ANO 5 Edição 72 - Setembro 2018 INÍCIO contactos

Chris Herrmann


O romance da menina-borboleta que lia poesia

Depois de publicar três livros de poemas, tomei coragem de abrir as gavetas e trabalhar em cima de um romance que estava adormecido. Em 2017 tive o incentivo do jornalista e escritor Leonel Prata e a felicidade de levar este projeto adiante com a Editora Patuá. Eduardo Lacerda, um editor apaixonado pelo seu trabalho e bastante criterioso, fez um trabalho impecável. Assim nasceu “Borboleta – a menina que lia poesia”. O lançamento aconteceu em Maio deste ano de 2018 em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. O livro foi prefaciado por Leonel Prata. O texto da orelha é da escritora Adriana Brunstein e da quarta capa é do poeta e jornalista Tejo Damasceno Ferreira.

 

O romance conta a história da Maria Rosa, uma menina órfã que só teve duas moradias em sua curta vida: a creche e o hospital do câncer. O amor pela literatura foi seu pilar em meio a sua limitação para compreender o mundo. E ela passou a viajar pelo Brasil através da poesia que lia e criava.

 

Os eventos de lançamento no Brasil me emocionaram profundamente. Muitos amigos (a maioria escritores) foram prestigiar. Sim, só podemos contar com a presença de amigos quando não somos famosos. Não me sinto envergonhada por isso. Pelo contrário, sinto como um elogio. Quem tem afetos, tem a maior de todas as riquezas. Também foram amigas escritoras que me trouxeram suas impressões. Destaco abaixo alguns trechos que poderão trazer um novo olhar para quem já leu ou quem sabe aguçar a vontade de quem nem ouviu falar dele.

 

NIC CARDEAL:


“Maria Rosa precisa se acostumar com seu novo ‘lar’. Sente saudades das crianças da creche, das conversas com as mãos, os olhos, os ouvidos, sorrisos e abraços. Sente dores de corpo e de alma. Seu grito é silencioso: “(...) será que existe remédio para a desesperança? (...)” (2018, p. 25):
Maria Rosa é transferida para a ala de crianças com câncer, um lugar onde, segundo ela, a tristeza é bem camuflada. Renova-se em energia e esperança, volta a ler, a fazer suas ‘viagens’ imaginárias por lugares nunca vistos. Comemora seus 15 anos entre as novas amigas do hospital, com bolo de aniversário e borboletas artesanais. A alegria passageira traz um presente inusitado e permanente: Maria Rosa volta a falar, dizendo “muito obrigada!” A felicidade é geral: “(...) O novo casulo maior abriu meus horizontes literalmente. Devolveu-me a voz (...)” (2018, p. 34).“

 

“Maria Rosa amadurece muito cedo porque a vida lhe exige um alto preço de compreensão das coisas do mundo, das coisas de fora e de dentro, de desapegos urgentes, imensos, de costurar em finos fios os horizontes tão poucos que se estendem bem diante da sua vida que urge, que ruge, grita, esperneia, acalma, e ainda encontra linhas de remendar alheias esperanças e consolos: "(...) Amizade/é aquela via de mão dupla/que não necessita de carros,/mas de asas e corações" (...) (2018, p. 83). Porque a vida - toda a vida - sempre é por um fio, às vezes meada, novelo, carretel, às vezes corda grossa, comprida, às vezes cordão de amarrar imensas tempestades anunciadas e desmedidas, às vezes tênue linha que vai subindo aos poucos céu acima, feito papagaio, pandorga ou pipa, até que o fio se solte, se rompa - e finalmente voe solta - à procura de horizontes outros no vertical azul do caminho onde estrelas também sonham o sonho justo do infinito...”

 

LEILA MÍCCOLIS:


“Um romance que se transforma simultaneamente em um livro de viagens, com a jovem borboleteando os jardins da cidade natal de seus autores preferidos, para descrever as diferentes cores locais; em reflexões, sob o formato de poesia, fazendo com que questionemos comportamentos cotidianos: “Despreconceito / é a compreensão do outro na gente”; e também se apresenta como um diário, oferecendo ao leitor a intimidade de uma adolescente que, apesar da adversidade, vai metamorfoseando-se e desabrochando-se a cada novo aprendizado, sem perder sua inocência e pureza. Uma literatura polimorfa, portanto, por conter em si múltiplas propostas estéticas.

 

Que reverbere, em nós, a principal mensagem da obra, alicerçada na impermanência e na transitoriedade da vida, visando não o hedonismo imediatista tão comum em nossa época, mas sim a percepção de cada minuto como uma dádiva em prol de nosso aprimoramento ético, moral, intelectual, mental e físico.”

 

SOLANGE FIRMINO:

 

“Mas a comunidade da pólis não é apenas formada por muitos homens/ou por muitas borboletas, mas também pela diversidade que eles apresentam. A diversidade cultural, o multiculturalismo, a identidade negra, as relações raciais ou que nomes tenham, são totalmente ocultadas pelo espaço escolar. Esses temas somente são trabalhados na semana do dia 20 de novembro, nas comemorações da chamada “Consciência Negra”.

 

O ser humano vive enclausurado em si mesmo, a diversidade que vai ao encontro do amor e nos transforma, reflete no olhar, não no espelho. Quando a maioria só conhece o que é espelho, o conhecimento surge como um artifício para sair do estado de ingenuidade. Para a borboleta-poeta, aprender com os erros era fundamental. Ela então ensinou às crianças preconceituosas que a beleza estava na diversidade, então contou o mito de Narciso quando houve um caso de desrespeito.“

 

“Deparamo-nos finalmente com a poeta-borboleta, digo primeiramente poeta, depois borboleta, que sente a mutação da vida pulsando, a transformação em processo, buscando saber cada vez mais e melhor, argumentadora da sua expressão poética e da capacidade de concentrar o máximo da vida nos mínimos instantes de poesia. E não há palavras que possam exprimir esse sentimento:

 

"Aprendizado,
aprendi que nunca terminei
de apreender a vida.
Que ela seja intensa
enquanto viva."

 

 

 

 

Chris Herrmann (Christina Herrmann Kuhn) é musicista, editora e poeta carioca naturalizada alemã. Reside na Alemanha desde 1996. Estudou literatura na UFRJ; música e piano no CBM-RJ e Webdesign na Uni Carioca. É pós-graduada em Musikgeragogik (educação musical & musicoterapia para idosos, pessoas especiais e pacientes de Alzheimer) pela Universidade de Münster, Alemanha. Participou de diversas publicações de poesia no Brasil, Espanha e Estados Unidos. Criou as capas, organizou e lançou em parceria com o CBP em 2006 e 2007, cinco antologias de poemas de suas comunidades virtuais. Publicou a coletânea de 178 haicais „Voos de Borboleta“ prefaciado por Leila Míccolis em 2009 pela editora Protexto, com segunda edição digital pelo TUBAP em 2015. Criou a capa, prefaciou, participou como poeta e foi uma das organizadoras do livro digital „Sobre Lagartas e Borboletas“, TUBAP, e impresso pela Scenarium, 2015. Lançou também em 2015 o livro „Na Rota do Hai y Kai“, uma coletânea de 50 haicais, com traduções para o espanhol e ilustrações do artista chileno Leo Lobos. Em 2016 lançou o livro de poemas „Gota a Gota“, prefaciado por Jandira Zanchi, ed. Scenarium. Em maio de 2018 lançou no Brasil seu primeiro romance „Borboleta – a menina que lia poesia”, ed. Patuá. Edita o blogue Boca a Penas com Adriana Aneli. Colabora e tem poemas publicados em diversas revistas impressas e eletrônicas, entre elas Blocos Online, Mallarmargens, Scenarium Plural, Zona da Palavra, Germina, entre outras.

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Setembro de 2018


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Setembro de 2018:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Aderaldo Luciano, Alexandra Vieira de Almeida, Antonia Russo, Caio Junqueira Maciel, Carlos Barbarito, Chris Herrmann, Daniel Rosa dos Santos, Danyel Guerra, Demétrio Panarotto, Demetrios Galvão, Dora Elia Crake Rivas, Fabián Soberón ; Neusa Sobrinho Amtsfeld, Geraldo Lima, Gociante Patissa, Guido Viaro, Hermínio Prates, Iván Segarra Báez, Jandira Zanchi, Jorge Castro Guedes, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Lílian Sais, Marcos Rosenzvaig ; Rolando Revagliatti, Marinho Lopes, Meire Viana, Moisés Cárdenas, Nagat Ali, Nathalie Lourenço, Nirton Venancio, Ramon Carlos, Remedios Álvarez Dias, Reynaldo Bessa, Ricardo Ramos Filho, Rocío Prieto Valdivia, Rosa Enríquez, Samuel Cavero Galimidi, Silas Correa Leite, Silvana Guimarães, Winston Morales Chavarro


Foto de capa:

VLADIMIR KUSH, 'Jornada metafórica (detalhe)'


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR