ANO 5 Edição 73 - Outubro 2018 INÍCIO contactos

Fabiano Fernandes Garcez


Poemas

ALMOÇO DE DOMINGO

 

Quando jovem a rotina
de minha família
me agredia

 

Todos acordados, a correria
o entra e sai para o chuveiro
o café com leite e as bolachas
pão era raro, era longe o padeiro

 

À noite cada um em um horário
Chegava, comia, se banhava e dormia
A gente mal se via

 

Nos finais de semana, minha mãe
reclamava, as crianças gritando e
o tempo roto se arrastando

 

O auge era o almoço no domingo
Um ritual que tínhamos que venerar
Todos à mesa, macarrão, frango e
refrigerante, que fosse o que fosse
minha mãe chamava de guaraná

 

Cansado fugi pra ver mundos
destruir vidas, enlouquecer
até que me arrependi

 

Hoje estou de volta,
os rostos envelheceram,
as vozes ficaram mais graves
Mas no domingo, ainda há
macarrão, frango e guaraná

 

 

 

 

 

 

SE JESUS VOLTASSE HOJE

 

Quem acreditaria
se Jesus voltasse hoje?
Mas, se ele voltasse
seria brasileiro

 

Nasceria na periferia
de São Paulo
Seria negro?
Cantaria RAP?

 

Sobreviveria a
Mortalidade infantil?
Exclusão social?
E a violência sobreviveria?

 

Se Jesus voltasse hoje
nasceria no sertão da Paraíba
ou Pernambuco
Teria voz grave e rouca
para falar à multidão
e cantar repente

 

Sobreviveria à seca?
                   à fome?
Sobreviveria ao racismo?
 
Se Jesus voltasse,
hoje no Brasil
dormiria nas ruas?
Comeria de favor?

 

Chamaria Jesus?
Genésio, Gésio
Ou Mané, José, João
Benedito, Romão?
Precisaria ele de nome?

 

Seria católico?
        evangélico?
Seria caótico?
Seria cristão?        
         Espírita?
Novamente judeu?
Seria Jesus ateu?

 

Acreditaria nele os Deuses?
                  Nessas religiões?
Seus seguidores?
Seus patrocinadores acreditariam?

 

Ou prefeririam acreditar
naquele de barro, louça
gesso ou madeira
que fala pela boca dos outros

 

Se Jesus voltasse hoje,
falaria o que já falou?
Se é que falou...

 

Saberia Jesus escrever?
Seria um teólogo?
Para saber sobre as religiões?
Agora dessa vez, caso
voltasse,  desrespeitaria as regras
como já fez?

 

Se Jesus voltasse
quem acreditaria?
O Diabo?
O tentaria?
E Deus?
Acreditaria ou o abandonaria?

 

Se Jesus voltasse hoje
ganharia dinheiro?
Investiria?
Agradeceria suas vitórias?
Ou reclamaria suas derrotas
a um Jesus mais antigo!

 

Se Jesus voltasse
compraria crucifixos?
Pagaria dízimos?
Casaria? Na igreja?

 

Se Jesus voltasse
nasceria brasileiro
Você acreditaria?
Ou o condenaria?
Será que já não nasceu?


 

 

 

 

 

EU NÃO SOU EU

 

Eu não sou eu, sou outro
E outro que não o outro, que não eu
Eu sou outro e outro e
                    outros tantos e eu

 

Se sou eu que é outro
                   o eu que sou também não sou eu
Com tantos eu, outro e outros eus,
         como posso olhar algo e dizer: isso é meu?

 

Como pode ser meu,
se o eu que sou não sou eu?
Quando eu digo meu,
o eu pode estar se referindo ao meu que é do outro
o outro que não sou eu,
então, esse algo é seu!

 

Mas se sou eu e outro
                   o outro também sou eu
Aquilo que é seu é meu!

 

Eu Fabiano, Fernando, Carlos
         que diferença faz, se todos os outros sou eu

 

Eu sou o outro e os outros
         sem deixar de ser eu
      sou eu e sou outro
         e os outros sou eu

 

Mas os outros que não o outro,
que não os outros outros
que não eu, também sou eu?


 

 

 

 

 

NOVA CANTIGA

 

Hoje não tem festa
no jardim

 

O Cravo brigou
com a Rosa

 

Tingiu de sangue
todo o capim

 

Veio repórter
do rádio e da TV

 

O Cravo fugiu
A Rosa perdeu o bebê

 

 

 

 

 

 

MARIA LUZIA

 

Maria Luzia
se cobre com
o céu

 

Maria luzia
agora não mais

 

Sua dor
já sem luz
ainda sorri


 

 

 

 

 

 

 

LOBISOMEM

 

Minha mãe fez uma história
sobre Lobisomem

De noite
             ele veio me visitar
Fui para o meio de minha mãe
e meu pai

que disse
que era bobagem,
que lobisomem nunca houve,
e eu era medroso

A mãe insistiu:
“Fique aqui”

Dormimos bem
Dormimos família
Dormi passarinho

Daí em diante
Lobisomem sempre
apareceu pra mim


 

 

 

 

 

ESCOLA


Na sala de aula:

            preposição,
            artigo,
            substantivo
            e locução adjetiva

Quarenta alunos atentos
Um só dorme

 

mas é o único que sonha!


 

 

 

 

 

ANJOS


Olhe para cima
Veja os anjos
Eles não me conhecem
Mas sei tudo a seu respeito
Seguem bem vestidos em suas roupas
Para nossos braços, caso queiramos
competir com o impossível
Tira-nos o dom pensante se perdemos a fé
Olhe os anjos
Contemple!
Mas de longe
Nunca olhe dentro de seus olhos
Pois que não apreciam
E cegam quem os encaram
Porque seus olhos são frios, nada dizem
Anjos, não são bons, nem maus,
Anjos apenas são
E não ligam para nós
Porém são admiráveis
e nos fazem esquecer de nossa dor

 

 

 

 

Fabiano Fernandes Garcez nasceu em 3 de abril de 1976, na cidade de São Paulo. Formou-se em Letras, é professor de língua portuguesa. É autor dos livros Poesia se é que há (2008), Diálogos que ainda restam (2010), Rastros para um testamento (2012) e Em meio ao ruídos urbanos(2016), finalista do Prêmio Guarulhos de Literatura 2017. Faz parte do grupo idealizador do Tragos e Papos, discussões literárias na Livraria Nobel (Guarulhos) e produtor do programa Sala de Leitura no YouTube.

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2018


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Colaboradores de Outubro de 2018:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Cacildo Marques, Cinthia Kriemler, Comitê Organizador do II Mulherio das Letras na Europa, Danyel Guerra, Eduardo Wotzik, Ema Alba Lobo, Estela Barrenechea ; Rolando Revagliatti, Fabiano Fernandes Garcez, Geovane Monteiro, Gociante Patissa, Guido Viaro, Jandira Zanchi, Jorge Castro Guedes, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Ramon Carlos, Ricardo Ramos Filho, Rita Santana, Rogério A. Tancredo, Ronaldo Cagiano, Silas Correa Leite, Tereza Duzai


Foto de capa:

CANDIDO PORTINARI, 'Painel Tiradentes: detalhe 3: execução de Tiradentes', 1948.


Paginação:

Nuno Baptista


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