ANO 5 Edição 73 - Outubro 2018 INÍCIO contactos

Cinthia Kriemler


Trecho do Romance “Todos os abismos convidam para um mergulho”, de Cinthia Kriemler (Editora Patuá, 2017).

“Um brinquedo sem uso, uma janela sempre fechada, uma criança que não sorri. Coisas que destoam. Gritos feitos só para ouvidos atentos. Você e seus gestos assustados, Laura. Você que não queria brincar. Você que não saía do quarto. E eu que não estava lá. Que não via nada demais. Que não ouvia as ausências. Que não via os olhos foscos de quem nunca vibra. Ocupada com mulheres e crianças que precisavam de mim, da minha ajuda. Envolvida com mães que apanhavam, pais que batiam, meninas e meninos queimados com pontas de cigarro, arroxeadas pelos socos bêbados e furiosos de quem deveria protegê-los. Eu, sufocada pelos corpos sem vida que dançavam nos meus sonhos inquietos. Choros, choros, choros. Sempre dos outros. Brinquedos, comida, escola, roupas, médicos. Isso era seu. E também eram o meu cansaço, a minha irritação, a minha impaciência. E a minha incapacidade de enxergar as coisas mais próximas. Eu enxergava os que estavam lá fora. Os que não tinham nada. Meninos e meninas que não sorriam. Que não brincavam. Que não comiam. Que não iam ao médico. Que se escondiam de pais e tios e padrastos atrás de portas trancadas, embaixo de camas. Rezando ao deus do não. Sem saber como pedir ajuda. Mas você não era a menina pobre de comunidade. Não era a filha de um lar abusivo. Ou era?


Solidão, doença, medo, desencanto. Em que trincheira você ficou para trás, Laura? Tão pequena, tão frágil. Não, não é verdade. Fácil demais. Cômodo demais. Covarde demais reduzir você a uma criança frágil. Você não era. Você lutou. Mas enquanto os monstros desconhecidos invadiam a sua cabeça, eu estava de costas, me preocupando com gentes estranhas.


Cinco anos. Era só o que você tinha. E uma insônia incomum. Uma incapacidade de se juntar a outras crianças. Uma irritabilidade sem motivo aparente. Um choro descontrolado e soluçado a cada vez que eu ou seu pai saíamos para trabalhar. Uma seriedade incomum. E eu achando que era só tristeza. Por causa da morte da Pipoca. Eu me lembro de ter lhe dito que os cães morrem com 12 ou 13 anos. Que morrem de velhice. E não atropelados com apenas sete anos. Mas Pipoca puxou a guia com força da sua mão e escapou para correr atrás de outro cachorro. Você ouviu tudo, a freada, a agonia, os gemidos. Viu o sangue escorrendo no asfalto e os olhos que procuraram pelos seus até o último segundo, com essa capacidade estranha dos bichos de amar até o fim. Mas você não chorou. E as crianças choram. Foi depois disso que as coisas mudaram. Você passou a se preocupar com a morte e a me perguntar se o seu pai e eu também iríamos morrer de repente. A nos acordar no meio da noite para ver se estávamos vivos. A dormir com a luz do abajur acesa. A se sentar na cama, olhos distantes, abraçando a si mesma com seus bracinhos curtos.


Não, eu não levei você ao médico. Não ao médico certo. Não de imediato. Droga! As crianças são impressionáveis. Elas não sabem o que fazer com as tristezas; apavoram-se. Elas sofrem, mas passa. Coisas que Bernardo e eu nos dissemos, e que ouvimos dos amigos. Não passou. E nós não percebemos.


Ninguém presta atenção a uma criança que se envolve em mais acidentes domésticos do que as outras. Esbarrões constantes em portas e quinas de móveis, quedas com cortes, torções, luxações. Acidentes demais. Hospitais demais. Até o dia em que você escuta um médico imbecil dizer que as crianças que se acidentam em excesso podem estar querendo voltar ao hospital porque associaram a dor do machucado ao prazer de serem bem cuidadas. E você tem vontade de gritar: quem lhe disse que eu não cuido da minha filha? Um idiota, um sujeito arrogante testando teorias ridículas em crianças.


Um ano mais tarde, o incidente no banheiro. Você sentada no chuveiro, puxando os próprios cabelos até arrancar tufos. Quando eu segurei as suas mãos, você começou a bater a cabeça contra a parede. Até sangrar. Foram dias de dor de cabeça, vômito, choro, quarto escuro. E você me pedindo: faz isso parar, mamãe.


Houve muitos palpites sobre o que estava acontecendo com você. Todos errados. Timidez, introversão, fingimento, histeria, birra, comportamento antissocial, problema de visão, de audição, dislexia, desinteresse, déficit de atenção. Tentativas demais. O diagnóstico correto só foi dado quando você já estava com doze anos. Depressão. Depressão severa. Eu desabei. Fiz como você: me sentei no chão do quarto, abracei os joelhos, comprimi meu corpo contra a parede, e chorei. A consciência me dizendo Você não presta! Quando me levantei, fui consolar o seu pai. Depois, eu saí. Eu precisava de punição. E de sexo. Peguei o primeiro homem que me encarou e trepei com ele. Ouvi coisas sujas e fui tratada como vadia. Gostei daquilo. E nunca mais parei.


Tantas palavras Bernardo gastou comigo. Você é egoísta. Uma péssima mãe. Uma mulher que não merece respeito. Puta. Piranha.Vagabunda. Ordinária. E tudo o que eu pensava enquanto ouvia a voz dele era no quanto todos nós gostamos de levantar o dedo para alguém.
Se fôssemos capazes de ouvir a nós mesmos em nossas vozes de imperativo, em nossas sentenças severas e acusatórias dirigidas aos que se recusam às nossas vontades, à nossa prepotência. Se conseguíssemos perceber que há outros ecos no desfiladeiro. E que as nossas pragas e vinganças são vômitos que revelam o mau cheiro que escoa de nós mesmos. Se víssemos que junto ao que expelimos pela fúria também estão pedaços importantes de uma decência que um dia fará falta à nossa sanidade. Se pudéssemos nos enxergar, igualmente, bem e mal, fúria e arrependimento. Criaturas de um eterno ir e vir entre o paraíso que nos convoca e as profundezas que nos excitam. Mas não percebemos, nem ouvimos, nem enxergamos nada. Porque preferimos assim. Tudo o que nos interessa é levantar o dedo.


Quando se cansou de gritar, Bernardo me mandou embora. E eu fui.”

 

Cinthia Kriemler é carioca e mora em Brasília. É contista, romancista e poeta. Autora de Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance. Editora Patuá, 2017), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018. Publicou também pela Editora Patuá: Na escuridão não existe cor-de-rosa (Contos. 2015 – semifinalista do Prêmio Oceanos 2016); Sob os escombros (Contos. 2014); Do todo que me cerca (Crônicas, 2012). Organizou a antologia de contos Novena para pecar em paz (Editora Penalux, 2017) e participa de diversas antologias de contos e de poesia. Tem textos e poemas publicados em: Revista Gueto, Revista InComunidade, Revista SAMIZDAT, Jornal ORelevo, Mallarmargens, Germina, Escritoras suicidas, Diversos afins, Revista Philos.

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Paginação:

Nuno Baptista


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