No qual desavisados flutuamos
Pensando passados pensados
Na esfera do lirio no lodo
Calamos, choramos
Sofremos, paramos...
Desejando ir e vir.
Nas íngremes estradas da vida
Lembranças são pedras marcadas
Que abrem sem dó a ferida
O sangue a jorrar nas calçadas
Caminhos são becos sem volta
Encontros e experiências
Vivências nos servem de escolta
Escolhas traduzem vontades
Ausências são belas saudades! ...

 

 

 

 

 

 

4. PRA VOCÊ

 

Para você eu faria do entardecer uma coroa
E cravaria nela um querubim
Nas nuvens traria a poesia
Para chover no seu jardim...
Te pediria
A singeleza das rosas em botão
A suavidade dos cheiros da terra
A cumplicidade de um beijo doce
Que acaricia um coração
O maior presente?
Um sorriso roubado
Um aperto no peito
Um querer meio sem jeito
Um amor que é só de mãe...
Gosto?
De mel que escorre na boca
De pólen. .. Que coisa louca!
De ambrosia e desejo
De fruta madura no pé
Que encanta menina e mulher.
Sonho?
O primeiro olhar
O primeiro amor
O primeiro beijo
Um despertar sem nenhuma dor.
O vento entrando na alma
Despindo um querer contido
Um pássaro que estava escondido
Morando aqui bem quietinho
Dentro do meu coração.

 

 

 

 

 

 

5. LOUCURA

 

Nos vícios e quereres
Derretem - se os sabores
E as tantas amarguras
Deixadas nos atalhos

 

São dores. São retalhos
Escombros de viveres
Que lhes causam fissuras

 

Lá fora,
Um velho, nu, na estrada
Uma menina, que abrem, na cama
Um jovem deitado na lama
Uma mulher, sem rosto, espancada
Na entrega de um vil engano

 

Ontem,
Um menino, no portão, baleado
Uma mãe que chora por seu filho
Um coração que agora está quebrado
Um rapaz perdido no trilho
Deste trem, que viaja, sem plano

 

Agora,
Olhos que choram e um lamento:
Ter mãos e não saber abraçar! 
No tempo, sem tempo, um tormento:
Apesar dos pesares, sonhar!...

 

 

 

 

 

 

6. POEMAR

 

Não precisa de rima,
Um poema:

 

É um esquema que cisma
No som da tecitura 
Ao fôlego da língua 
É uma sede de amores
Um quase morrer à míngua 
Uma pitada de amargura 
O desmaio de uma virgem impura
Um tanto de audíveis calores

 

Um poema deve ter um ou dois poucos!...

 

Quartetos cabem três ou mais 
Soltos, presos, leves, loucos
Tercetos? 
Esses nunca são demais!

 

Os dísticos sempre brincam
Comprimem , exprimem , esticam
E estruturam - se em reversos

 

E os solitários e unos versos
Enviesam-se de emoção morna

 

Mas rimas? Métrica e forma?

 

Um poema tem pressa e pulsa
Chorando baixinho, miúdo,
Na trama de um querer profundo.

 

 

 

 

 

 

7. PRESENÇA CONSTANTE

 

Desmaiei na tristeza do passado
Achando nela o meu dúbio descanso
E enquanto teço brumas de saudade
Vai - se no tempo ingrato e calado
Tantas ausências e este gosto ranço 
De quem deixou-se aqui por veleidade.

 

Saudade dói e tristeza apavora!
Quero colher na concha do destino
Um tanto assim de estar e alegria 
Hei de fazer meu tempo, sempre, Agora
E deste velho, que hoje sou, menino
Para sonhar sorrisos todo dia!

 

 

MARTA AGUIAR, nascida no Rio de Janeiro, Brasil. Poeta e Professora formada em Língua Portuguesa e Literaturas (UNESA), com pós-graduações nas referidas áreas, pela UERJ e pela São Bento. Apaixonada pela arte escrita, atualmente também tem atuado como Revisora literária, auxiliando escritores e iniciantes, tanto com revisões quanto com Oficinas de Produção Textual. 

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CANDIDO PORTINARI, 'Painel Tiradentes: detalhe 3: execução de Tiradentes', 1948.


Paginação:

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