ANO 5 Edição 72 - Setembro 2018 INÍCIO contactos

Aderaldo Luciano


Elomar Figueira de Melo: uma introdução

No ano de 1996, reuniram-se no palco da mais tradicional casa de shows do Brasil, na época, o Canecão, na cidade do Rio de Janeiro, para uma apresentação icônica, Zé Ramalho, Elba Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo. Quatro representantes da música produzida no Nordeste Brasileiro. Com carreiras sólidas e de sucesso, representavam o que de melhor podia se esperar da canção brasileira naquele momento, ídolos que eram e que são, amados e reverenciados, respeitados pela mídia, senhores de vasto repertório e de carisma elevado.

 

O trabalho de Zé Ramalho fundamenta-se na fusão de ritmos e versos aproveitados da poética dos cantadores repentistas, da mística e da poética do cordel, com temas namorando o mistério, a natureza e as vicissitudes urbanas. Elba Ramalho, cantora e atriz, intérprete, trouxe as baladas, as cantigas, os amores, o forró e seu universo rítmico, mas também trouxe a urbanidade trágica e esperançosa. Alceu Valença, forjado dentro do frevo, dos maracatus de Olinda e Recife, caminhando também entre os anseios urbanos e as cores rurais, apresenta-se como uma espécie de parvo redentor. Geraldo Azevedo, pautado pela construção melódica, trouxe o rio São Francisco, os casos do coração, uma rítmica de funda sensibilidade, de abrangência complexa, elegante e bem trabalhada. Esse show chamou-se “O Grande Encontro”, transformou-se no CD mais vendido do ano, rodou o Brasil e marcou a vida e as eras de pessoas e lugares. 

 

Na plateia estavam jovens em busca de uma assinatura musical brasileira, mas também havia gente que, como eu, bebera em fontes um pouco mais afastadas, quase periféricas, da cultura nordestina e que já haviam passado por experiências semelhantes, mas mais profundas, numa época desenhada por canetas mais pesadas.

 

Doze anos antes, em 1984, quando a Ditadura Militar não encontrava mais condições de manter-se e sustentar-se, com a redemocratização sendo defendida na rua com mais afinco, com a aparição de uma tribo musical de cunho puramente urbano, grupos de rock adornando o mercado com a mão firme da indústria cultural, letras e músicas carentes, mas inflando as programações radiofônicas e televisivas.  Meio a esse levante musical citadino, foi-se observando um retorno leve e contínuo à excelência do regionalismo: a música caipira de raiz, o samba de partido alto, o carimbó e as guitarradas, um pouco de elementos elementos sulinos, a canção romântica popularesca, os ritmos mais matutos do Nordeste.

 

Nesse caldeirão polifônico vimos emergir do fundo do coração brasileiro o disco de vinil, um long play, que revelaria para o mundo uma outra possibilidade musical. Era o disco “Cantoria”, reunindo as canções do show homônimo realizado em Salvador, em janeiro, quatro figuras, uma das quais também estaria no Grande Encontro citado acima: Xangai, Elomar, Vital Farias e Geraldo Azevedo.

 

Cada um de nós que ouviu esse disco saberá dizer exatamente onde estava, com quem estava e qual a reação diante dele. O Cantoria foi a matriz do Grande Encontro, mas menos pop e mais profundo. Mais profundo porque trazia mais do Brasil de Dentro, o Brasil das matas, da caatinga, do cerrado, do sertão, dos rios sazonais, das relações mais afetivas, das experiências telúricas, do sonho da terra fértil marcada pela solidão das secas.

 

Xangai, o cantador eloquente com um poderoso alcance vocal, voando entre baladas, voz limpa e alongada, rompendo a pauta entre baixos e agudos, dono de um repertório direcionado à ecologia, à saudade inexplicável, à natureza em seu esplendor, crítico e possante. Vital Farias, naquele momento, grandiloquente, lírico e arquiteto de melodias complexas, instrumentista maior, voz grave e rascante, herdeira dos violeiros e do rio Taperoá. Geraldo Azevedo, que parecia a voz menos alinhada ao contexto, mas importantíssimo para aplacar a ira vocálica dos outros três, recheando o elenco musical de sensibilidade acústica e equilíbrio, um talismã. E Elomar, o enigma revelado aos nossos ouvidos, um violão caatingueiro respirando as entranhas da terra, o DNA ibérico e medieval, a tradição cristã e fagulhas judaicas e mouriscas. Esse mesmo Elomar elevar-se-á como um monólito, uma misteriosa formação pétrea ancestral, com voz gutural e rasgada, formação erudita, espírito liberto, os olhos da caatinga.

 

Entre os sete elementos do redil dos dois discos, O Grande Encontro e Cantoria, Elomar habita como o oxigênio. Nele todos respiraram. Não há aresta em sua produção. Sua erudição, palmilhada num curso de bacharelado em música na Universidade Federal da Bahia, está a serviço da memória sertaneja (ou sertaneza, como ele pronuncia). Embora tenha aparecido em disco muito anos antes do Cantoria, em 1972 com “Elomar... das barrancas do Rio Gavião”, é pelo “Cantoria”, terra plana e ávida, que o Brasil passa a reconhecê-lo e a cantar, com alguma incompreensão vocabular, suas canções. É pelo “Cantoria” que se aguça a busca pela obra do mestre da Casa dos Carneiros.

 

As cinco canções suas, ou cinco atos, ou cinco árias, encontradas no disco, formam a estrela de cinco pontas do seu céu caatingueiro e cantador. Por elas é possível decifrar seu mapa, são sínteses. O Desafio do Auto da Catingueira, cantado por ele e Xangai, é a versão elomariana para as tradicionais pelejas entre dois cantadores repentistas nordestinos; Cantiga do Boi Incantado, a tradicional história do ciclo do gado nordestina contando a saga do boi que nenhum vaqueiro consegue laçar; Cantiga do Estradar, a geografia mágica do viver sertanejo, a humanidade em sua busca pela divindade; Violêro, as orientações para a fuga às vaidades, a cartilha do violeiro celestial; e Cantiga de Amigo, a imersão cabalística em um passado tão distante e tão místico, mas tão vivo e real.

 

No próximo capítulo, entraremos na obra de Elomar, começando pelo Desafio do Auto da Catingueira. Adiantamos que estes não serão textos críticos, mas apenas uma orientação para aqueles que desejarem conhecer um pouco mais do Senhor da Casa dos Carneiros. 

 

(Alceu Valença, Zé Ramalho, Elba Ramalho e Geraldo Azevedo)

 

 

 

(Xangai)

 

(Geraldo Azevedo)

 

(Votal Farias)

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Revista InComunidade, Edição de Setembro de 2018


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VLADIMIR KUSH, 'Jornada metafórica (detalhe)'


Paginação:

Nuno Baptista


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