ANO 5 Edição 74 - Novembro 2018 INÍCIO contactos

Carlos Matos Gomes


A Itália populista e a ópera bufa

Colocando os fatos nos seus cabides. Há mais ou menos 80 anos, a Inglaterra conservadora produziu um Churchill. A Itália populista produziu um Mussolini. A Inglaterra hoje anti União Europeia combateu pela democracia na Europa. A Itália hoje anti-europeia aliou-se aos nazis para destruir os valores liberais europeus. Hoje, a Inglaterra anti união europeia organizou um referendo para decidir a saída, o Brexit. Hoje a Itália neofascista e populista faz uma rábula provocatória de apresentar um orçamento inaceitável segundo as regras da União de que foi fundadora, porque se recusa a assumir a responsabilidade de enfrentar democraticamente os cidadãos italianos.

 

Hoje a Inglaterra enfrenta no seu parlamento as crises e dificuldades resultantes das suas decisões. A Itália dos neofascistas do Norte e dos populistas do Sul descarrega as suas responsabilidades em Bruxelas.

 

A súmula de diferenças não é um hino de louvor à Inglaterra, que manteve desde sempre as suas distâncias ao Continente que designam Europa e que consideram ser o Canal da Mancha, para eles, simplesmente, The Channel, demasiado estreito para o seu gosto. Mas é uma enunciação de diferença de comportamentos. Prefiro um arrogante responsável pelas suas decisões a um irresponsável vendedor de banha da cobra que procura sacudir a água fo capote.

 

Em claro, a apresentação do orçamento italiano em Bruxelas com gritantes e deliberadas violações de regras e compromissos é apenas uma rábula provocatória de um governo canalha e trapaceiro sem coragem para colocar aos italianos a questão que esconde por detrás da manobra: os italianos querem continuar na UE ou querem assumir os riscos e os custos de uma saída, de um Ciao? 

 

O orçamento do governo neofascista e populista é uma peça de uma manobra do croupier americano Steve Bannon para desmembrar a União Europeia e a eliminar como um ator de algum relevo na luta pelo poder mundial que os Estados Unidos travam com a Rússia e a China.

 

O neofascista Mateo Salvini (Liga do Norte) e o populista Luigi di Magio (5Estrelas) são marionetas de Steve Bannon, o agitador mercenário ao serviço da oligarquia financeira americana e do complexo militar industrial.

 

O orçamento apresentado pelo governo italiano não é uma peça de contabilidade, nem pretende servir os interesses dos italianos, é um insulto lançado com a intenção de experimentar as defesas do adversário. É uma sonda. É uma negaça para provocar uma reacção.

 

A questão do orçamento italiano não é a de acrescentar umas décimas ao défice, não é a da folha de Excel, a questão é a de, como consta da anedota dos italianos a quem os pais, ao nascerem, metem o dedo no traseiro para perceberem se vai ser cantor ou viver de expedientes, de este governo vir executar essa manobra com a Comissão Europeia, para ver se ela reage, ou se aceita, se ela canta ou se escoiceia. 

 

Dito isto, Salvini e Magio são apenas rebenta minas às ordens do Steve Bannon. Fazem figura de sendeiros e é assim, como sendeiros, que os outros estados europeus os devem tratar.

 

Não haverá ciao Itália. O populismo assenta sempre na fuga às questões essenciais, na mentira e na apresentação de bode expiatório. Este governo italiano sabe que a violação dos tratados que a Itália assinou e de que em boa parte é autora desde o Tratado de Roma, não serve os interesses dos italianos. Por cobardes, estes governantes italianos nunca irão colocar aos italianos a questão da saída da União Europeia, como fez o governo inglês. E não o farão, não porque, como qualquer europeu, não tenham críticas ao funcionamento da União, mas porque nada têm a propor como alternativa. Pretendem apenas que a União, os outros estados, paguem as suas políticas populistas para se manterem no poder.

 

A demagogia da apresentação do orçamento de faz de conta da Itália surge logo no texto justificativo ao nível da semântica. Ao contrário do que afirma o comunicado do governo italiano, não se trata de um confronto “dos italianos contra Bruxelas”. Trata-se da recusa de um governo em cumprir as regras da União política e económica a que a Itália voluntariamente pertence e que ajudou a fundar no pós-segunda guerra para a Europa se reconstruir dos desastres do fascismo e do populismo.

 

Se o entendimento do governo populista italiano é o de que cada estado europeu trata de si, e entende que tratando apenas de si se "safa" melhor, o que está a Itália desse governo a fazer numa União política e económica? Porque não pergunta aos italianos se querem seguir sozinhos ou na União? A apressada visita do primeiro-ministro italiano a um beija-mão a Putin é uma manobra de rasca de chantagem à União Europeia.

 

A Itália não é a Inglaterra. Em Inglaterra o governo conservador teve a coragem e a decência democrática de colocar aos ingleses a questão da saída da União. E a Inglaterra não era, como a Itália, signatária do Tratado de Roma, na realidade o nome dado a dois tratados, o constitutivo da Comunidade Económica Europeia (CEE) e o da Comunidade Europeia da Energia Atômica (Euratom), como o culminar de um processo de recuperação da Europa destruída pela Segunda Guerra Mundial desencadeada pala Alemanha nazi, a que a Itália fascista se aliou entusiasticamente. A Inglaterra não tinha desencadeado uma guerra na Europa e também tinha menos responsabilidades históricas no surgimento de uma União Europeia.

 

A afirmação do governo neofascista de Itália de incumprimento do seu orçamento é uma triste exibição da ausência de memória histórica dos seus membros, da falta do sentido da honra (mesmo em termos mafiosos de honrar a palavra), de cobardia, associada à demagogia, mas é acima de tudo uma bravata inconsequente e uma confissão de subserviência à estratégia da oligarquia dos Estados Unidos.

 

Tal como Bolsonaro no Brasil, a dupla Salvini e di Maio não conduz uma politica de nacionalistas, mas de  valletto di camera, de cameriere.

 

Esta ausência de princípios dos membros do governo neofascista e populista é mais grave para a convivência entre europeus do que a percentagem do défice. O défice do governo italiano é principalmente de valores morais e não de valores percentuais. Foi esse défice de moral que permitiu a eleição deles, mas não os exime de serem confrontados com ele. Uma eleição não altera a “qualidade”, nem o “carácter” dos eleitos, nem justifica o seu poder arbitrário.

 

Os neofascistas e os populistas do governo italiano fazem bluff , mas devem ser tomados a sério, porque são venenosos. Eles jogam com os instintos do seu povo, como fazem Bolsonaro ou Trump.

Não haverá uma saída à italiana, nem arrivederci nem ciao enquanto eles, os populistas, não entenderem que é mole e sem riscos o terreno que trilham. Para já estamos perante uma opera buffa, um divertimento giocoso, uma cena napolitana, mais ou menos canalha. Uma comédia sem arte.

 

 

Carlos Matos Gomes

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2018


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