ANO 5 Edição 73 - Outubro 2018 INÍCIO contactos

Eduardo Wotzik


Crônica: Dionisíaca

Outro dia eu fui a um restaurante, resolvi impressionar, pedi um vinho de R$ 84,00. Achei ele muiito bom, delicioso, leve, encorpado, caiu bem demais. Sofisticadíssimo, achei ele o máximo. Também por esse preço! Valeu. O ambiente gostoso. O papo agradável. O coração tranquilo. A cabeça tranqüila. A conversa caiu por um instantinho no vazio, deu-se o silêncio, fiquei sem saber o que fazer com as mãos, resolvi folhear. A carta de vinho. Quem mandou. Lá estava ela. A primeira da lista. Uma garrafa. E seu respectivo preço: R$ 37.000,00. Glup! Meu Deus, como será esse vinho de 37.000 reais que abre a carta. Eu sei, todo mundo sabe, que pagar isso por um vinho é um absurdo, tanta gente precisando, passando fome, blablablablablabla, etcs e tal, mas presta atenção, que não é disso que se trata. Se eu estava achando o de R$ 84 maravilhoso, a que distância eu devo estar desse de 37.000? Quanto será que eu tenho ainda que galgar para perceber que esse que eu estou achando o máximo é um lixo? E que gosto terá? Eu preciso saber. Qual seu sabor? Que paladar sofisticado esse que existe e eu nunca poderei experimentar? Vai ver que é esse o vinho, que coloca o homem em estado de Dionísio, que eleva o homem a condição de semideus, e não esses “sangues-de-boi” que eu ando tomando, e tentando que me leve às alturas, e me frustrando, e me enchendo de dores físicas e morais, ao fim de cada nova tentativa. E não me venham com essa, que o vinho não vale isso, que a disparidade entre 84 e 37.000 é muito grande para que não exista realmente uma diferença. Quem paga por alguma coisa que não vale é a classe média _ rico só paga se vale, e por isso é que ele é rico. Fiquei tonto. O sujeito que pediu esse vinho colocou ele em cima da mesa, me contou o garçom,  e ficou olhando, olhando para ele, olhando, a noite inteira. Depois o levou para casa, - me contou o manobrista, que abriu a porta do carro para o vinho - que seguiu recostado, e com cinto de segurança no banco do carona. A partir daí, não se teve mais noticias de seu paradeiro, mas, presume-se, que ainda esteja por lá, na estante de troféus, ou mesmo deitado num lado da cama, controle na mão, tomando champagne, semi-encoberto por um edredom. Ah, Meu Deus, o que eu faço? Será que nunca saberei? Que não tenho, e acho que nunca terei, trinta e sete mil reais para dar num vinho. Ideia: Pedir ao moço que comprou que nos narre a experiência. Formar uma turma, nos sentar em semicírculo, e procurar desesperadamente saborear cada palavra - repleta de sentido gustativo - que ele proferir. Mas isso é Teatro. E eu não quero Teatro, eu quero é vida. A coisa em si. A experiência da coisa em si. Não adianta. Eu não vou conseguir. Não tem como. Dane-se. Eu não queria mesmo. Eu nem gosto de vinho. Me da azia. Dor de cabeça. Sono. Descobri. Hic! Outra ideia: Descobri, como tomar esse vinho, experimentar seu aroma, degustar seus perfumes. Vou reunir 10 pessoas, que pagarão 3.700 reais, para tomar uma taça. Pronto. Ou 100 pessoas, que pagarão 370, e tomarão um gole? Já sei. Vou começar uma campanha para angariar 1.000 pessoas para pagar R$ 37, e tomar uma gota, que será distribuída por adegas especializadas, num conta gotas devidamente esterilizado, e preparado para receber o líquido. E passarei um ano sem colocar nada na boca para não desfazer o gosto. Não salivarei mais. E acompanharei, o percurso do liquido pelo meu corpo, repetindo silenciosamente o mantra. Ó, gota que deslizante me fez poeta. Gota amada, que por mim passou; Ó, gota amada, que passou por mim e evaporou; Ó, gota amada, que por mim passou, evaporou, e deixou saudade.

 

Eduardo Wotzik , Diretor de Teatro, nasceu no rio de janeiro em 19 de dezembro de 1959. A partir dos anos 90 torna-se um dos mais representativos diretores cariocas de teatro. Iniciou sua carreira como integrante de um dos grupos mais importantes do teatro brasileiro, o grupo tapa, onde durante dez anos (1979-1989) atuou como ator, produtor, coordenador e depois diretor.  Formado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Especialista em tragédia grega, teatro brasileiro, teatro de Nelson Rodrigues, os caminhos da teatralidade, o ator e o texto, processos de criação e direção de um espetáculo. Foi fundador do Grupo Tapa, professor e criador dos cursos de teatro da Casa de Cultura Laura Alvim, consultor do Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro e da Casa de Cultura Laura Alvim.

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2018


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Colaboradores de Outubro de 2018:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Cacildo Marques, Cinthia Kriemler, Comitê Organizador do II Mulherio das Letras na Europa, Danyel Guerra, Eduardo Wotzik, Ema Alba Lobo, Estela Barrenechea ; Rolando Revagliatti, Fabiano Fernandes Garcez, Geovane Monteiro, Gociante Patissa, Guido Viaro, Jandira Zanchi, Jorge Castro Guedes, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Ramon Carlos, Ricardo Ramos Filho, Rita Santana, Rogério A. Tancredo, Ronaldo Cagiano, Silas Correa Leite, Tereza Duzai


Foto de capa:

CANDIDO PORTINARI, 'Painel Tiradentes: detalhe 3: execução de Tiradentes', 1948.


Paginação:

Nuno Baptista


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