ANO 5 Edição 73 - Outubro 2018 INÍCIO contactos

Ema Alba Lobo


Cinco peles :dez poemas

01

 

O uivo que solto
é só o vento
de noites futuras
a passar alto
nos pulmões.
Como quem rasga
o azul profundo
para manter-se à tona
da sismografia do amor.

 

O indizível apruma
o horizonte
no teu olhar. Canção
por onde te canto
sem ar. Mas
de coração corado
ao sol e de insónias.
Música em que mergulho
para respirar
e apagar do corpo
as ruas pressentidas
de silêncio, pedras e pássaros.

 

Com os pés descalços
e as mãos caladas
deixo a lua
sangrar o caminho
de luz e de distância.

 

 

 

 

 

 

02


Tudo é eco.
Uma quase certeza
por entre a matéria
e a madrugada lenta da vontade.
Tu és o dia
em que acredito
no movimento migratório
dos milagres.

 

Na pronúncia dos deuses
amo cada estação do ano
que por dentro guardaste
no canto da minha senda.
Enquanto o tempo se penteia
de sol e de chuva,
vou aprimorando o caminho
antes que o raiar das searas
e da multidão
derrote os passos
[que me antecedem viajante]
no desejo de destino
de pão
de apóstrofos.

 

Os meus pés
são filhos do vento.
sei o pranto vertical
das sombras amarelas
do outono.
O meu primeiro voo
desabrigou-se
nos anjos vertebrados
de dezembro.

 

Só quero chegar.
Bastar-me
na matriz das marés,
lavar o rosto
num cântaro de luz.
E deitar-me
ao longo da primavera.

 

 

 

 

 

 

03


Talvez tenha nascido
do lado errado
das palavras.
Samurai desdito
às avessas
da solidão arada
com faca sagrada
de promessas e páginas.

 

Estou sempre atrasada,
a encher o cantil,
antes de revoar
na garupa das andorinhas
no chilrear dos asteroides
que sempre me esperam
e me reclamam para si
neste corpo que frequento
beiral onde tempero
as feridas da fome
na súplica viés
do pão
que sustenta
o desvirar das letras
nas mãos lavadas
para a escrita.

 

 

 

 

 

 

04


Mãe de todas as vozes
Mãe do silêncio
não me dês a estrada pronta.
Segura só o meu rosto
para que veja no horizonte
a tempestade que carrego
sobre os ombros como luzerna.
Beija só os meus olhos
para que se solte toda a água
que me deste de herança
como um par de sapatos grandes
cheio de verbos calçados
por onde vou
caminhando e olhando
para novos pastos e regatos.

 

 

 

 

 

 

05


Dentro de um círculo
sincronizo todos os fantasmas
que escaparam
pela entremanhã
que contorna o escapulário
do meu peito em pousio.
A gravidade da luz
afluiu para os seus olhos,
mariposas mareantes
que perpetuam a lavra de astros
e de estranheza
com que corro à sua volta
e danço a fera que uiva
na ponta do lápis.
Onde começa
a minha solidão.

 

 

 

 

 

 

06


As mãos em concha
sossegadas
sobre os olhos.
Vejo-te
para lá do ardor da luz oiço
a barbatana lenta de cada palavra
em mim.
Sigo-te para fora de pé, onde posso
caminhar sem eco
humano nos passos, nadar
sem fechar os versos, deixá-los
de boca e pernas e braços abertos.
Toda eu descoberta e estiada
sobre mim
como se a vastidão celeste deste azul
mergulhasse uma fábula
marinha de mim mesma.
Sustenho o ar
indivisível como a água. Estremeço respiro
com o coração: espiráculo
sôfrego que canta a alta profundidade.
Aqui onde a claridade se estreita
e poisa o sal
de todas as memórias
inventas-me no teu olhar.
Baleia de olhos elípticos
O teu olhar oferecendo o centro
da criação. O interior das palavras, a orla
do mundo.

 

Vejo os anéis altos da tua voz
rompendo a água em flores.
Aprofundando a superfície
do tempo e das estações
indivisíveis como a água.
Como as sombras pálidas
de inverno e a copiosa nudez
do verão. O oceano
temperado no teu movimento.
Os pulmões elevam-se sobre a dança
onde me acho em ti.
Na mesma pele tua
em que me procuro e me encontro.
As mãos em concha
Sossegadas
sobre o peito.
Sinto-te na prata a galope
do meu dorso sobre o teu.
A alegoria das crinas
na velocidade das ondas
debruçadas nas nuvens alheias
e nos cabelos voadores
de um sonho.

 

Conto os dias pelas rugas
da luz sobre a água. Trago a pele molhada
de esperar-te
nas brânquias abertas
deste poema.

 

 

 

 

 

 

07


Como o fumo
decantado pela luz
do sol
despojo-me no ar
em voz alta.

 

Trago-te junto ao peito
e seguro o teu olhar na minha mão
pequeno lugar seguro
entre o pulsar
das explosões
e do meu coração
para que não vejas
o horror
que trago dentro de mim.
Do alto da cegueira
não se vê a cor dos teus olhos
nem tão pouco o vermelho vivo
que todos deveríamos sangrar
 no deserto de silêncios
que consagram
o eclipse da humanidade.

 

Aos pés da guerra
elevam-se ainda
as borboletas
do teu vestido
e da tua infância.
Esperando que a primavera
abra flores nas ruínas
de todos os que deus deserdou.

 

Um pranto surdo
não basta distante
para pronunciar a vida
no âmago
e no firmamento
de uma criança.

 

Grito. Uma desconcertante canção.
Acima dos disparos
e do silvar das horas
que derramam poeira
sobre uma idade criminosamente arada.
Grito. Com o músculo da voz
em vela e vento.
Poisando sobre a tua boneca
um beijo. Para que repouses
uma esperança
na aflição dos teus lábios
que chamam fechados
por todos nós.

 

 

 

 

 

 

08


Os pombos revoam à janela
quando o poema doado
entre os lábios de mulher
embriaga os anjos
e todo o corpo bate asas.
Sento os meus pecados sobre os livros.
Abro as pernas para pensar.
O coração lê
desconcertante e ávido
o amor e a morte
entre restos de trigo e alegrias mendigas.
Mas há o silêncio
que branco se espalha
como farinha pelo corpo
como se eu fosse a hóstia de deus.
Levo à boca
o brilho reluzente
de cada golo de solidão
com que atravesso o vidro
e o vinho dos dias.
Molho a voz
para que me dispa bem alto
as vestes de uma fé despojada
e profira uma última cintilação
esparsa no olhar que se fecha
em asceta libertação.
Escorada na metafísica dos teus braços.

 

Ah! Minha Dinamene!
As Mulheres nunca morrem sozinhas!

 

 

 

 

 

 

09


Tenho dois olhos
E duas de mim na tua voz dissonante.
Na álea interior dos ecos
consinto-me a Apolo e Dionísio sem margens.
Por entre tudo e nada
na invencível vontade de dar as mãos ao mundo
eu pertenço-me. Mergulho.
No labirinto do inabitável infinito
reúno o que indago
abrevio os deuses no lastro de uma promissão.
O corpo diz o que não pode ser dito.
A dança, mitografia da minha aparição absoluta.

 

 

 

 

 

 

10


Sou impura.
Mista e mestiça na terra incerta
e póstuma
das laborações dos elementos.

 

Bato com os pés no chão
inquieto o peso da poeira
que renuncia a estrada.

 

Estou como o som da sombra
de um aceno
a quem negam a janela
que repete o amanhecer.
Mas basta-me a luz
de um copo de água para ser
no instante em que sou
chamada a ser.

 

Não acordem a eternidade
que entrançou o pêlo
das horas feitas deste animal
prometido ao fundo de mim.
Deixem-na dormir. Na mansidão
das delicadas labaredas
de convalescentes memórias.

 

Na ombreira da noite
Giro sobre mim própria
lentamente,
nas sílabas sagradas
da dança nos dedos
que soletram os arquétipos
do rio que me abre a porta.

 

Adivinha-me o amor,
única matéria pura
ave fundente
que me transcreve
ousa e chama.

 

Toca o meu corpo
como se fosse música escarpada
nas frestas da perfeição.
Até que seja o refúgio
de um contorno de deus.

 

Ema Alba Lobo, nasceu em Lisboa e vive em Azeitão, entre o mar e a serra. É Animadora Sociocultural e Dança Movimento Terapeuta. É pelo Corpo e pela Poesia que vai tecendo a sua vida. Alma mater do espaço Terra.Corpo, desenvolve projectos de intervenção comunitária de Educação e Terapia pela Arte e é Professora na Escola Superior de Educação de Setúbal. Em Maio (2018) publicou o seu primeiro livro de poesia MAR DE MIM.

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2018


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Colaboradores de Outubro de 2018:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Cacildo Marques, Cinthia Kriemler, Comitê Organizador do II Mulherio das Letras na Europa, Danyel Guerra, Eduardo Wotzik, Ema Alba Lobo, Estela Barrenechea ; Rolando Revagliatti, Fabiano Fernandes Garcez, Geovane Monteiro, Gociante Patissa, Guido Viaro, Jandira Zanchi, Jorge Castro Guedes, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Ramon Carlos, Ricardo Ramos Filho, Rita Santana, Rogério A. Tancredo, Ronaldo Cagiano, Silas Correa Leite, Tereza Duzai


Foto de capa:

CANDIDO PORTINARI, 'Painel Tiradentes: detalhe 3: execução de Tiradentes', 1948.


Paginação:

Nuno Baptista


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