ANO 5 Edição 73 - Outubro 2018 INÍCIO contactos

Henrique Dória


Editorial

O mundo está a tornar-se um lugar perigoso. Em sucessivos países, forças que pregam e praticam o contrário do respeito pelos direitos do Homem, conquistados desde há duzentos anos, estão a assumir o poder. Mas o caso do Brasil é um caso trágico exemplar.Com resultados na primeira volta na ordem de 29% para o candidato democrático Fernando Haddad, e 46% para o protofascista Jair Bolsonaro, tudo leva a crer que o Brasil, à semelhança doutros países no mundo, desde o Estados Unidos da América à Polónia, passando pela Áustria e pela Hungria, mas agora de modo muito mais grave, terá um protofascista na Presidência da República.


Como se chegou até aqui?


Em primeiro lugar pelos graves erros das forças democráticas, sobretudo do Partido dos Trabalhadores (PT) que governou o Brasil durante treze anos e não soube enfrentar um processo de destituição da sua honesta Presidente por um bando de ladrões que tomou o poder de assalto.


Na verdade, o PT não soube enfrentar aqueles que são os principais problemas do Brasil, para além das enormes desigualdades que enfrentou com mérito e algum sucesso.
Não soube enfrentar, em primeiro lugar, a corrupção que grassa no poder económico, nas magistraturas e nas forças de segurança e armadas, mantendo a imagem da corrupção na sociedade brasileira como uma normalidade, senão inevitabilidade. Acresce ainda que não conseguiu fazer a autocrítica pela corrupção em que se viu envolvido, distanciando-se de corruptores e corruptos.


Não soube enfrentar a violência que tem tornado o Brasil numa imensa prisão, o que só seria possível pelo combate ao crime através de polícias e serviços de informação devidamente remunerados para enfrentarem a corrupção e, sobretudo, através duma transferência de grande parte da população das imensas favelas para novas pequenas cidades onde fosse possível controlar minimamente o tráfico de droga e o roubo.


Não soube enfrentar os bandos que a coberto da religião se transformaram não só em forças que vivem da extração da riqueza produzida por quem trabalha, mas são, sobretudo, forças manipuladoras das consciências e das vidas dos brasileiros que as conduzem para o obscurantismo e as transformam nos maiores suportes do protofascismo.


Finalmente, não soube modernizar o tecido económico brasileiro enfrentando interesses instalados, nomeadamente criando redes de comunicação, a começar pela ferrovia destruída pela corrupta ditadura militar, controlando a corrupção na Petrobras e modernizando essa grande empresa, e criando uma banca pública capaz de intervir como agente de mercado para impulsionar a modernização da economia brasileira.


A par disso, e já na fase pré-eleitoral e eleitoral cometeu erros gravíssimos que foram as causas próximas da derrota da candidatura democrática de Fernando Haddad contra um opositor ignorante, mentiroso e ostensivamente apoiante dos crimes da ditadura militar. O primeiro deles foi colar a sua candidatura a uma hipotética candidatura de Lula da Silva que, antecipadamente, sabia que os tribunais brasileiros não iriam aceitar, pois bem sabia o que é essa farsa que da justiça brasileira. Algo idêntico sucedeu em relação ao PT: sabendo que o PT é a força que mais extrema as posições na sociedade brasileira (se justa ou injustamente não interessa aqui discutir), colou-se ao PTquando era necessário alargar o centro, empurrando com isso o centro para a direita. Haddad não pode assim fazer impor a sua figura de homem honesto, dialogante e de saber, contra a mentira, a violência e a ignorância do protofascista Bolsonaro.


Finalmente, e já depois da primeira volta, Haddad faz uma campanha mole, apelando ao debate e ao diálogo que a candidatura de Bolsonaro não sabe o que são, em lugar de dramatizar a campanha e o momento como o fez, por exemplo, Mário Soares contra Freitas do Amaral nas presidenciais portuguesas de 1985, dramatização essa que conduziu à vitória de Soares.


HENRIQUE DÓRIA

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2018


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Paginação:

Nuno Baptista


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