ANO 5 Edição 74 - Novembro 2018 INÍCIO contactos

Sandra Poulson


Walalipó ao rei do Mbalundu: nós somos os Ovimbundus, o Mbalundu afamado é mesmo aqui, não é lá

Certa manhã do mês das chuvas, partimos da Chipipa, Município da Província do Huambo, situada no Planalto central, em Angola, deixando o nosso “ Sossego da Paz”, que de tranquilidade não teve alguma, pois a noite entrou para além da hora devida, com cantorias, corros e cantares de todos os participantes.

 

Cantamos desafinado ou não, sem fogueira, mas com bandeira, o poema “Meninos do Huambo” de Manuel Rui Monteiro, tertúliados com fados que transpiravam nos nossos copos de vinho, em noite fresca de Estação chuvosa. O calor por estes lados não se faz sentir, pois as precipitações são constantes.

 

Sem palavra escrita, sem literatura, sem poema e sem verso eu não vivo. Desta vez decidi rasgar a noite do não sossego, com o poema “Mulher Negra“ de Alexandre Dáskalos, poeta nascido em 1924 na Província do Huambo, falecido em Portugal em 1960. A sua alma ficou em nós para todo o sempre. Entre outras mensagens o poeta deixou esta, que me tocou no íntimo, à mãe, à mulher sofredora, aquela que gere, cria e abençoa os seus filhos.

 

Estrada fora em direcção ao Mbalundu, onde chegamos em pouco tempo. Começamos por visitar o Centro Cultural Mbalundu, edifício situado no Largo onde está empolgada a Estátua, das primeiras mais altas de Angola, aproximadamente 8 metros de altura da base ao topo, daquele que um dia foi o Soberano do Mbalundu, tendo reinado entre 1876 a 1890, o Rei Ekwikwi II.

 

A obra de arte, lamentavelmente, não tem o nome do artista que a concebeu, simplesmente estão expostas do mesmo bronze da obra, com os dizeres:
Elangalangongo, larva que não pode ser engolida pelo pássaro Soberano do Mbalundu – Reinou 1876 – 1890. (Ekwikwi Layavali Elangalangongo cipuka Kaciniwa L, Onjila osoma yinene y, Ombalundu Yavyala Tunde Ko 1876 Toke ko 1890).

 

Foto com pose ou sem ela, de família ou individual, a verdade é que o local foi bem explorado, por todo o grupo.

 

O nosso destino não era um Largo embelezado por uma imponente estátua de bronze do Rei Ekwikwi, onde se decide se o caminho é Huambo ou Mungo, era sim, conhecer a Ombala yó Mbalundu, a corte e o seu Rei.
Não o Rei Katyavala, do qual visitamos a campa, aquele que foi Fundador do Reino do Mbalundu, mas sim o Rei Ekwikwi V.

 

O nosso Ekwikwi V que poderia ser o Rei delas ou o meu porque não?

 

Nós as mulheres, casadas, solteiras, livres e despreocupadas. Entusiasmadas pelo passo seguinte, ainda tivemos tempo de engraçadamente, trocar ideias, pelo rádio de comunicação acerca de uma possível proposta de casamento vinda do Rei do Mbalundu. Quem aceitaria?

 

Eis a questão.

 

Todas queríamos ser Nssoma, ou seja Rainha, nem que fosse por um dia.

 

Seguimos caminho em direcção ao Município do Mungo, mas com destino breve, onde paramos para sentir o auge dos quatro dias de viagem.

 

Domingo é dia de Igreja, de rezar por nós, pelos antepassados, pelos futuros, pelo bem do Mundo inteiro. Mas neste domingo trocamos a Missa por uma aula de sapiência, ministrada por um homem com poucos cacimbos, escassos cabelos brancos. De aparência jovem, de simpatia incomum, e informalidade fora de comum.

 

Chegamos a um território fisicamente não vedado, mas com uma cerca espiritual que o demarcava do restante.

 

É a Ombala yó Mbalundu, a sanzala do Rei do Mbalundu, de sua linhagem Ekwikwi V, e de seus súbitos. É um povoado destinto dos demais, com regras sui generis, e comandado por uma ancestralidade evocada a todo o momento.

 

Esperamos segundos em campo aberto até que chegou o nosso Rei, de andar calmo e sereno, sentando-se na sua poltrona real, em madeira doirada, com cabeceira alta e toda ela torneada com diversos símbolos, tendo o assento e costas forradas em pele de Zebra, os braços em pele de Tigre, assente num tapete de pele de Leão.

 

Era a natureza morta debaixo de um Rei vivo.

 

Armindo Francisco Kalupeteka, “nome que lhe nasceram com ele“, é o 5º Rei da linhagem dos Ekwikwi, bisneto de Kapiñgala Ekwikwi (Ekwikwi II ), e neto de Augusto Katchitiopolo (Ekwikwi V), já falecido.

 

Ekwikwi V, foi seleccionado, entre outros descendentes, e mestrado em conhecimentos culturais e tradicionais, por seu avô, nos últimos anos da vida deste, para subir ao trono e desempenhar da melhor forma o reinado.

 

É casado, pai de sete filhos, professor de profissão e actualmente estudante de direito.

 

Foi entronizado a 13 de Abril de 2012, na Ombala yó Mbalundu, na presença de autoridades tradicionais, governantes e população em geral, é um Rei do povo.

 

É uma esbelta figura, ladeado por sua esposa. Mulher, bem mais nova que ele, figura sorridente e bonita, exibindo somente um pano na mbunda que a cobria até aos pés, e um turbante do mesmo pano, em preto e branco. Da cintura para cima, vestia uma sexy camisola preta, com um fecho fácil de abertura que nem uma teenager.

 

Nós as mulheres da caravana, que pensávamos que podíamos seduzir sua Majestade, rendemo-nos à beleza, feminilidade e jovialidade, da Rainha do Mbalundu. Aquela que o Rei apresentou depois de apresentar parte da corte.

 

Voltando-se para onde estava a Rainha diz em tom sorridente:
- Não vou esquecer a minha Rainha. Esta é a minha primeira, Cassinda.

 

Caiu o pano, e nós mulheres da Cidade, de torneadas formas, não tínhamos condição para concorrer a Primeira. Restava candidatarmo-nos a segunda, terceira ou quarta mulher, ou este campeonato estava perdido.

 

Desmoronadas as nossas expectativas de mulheres, vamos para o mais importante.

 

Sinceramente eu esperava que o Rei se apresentasse com símbolos tradicionais Reais, como uma coroa de diamantes, porque não? Existem na zona. Um manto de pele de animal Selvagem, a arrastar pelo chão novo de calçada portuguesa ou até em tronco nu, musculado, brilhante e azulado, como um pedaço de homem.

 

Desiludiu-me a sua veste comprida aveludada, com um barrete da mesma cor, rosa velho. Alegrou-me sim o que tinha calçado, umas sandálias à semelhança do papa Francisco, elaboradas de resos de câmara de ar, e do próprio pneu de carro, que em Umbundu chamamos Oluhaku, na Huíla, Noncacus, em Benguela Londindis.

 

A sua corte constituída somente por homens estava toda vestida de traje Europeu. Fato, colete e chapéu, que não foi tirado em momento algum, mantendo-se de pé todo o tempo, enquanto a rainha esteve sempre sentada.

 

É verdade que o traje era semelhante à figura conhecida do seu ascendente o Rei Ekwikwi, que reinou no fim do século XIX, tal como o seu calçado, mas a meu ver esmerou-se pouco para tão nobres visitantes.

 

Como símbolo real ostentava uma bengala, que fazia o papel de Ceptro Real, em madeira escura, torneada com várias figuras, umas de cabeça para cima outras de cabeça para baixo, uma mulher, o pensador, o ouvinte, entre outros, que sua Majestade agarrava com a mão esquerda, enfiando o dedo indicador na boca aberta do leão, que exibia quatro dentes de marfim.

 

Formamos uma fila de frente para o Rei, e todos nós sem excepção tivemos o privilégio de, ao nos ser estendida a mão, entregarmos a nossa direita e com a esquerda a agarrar o nosso antebraço, em sinal de respeito, dizendo Walalipó. Esta é uma das formas respeitosas de cumprimentar uma entidade tradicional da nossa terra e nesta zona. A rainha finalmente de pé, também nos estendeu a mão, um a um.

 

De seguida o protocolo borrifou-nos um pé e uma mão com uma planta balhada em óleo de palma, ritual este que nos permitia entrar para um local mais restrito, o Jango onde sua Majestade iria ministrar a aula de sapiência.

 

- Pertencem a este reino os povos do Huambo, do Bié, de Benguela, parte dos da Huila, todos os que falam a língua umbundo, aqui é o seu centro. Aqui é também o centro das autoridades tradicionais.

 

- Na Ombala vive o rei ao centro, no Palácio e ao redor a corte. Esta é constituída por vários sobados, que ocupam cada um deles uma residência, e uma função específica.

 

- As residências são de funções.

 

E apresenta-nos a sua corte:
- Este é o soba Ngambola. Este não é o nome dele. Este é o nome de função.

 

- O nome que nasceu com ele é Inocêncio.

 

- O trabalho dele é de conselheiro, mas para além deste tem outros poderes, como o de entronização do rei junto do Soba Macário.

 

- O soba Macário também o seu nome próprio não é este.

 

- Temos aqui o nosso secretário, já sabem o trabalho dele. Foi ele que primeiramente vos recebeu.

 

- Este é o soba Tchilala tem outras funções, é o homem do protocolo, recebe as visitas, mas também trata dos Mausoléus.

 

- Quando vamos enterrar alguém aqui na Ombala, temos que obedecer a determinados rituais. Ali onde estão os Mausoléus, o lugar é sagrado, e é perigoso, não se entra à toa, precisa de autorização dos nossos antepassados.

 

E aponta para o local onde estão as campas dos antepassados.

 

- O Rei depois de entronizado, nunca vai conhecer esses lugares.

 

- Este é o Seculo, ele dirige o Município.

 

- Soba é quando está a dirigir uma aldeia, e Soba grande é quando dirige várias aldeias.

 

- Regedor, ou também poderá chamar-se Soba Grande, é quando estiver a dirigir uma Província.

 

- É Rei quando as suas funções, o seu território ocupa várias Províncias. Por exemplo o reino do Mbalundu, ocupa geograficamente quatro Províncias e uma Região, é uma língua.

 

Depois diz:
O reino do Mbalundu ocupa 46% do Território Nacional, somos muitos. E sorri.

 

- Este é soba Kessongu tem a função de acender o fogo, na Entronização do Rei.

 

- Aqui nesta Ombala não se entra à toa, é preciso autorização.

 

- Quando está para morrer um rei temos que ter em conta determinado trâmites.

 

- Assim que um Rei está prestes a deixar o Mundo dos vivos, entra em estado de coma, rapidamente, o Soba Mucário e o Soba Ngambola, tratam de o tirar do Palácio.

 

- Ele não pode permanecer no Palácio por poder transmitir mau agouro, ao próximo Rei que vai governar.

 

- Há todo um processo que se segue um ritual obrigatório.

 

- O corpo á parte, a cabeça à parte. É preciso separar a cabeça do corpo. Vai-se rodando, rodando, até que esta se separa.

 

- O corpo é enterrado aqui, (aponta para o local onde estão os antepassados), e é feito um Mausoléu, e a cabeça é enterrada na montanha, na Halavala.

 

- Durante a noite que se está a velar o corpo do Rei falecido, e na noite em que ele é enterrado, os sobas reúnem para decidir, qual a linhagem que trabalhou bem e dentro dessa, a pessoa que melhor se coaduna para a governação. Temos várias linhagens, não é só do Ekwikwi II e V.

 

- Depois, de escolhido o futuro Rei pelos Sobas, estes vão à residência e raptam-no amarrando-o, e trazem – no para a Ombala, onde fica escondido.

 

- Deixam-no aqui na Ombala, e vão falar com a sua família, dizendo que ele foi escolhido para Rei, e se ela aceita enterrar essa pessoa para reinar. Se a família aceitar reúnem com ela e com o escolhido. A decisão dele tem um valor inferior à decisão familiar.

 

- Poderá dar-se o caso de a família não aceitar. E aí ele não será Rei. A aceitação da parte da família, não é obrigatória.

 

Esta tradicional forma de negociação, e aceitação, entre famílias, ou entre estas e a comunidade, é semelhante para todos os actos importantes, do poder tradicional, entronização, nascimento, casamento, morte, a nível de todo o direito consuetudinário. Estes acontecimentos importantes da vida das pessoas da comunidade, são “conversados“, entre os mais velhos da família, ou entre estas e autoridade tradicional. Um ou dois indivíduos não podem decidir sozinhos, nem o simples acto de casamento.

 

Depois de aceitação de todas as partes, há todo um processo, que é acompanhado pelos Sobas, pela família do futuro Rei.

 

É preparada pelas autoridades tradicionais, uma festa restrita, onde o futuro Rei, é apresentado, e só posteriormente é conhecido de uma comunidade um pouco mais alargada.

 

São-lhe dadas as diretrizes e o trabalho propriamente dito, para ser executado durante dois anos. Se ele trabalhar bem, é entronizado com toda a pompa e circunstancia, depois desse tempo, caso contrário é expulso da Ombala.

 

Mais uma vez interrompeu as suas explicações, depois de muito tempo falar, sendo que desta, em sinal de nos pedir desculpa pela língua usada.

 

- Eu vou usar uma língua importada, para falar para vocês, falar em umbundo ninguém me ia entender, e se usar tradutor demoraria muito.

 

Falou todo o tempo em português, usando muitas expressões em umbundo que não traduziu.

 

Continuou a apresentar a corte:
- Este é o soba Kissongo que vos apresentei há pouco, é o homem do exército. É o chefe do estado-maior do exército, ele é que tem a posse da bandeira da Ombala. No outro tempo não havia presidente, só havia Rei e o seu povo, e o papel do soba Kissongo era muito importante, ele era o guardião da Ombala, daí a sua residência estar à entrada da mesma.

 

- No processo de entronização o Soba Kissongo, tem hierarquicamente um papel primeiro em relação ao soba Mucário. E só depois de passar pelas cerimónias destes é que o Rei vai exercer as suas funções no Palácio.

 

- Hoje como temos Administrador, o rei e sua corte têm de ser apresentados ao administrador. Mas só depois de entronizado. E esta começa por ser uma cerimónia restrita.

 

O novo administrador do Município do Mbalundu, não pode assistir a esta cerimónia, porque ainda não tinha apresentado cartas credenciais ao Rei Kalupeteka. O que significa que poder tradicional, em determinadas zonas do País submete o poder Governamental.

 

Quem aceita o Rei, são forças transcendentais, é a elas que são pedidas as palavras decisórias sobre o futuro governante.

 

Antes da entronização são feitos vários rituais, entre eles, o do fogo.

 

Dizia-nos o Rei:
- A aceitação do Rei como governante é invocada aos nossos antepassados, dizendo os seus nomes, através do fogo.

 

E simula como se faz: fricciona dois ferros específicos e, balbuciando algumas palavras diz-nos que se resultar fogo, mete-se uma brasa e, e mostra-se essa brasa à comunidade da Ombala. Significa que o além aceita este Rei. É o soba Kissongo que fricciona os ferros na entronização.

 

A alimentação desta brasa é feita pela comunidade que vem assistir à entronização. Eles apagam todos os fogos das suas casas e trazem para a Ombala uma brasa apagada, que vai juntar à primeira que é acesa pelo Soba Kissongo, que é o homem do exército. Depois a segunda brasa é acesa pelo soba Macário. E finalmente acende-se a do Palácio. Esta brasa mantém-se acesa como sinal de aceitação, dessa pessoa.

 

Se da fricção dos ferros não resultar fogo, significa não-aceitação pelos antepassados, e logo, este Rei não pode aventurar-se, a reinar. Caso contrário vai sofrer consequências.

 

- Até com os presidentes isso se passou. Quando cá esteve o Savimbi, nós friccionamos os ferros e eles não acenderam. Mas quando cá esteve o Presidente Eduardo dos Santos, o fogo acendeu.

 

Aproveitou para dizer que o Rei deve ser bom governante, caso não o seja, a corte faz greve, sendo que esta é que o controla, a ele e à população, e poderá até destitui-lo.

 

De seguida diz-nos:
- O Mbalundu afamado, não é lá na cidade, o Mbalundu é mesmo aqui.

 

O Soba Tcitonga, o Soba Kassoma são as únicas pessoas que visitam o Rei, que perguntam se está a passar bem, ou não, mais ninguém pode visitar o Rei.

 

- Este é o Soba Tchingunge tem a função de Procurador.

 

- Temos aqui o Soba Empala, ele é o responsável pelo nosso Laboratório tradicional, onde são analisadas as nossas comidas, nomeadamente as do Rei. Ele é que analisa com os seus poderes e com as suas substâncias químicas, confirmando ou não a boa qualidade dos alimentos das bebidas. Só depois é que esses alimentos e bebidas são levados ao rei para este comer e beber.

 

Diria eu, é o Logístico, fazendo o papel que na tropa colonial tinha o Sargento Vago – mestre.

 

- Este é o Soba Tembwa Somba, é o cozinheiro do Rei.

 

- Este é o soba Tcuali, tem toda a responsabilidade sobre o vestuário.

 

Faz um interregno e diz: - Estão a ver estas Mulembeiras. Cada Mulembeira é um Sobado.

 

- As residências que estão a ver, são 35, que fazem parte do reinado, e foram construídas no lugar próprio de cada Soba. Aqui não se pode construir em qualquer lugar.

 

- Na totalidade são 35 Sobas, que fazem parte deste Reinado.

 

- Também temos o Mecenas, aquele que trabalha junto ao Rei, que o ajuda, em julgamentos, que faz para que as actividades sejam furtivas, que protege a comunidade quando chove ou há seca. Mas a palavra final é do Rei.

 

Os fenómenos naturais de calamidades ou de bonança, de pestes, são trabalhados lá de cima, os Quimbandas e os Sobas dirigem-se ao além para manipular a natureza.

 

Soube eu, que noutros tempos nestas paragens, desapareceu do Campo Santo a tampa da campa do soba, e os demais sobas “ amarraram a chuva até que a pedra de mármore parecesse. Só quando a tampa foi detectada é que foram desfeitos os nós do sisal e aí a chuva caiu.

 

- Por exemplo se hoje não temos Leões, alguém está a cuidar deste lugar, se não temos gafanhotos, aqui gafanhotos chama-se oluhuma, alguém está a cuidar.

 

O Mecenas é o protector do Rei, das coisas boas, da comunidade, e da transformação do mal para o bem, ele patrocina o bem-estar.

 

- Se hoje viesse o Presidente da República, ele tem de nos contactar, senão, por exemplo, pode chover e estraga todo este evento. Para que isso aconteça, alguém tem de trabalhar, nós dirigimo-nos a alguém, e ele trabalha para não chover.

 

- Se a chuva não cai no tempo certo ou se chove granizo, alguém tem de trabalhar. Mas até hoje essas pessoas que trabalham para nós não foram reconhecidas pelo estado.

 

- Aqui chove sempre, se hoje não temos chuva, alguém esta a fazer algo para ela não cair.

 

Entretanto Sua Majestade continua a apresentar a sua Corte:
- O saneamento básico é da responsabilidade do Soba Lumbungulumbo.

 

- Nós somos os Ovimbundus, o Mbalundu afamado é mesmo aqui, não é lá.

 

Esta afirmação era sempre seguida de grande animação, em que os batuques, cantares, e as ovações eram preenchidas pelos odores fortes da comunidade.

 

Acerca do facto de sermos comandados por um certo misticismo, e por vezes não querermos respeitar o que as forças do além nos endereçam, o Rei profetiza mais um pouco.

 

- Os Kimbandeiros têm que profetizar o porquê da chuva não cair.

 

- Certa altura, no outro tempo, o novo rei empossado, viu que as coisas não estavam bem. E foi lá na montanha, e começou a ver que as pessoas não gostavam da sua governação, decidiu, que tinha que vir do topo até cá abaixo, descer ao povo, ouvindo-o. Foi então que decidiu reunir a corte e ouvir as profecias dos Kimbandas.

 

- Os kimbandeiros disseram: - O rei que você substituiu, o Tchivukuvuku, faleceu lá em Luanda. E o crânio dele, esta lá no museu dos brancos, (Museu da Antropologia) por isso, se a corte não partir, para ir buscar o crânio e trazê-lo para o seu lugar, a chuva nunca vai cair. É isso que está a amarrar a chuva.

 

- E naquele tempo não havia meios de locomoção, mas eles foram. E quando chegaram lá em Luanda, os brancos riram, disseram:
- Estes pretos não pensam mesmo. Não têm nada na cabeça. Mas podem entrar.

 

- Então o branco disse para os outros:
- Eles vieram buscar o crânio do Rei do Mbalundu. Não sei como é que vão saber distingui – lo no meio de tantos crânios.

 

E disse-lhes: - Estão aí os crânios fiquem à vontade.

 

Continuou:
- Eles tinham os seus rituais, tocaram batuque, saltaram, dançaram, então começaram a ver muitos crânios a saltarem no meio uns dos outros e a virem até à porta. Até que detectaram o crânio do Rei, e trouxeram-no. A partir daquela data, ele esta aqui.

 

- O crânio e o Jango foram posteriormente untados com óleo de palma, para ficarem blindados de todo o mal. Depois a chuva caiu.

 

Na nossa cultura o óleo de palma, ou seja o azeite de palma, pois é retirado da polpa do dendém, é usado para tudo. Adubar a comida, curar as feridas, proteger contra os maus espíritos, benzer os doentes, é semelhante à água benta dos católicos.

 

Fomos encaminhados pela corte para outro Jango, onde o chão estava coberto de peles de animais e estendidas sobre elas, alguns instrumentos e peças maquiavélicas, em que o rei pegava uma por uma explicando a sua função no reinado e na Ombala.

 

- Depois da entronização a primeira coisa que se faz é o Jango. O Jango para nós é um local importante. Eu lá no Palácio tenho quatro Jangos. Um para reunir a corte, outro para receber visitas, outro para estar com a família, outro onde a rainha recebe as suas visitas.

 

O Jango é o centro espiritual da casa e da Ombala. Onde se toma decisões importantes, onde se invoca aos antepassados, e onde se realizam cerimónias solenes, como casamentos, óbitos e julgamentos.

 

Cada casa tem um Jango para além de um Jango comunitário, qualquer um deles poderá ser construído com alicerces de bordão e toldo de capim ou simplesmente uma sombra debaixo de uma Mulembeira, árvore pujante, milenar, é um símbolo da realeza, ou se for na zona Kimbunda, debaixo de uma Tambarineiro também chamado Mutamba.

 

Continuou o Rei: - As pessoas incomodavam tanto, então ele veio cá baixo.

 

O Rei em função não estava a ser aceite pelas forças do além, e o sinal, era não estar a chover.

 

Depois o rei exibe um instrumento de ferro pontiagudo que é usado para contar a História que vai contar a seguir.

 

- Quando o Presidente dos Santos esteve aqui, foram até à montanha, e abateram uma cabeça, em honra do Presidente. E a cabeça morreu como se fosse uma coisa pequena. Mas quando o Savimbi esteve aqui, apanhou-se uma cabeça, apertou-se com uma corda, mas a corda rebentou e a cabeça meteu-se em fuga. Tendo sido apanhada mais tarde. Este foi o sinal de que o Savimbi não iria ser aceite para entrar na montanha.

 

Toda a vida dos autóctones e das comunidades mais tradicionais, é comandada por um chefe da montanha, que é um ser sub-natural, que envia para um outro chefe terreno, bons ou maus sinais através das forças da natureza.

- Na entronização do Rei, mata-se uma pessoa. Na entronização do rei Katyavala, o fundador do Reino do Mbalundu, matou-se uma pessoa. Mandou-se cortar a cabeça de alguém, mas agora já não se usa isso, mata-se sim uma cabeça, mas de gado. Nós ensinamos aos Jovens, que agora já não se mata. É bíblico, quem mata cabeça de gado também é capaz de matar uma pessoa. Não há diferença.

E mostrou o chifre da cabeça de gado que foi morta.

Notei no discurso que a comunidade tem crença no catolicismo cristão ao mesmo tempo que acreditam no além místico tradicional africano.

Depois exibe a espada.

- Esta espada representa o poder, é afiada em dois cumes. O Rei é que a usa, ele tem de estar dentro do crime. Quem deu esta espada ao Rei Ekwikwi foram os portugueses.

- O Rei se é um seu familiar, e você cometeu um crime, ele te corta mesmo. A espada corta qualquer um.

Exibe outros instrumentos:
- Aqui são as primeiras armas que ajudaram na caça, zagaia e flexa. O Rei Ekwikwi não aceitou a entrada dos portugueses, e trocaram agricultura por armas. Os portugueses tinham Kanhangulos.

- Até hoje a trincheira do rei Ekwikwi II, está na Missão de Tchingunge, foi lá onde ele combateu contra os portugueses.

- Isto é um Mouse Kanhangulo.

- Isto é um crânio de hipopótamo, ongeve (em Kimbundo), é um símbolo. Quando o rei mata cabeça de gado, tem de ficar um símbolo na Ombala.

 Vamos à nossa cadeia:
- A nossa Cadeia é esta. Quando alguém leva um caso ao Rei, o secretário passa uma notificação pedindo a comparência no dia X, e se esse negar, a 1ª vez, a 2ª vez, à 3ª vez o rei manda os seus sipaios e vão-lhe buscar. Assim que ele chega nesta Ombala, é colocado aqui na Cadeia, de manhã cedo, às 5 horas, antes do nascer do sol, e ele não vai conseguir sair. Até que a família chega.

A Cadeia, o Estabelecimento Prisional, é um oito em madeira resistente, em que se enfiam os pés do preso nas argolas fechando o instrumento com uma barra de madeira, o que faz com que a pessoa não possa mexer as pernas, sendo obrigado a ficar deitado ou sentado.

- Enquanto isto o preso leva umas chicotadas com este chicote. Mas hoje já não batemos.

O chicote é constituído por dois rabos de elefante em que um se chama Chicoteso e o outro Jamba.

- Mas experimenta ainda bater. Diz alguém da audiência.

E o rei começa a dar umas chicotadas ao suporto preso. Enquanto isso da audiência começam a gritar: - Não bate, não bate.

Enquanto um dos autóctones diz:  - deixa bater, vão-lhe pagar.

E o desgraçado do homem, que preso apanhou umas chicotadas. Ficando estático no chão.

Já na hora de irmos para o banquete, o rei exibe uma Kinda de mateba e explica:
- O colono português só melhorou, os nossos antepassados já comiam em pratos que eram esses balaios.

 

Entre palmas e vénias despedimo-nos.

 

Twapandula

 

Luanda, abril de 2016

 

 

Sandra Poulson é natural de Luanda onde nasceu, a 3 de Julho de 1962.
Fez o ensino primário em Luanda, no Colégio João XXIII.
Fez o ensino Secundário em Lisboa, onde viveu.
Foi locutora da Radio Nacional de Angola.
É Advogada de profissão, com escritório em Luanda.
É autora de artigos e crónicas de viagem que publica no “Cultura, Jornal Angolano de Artes e Letras”.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2018


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Foto de capa:

CANDIDO PORTINARI, 'Painel Tiradentes: detalhe 3: execução de Tiradentes', 1948.


Paginação:

Nuno Baptista


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