ANO 5 Edição 74 - Novembro 2018 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: Aqui na Terra como no Inferno

Queria me aproveitar um pouco de minha esquerdopatia para falar de como andam as coisas por aqui. Obviamente é uma opinião viciada por uma percepção totalmente inadequada, afinal meus olhos vermelhos, também de tanto chorar, observam a realidade de um prisma sempre conspurcado por valores muito diferentes dos eleitos no último pleito para presidente.

 

Aqui na Terra estão jogando futebol. Ainda. Mas não como jogavam antigamente. Somos agora em campo um aglomerado de cabeças de bagre, pernas de pau estrangeiros, que passam no Brasil em férias apenas para desfrutar do carnaval. Às vezes até votam, sempre com os pés. Faz tempo perdemos a condição de melhores do mundo.

 

Aqui na terra já não existe um jornal como o Pasquim. Existisse e estaríamos todos rindo da boçalidade vigente, haveria jornalista de plantão dizendo o que precisa ser dito sem se acovardar. Imagino sempre o Millor acompanhando os cenários de idiotice escolhidos a dedo pelos simpatizantes do novo poder. Sobrariam frases de efeito.

 

Aqui na terra estão preocupados com os casamentos homoafetivos. Talvez porque afetividade não é o forte dessa gente de mentalidade tacanha, cismada em tentar estabelecer uma ditadura via voto, dando força para quem prefere resolver os assuntos na porrada, muito por ser incapaz de dialogar.

 

Aqui na terra estão dando uma atenção danada para as coisas de Deus. Um Deus lá deles, diferente daquele ensinado em minha infância. Sujeito implicante, metido a proibir os prazeres mais comezinhos. Deus mal-humorado, inculto, sempre de olho torto para o amor. Detesta livros, tem até dado uma forcinha para as livrarias quebrarem, fecharem, quer reza ao invés de leitura. Um Deus branco, provavelmente loiro e de olho azul. Oram, oram muito, sempre para ele, o Estado deixou de ser laico.

 

Aqui na terram tem se falado muito em tortura. E mesmo sem a maioria das pessoas saberem, ou mesmo imaginarem um pau de arara, telefone ou cadeira do dragão, calculam excitados como deve ser bom, talvez em nome desse Deus ariano, impor martírios aos esquerdopatas como eu. Escolheram até um torturador cruel, famoso pelos tormentos impostos graças à sua mentalidade criativa na hora de inventar maldades, como herói e ídolo. Sua obra de memórias, onde descreve seus atos de “bravura” contra gente indefesa, está na cabeceira do presidente eleito.

 

Aqui na Terra o medo tem grassado. E não vejo a menor graça em ver tanta gente apavorada, achando que vai ser ferida pelas armas compradas, o poder está incentivando o povo a fazer uso delas para se defender. Falam em mirar e atirar na cabecinha. O diminutivo reforça a tese de não existirem mais crâneos grandes, pois para pouco cérebro eles não são necessários. Estudantes, a comunidade LBGT, negros, deficientes, mulheres, homens com cabeças um pouco maior, todos estão procurando se unir e a proposta é de ninguém soltar a mão de ninguém.

 

Aqui na Terra falam em misturar ministérios e acabar com alguns. Tudo em nome da austeridade, afinal elegeram-se em nome da não corrupção. Não importa termos alguns futuros ministros processados, existem modalidades de corrupção aceitas. Se o cidadão for temente a Deus, e invocar a presença Dele sempre ao se apresentar em público, a bandidagem é divinamente aceita. E na dança de se juntar raposas com galinhas, sabemos que o meio ambiente irá pagar o pato. Mas quem é capaz de se preocupar com a Natureza? Se ela é celestial, Ele dará um jeito. Enquanto isso vai-se faturando, sem deixar de se pagar o dízimo, é claro.

 

Aqui na Terra os economistas estão felizes. As coisas, parece, serão como eles gostam. Os ricos ficarão mais ricos e os pobres... Continuarão pobres, alguns achando que são ricos e votando de dedinho esticado, simulando um revólver.

 

Aqui na Terra está um Inferno, mas muita gente ainda não percebeu. Talvez devido ao aquecimento global. O povo delicia-se nas labaredas, não está nem aí.
Nov/2018 

 

 

Ricardo Ramos Filho, é escritor com livros editados no Brasil e no exterior, publicados em Portugal e nos Estados Unidos. Mestre em Letras no Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, doutorando no mesmo programa. Desenvolve pesquisa na área de literatura infantil e juvenil, onde vem trabalhando academicamente Graciliano Ramos, privilegiando o olhar sobre seus textos escritos para crianças e jovens. Ministra diversos cursos e oficinas literárias na Escola do Escritor (literatura infantil, roteiro de cinema, poesia, conto e crônica). É roteirista de cinema com roteiros premiados, tendo ministrado curso de extensão na ESPM. Atua como coach literário, orientando clientes na elaboração de seus livros. Cronista da revista literária eletrônica Escritablog, onde publica mensalmente. Participou como jurado de concursos literários: Proac, Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura, Prêmio Mato Grosso de Literatura, Paulo Setúbal de Tatuí. Curador do 1º Prêmio Nelly Novaes Coelho UBE de Literatura Infantil.  Sócio proprietário da empresa Ricardo Filho Eventos Literários, onde atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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CANDIDO PORTINARI, 'Painel Tiradentes: detalhe 3: execução de Tiradentes', 1948.


Paginação:

Nuno Baptista


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