ANO 5 Edição 73 - Outubro 2018 INÍCIO contactos

Cacildo Marques


A democracia e o paradigma das portas corta-fogo

         Temos visto inícios de incêndios em edifícios modernos sem nenhuma consequência grave, além da perda de alguns itens, um ou outro móvel, um ou outro pacote de mercadorias e papéis. A razão é o mecanismo das portas corta-fogo, que impedem que o fogo que surja em algum compartimento alastre-se para outros pontos do prédio. Este recurso deveria servir como paradigma nas mais diversas áreas de atuação do ser humano.

 

         As edificações antigas, sem a adaptação das portas corta-fogo, estão em constante risco de entrar em combustão.

 

         Estarrecidos, vimos no dia 2 de setembro de 2018, domingo, às 19h30, hora de Brasília, o início do incêndio que destruiu 90% do acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, poucas semanas depois da comemoração de seu bicentenário. Os bombeiros tentaram evitar danos maiores, mas não havia água nos hidrantes, mesmo estando o prédio a algumas centenas de metros do mar. Equipes de Funcionários e pesquisadores arriscaram suas vidas para resgatar da fúria das chamas algumas peças valiosas do museu, dedicado às ciências naturais e à antropologia.

 

         O Museu foi fundado no dia 6 de junho de 1818 por Dom João VI, rei de Portugal, Brasil e Algarves, em prédio situado no Campo de Santana, centro da cidade do Rio de Janeiro. Como os visitantes impressionavam-se com os muitos pássaros empalhados expostos lá, o museu passou a ser conhecido como "Casa dos Pássaros". Depois da Proclamação da República no Brasil, em 1889, a residência que fora de Dom João VI, depois do filho Pedro I (Pedro IV de Portugal) e do neto Pedro II, o Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, uma área ajardinada de 155 mil hectares, passou a abrigar o acervo do museu, o que se deu em 1892. Em 1942 o órgão ficou sob os cuidados da Universidade do Brasil, que hoje se chama Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

 

         O dolorido incêndio poderia ter sido muito minimizado se o paradigma das portas corta-fogo estivesse disseminado na sociedade. Não seria necessário instalar as portas físicas no edifício. Se o paradigma estivesse incorporado nas mentalidades, de autoridades e populares, os hidrantes não estariam secos, por exemplo.

 

         As portas corta-fogo precisam de espaços livres. Entre uma sala e outra, deve haver um vão, uma sala de passagem, vazia, com duas portas de aço. Se a edificação é antiga e está com os aposentos ocupados, reluta-se em alterar o arranjo físico, adiando-se, ou mesmo descartando-se, o investimento que deve ser feito. Se o administrador não abraça essa causa, é difícil esperar que venha a cultivar o "paradigma".

 

         Abstraindo o lado físico do esquema, aplicamos o paradigma das portas corta-fogo para preservar e proteger qualquer conquista valiosa que esteja sob nossa responsabilidade, como cidadãos ou como agentes públicos. A ideia é instalar processos ou barreiras que impeçam que os incêndios, ou ataques, naturais ou provocados, venham a propagar-se.

 

         Precisamos cultivar o preceito não apenas para cuidar do patrimônio material, mas também do imaterial. Antes que venha um maremoto e destrua as páginas em que vínhamos registrando nossos poemas, é prudente que os digitalizemos e os armazenemos "em nuvem". Antes que o assaltante nos tome a carteira e nos roube todo o dinheiro e nossos cartões de crédito, convém separar algumas cédulas no bolso da camisa para oferecer-lhe, avisando que é tudo o que temos (se ele se der por satisfeito, o dia está ganho).

 

         Pensando em escala mais ampla, temos de lutar para preservar as conquistas científicas, artísticas, econômicas e políticas com que a história já nos brindou. Quais são as portas corta-fogo da democracia, por exemplo? Algumas já estão em nossas constituições, mas elas são ainda frágeis. Para ser chefe de Estado, não se pode ser jovem demais, nem analfabeto, nem estrangeiro. Esta última barreira é para evitar um novo Hitler, mas ele pode ser um compatriota. Assim, é necessário que um militar de baixa patente, ou alguém que tenha sido condenado por tentativa de golpe de Estado ("putsch"), seja legalmente impedido de alcançar o posto de comandante em chefe. Não há nada de antidemocrático nessas precauções se está resguardado o princípio que veda a discriminação por etnia, gênero, compleição física, religião ou província.

 

         E quais serão as portas corta-fogo do pleno emprego, quando ele vier? John Maynard Keynes, que o propôs, viu-o nos Estados Unidos em 1944, dois anos antes de morrer. Não havia proteção e a conquista se evaporou, vítima, principalmente, de maledicência (o pleno emprego não veio por "esforço de guerra", como disseram, mas por política, pois emprego, na teoria keynesiana, é uma política - e podemos deduzir que o desemprego é uma má política). A primeira porta Keynes apresentou: o investimento. A segunda, temos de trazer à tona agora: isolamento e desautorização dos sabotadores que chamam de "intervenção" a política de investimentos pró-emprego. E já podemos visualizar também a terceira porta: a sustentação da obsolescência da taxa "natural" de desemprego, pois o Banco Central Europeu provou, ao longo da crise de 2010-2014, que a estabilidade monetária é uma política. São más políticas tanto o desemprego quanto a inflação.

             

        

Cacildo Marques - São Paulo.

 

 

Cacildo Marques é administrador, poeta, ensaísta, editor do periódico mensal “Gazeta Cidadã”

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