ANO 5 Edição 72 - Setembro 2018 INÍCIO contactos

Alexandra Vieira de Almeida


A catábase como símbolo positivo do humano, em Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto

 

Seguindo a lição drummondiana de enaltecer o lado gauche da vida, Fernanda Fatureto no livro de poemas Ensaios para a queda (Penalux, 2017) leva os leitores a margearem o rio trôpego da vida. A poeta aqui em questão faz emergir o que está à margem, o caminho errático da vida. O livro é dividido em três partes que se complementam e dialogam entre si: “Travessias”, “Miragem” e “Polifonia”. No poema que abre a primeira parte, temos: “Realizo ensaios para a queda tal qual a última noite/de uma estrela cadente;”. No Novíssimo Aulete, é descrito o fenômeno da estrela cadente: “Visualização da entrada de um meteorito na atmosfera e que provoca incandescência ao se atritar com gases, mostrando-se como o traçado de um risco luminoso no céu noturno”. Portanto a metáfora é digna do título do livro. A escritora dá positividade ao simbolismo da queda, não a apresentando como algo excludente, mas como partícipe da vida. Com seu brilho e luminosidade traz significado para a existência humana. Pois seus poemas são feitos da máxima humanidade. Aqui, nos poemas de Fatureto, comparece o mito de Prometeu que roubou o fogo divino para os homens. O conhecimento traz a queda, à descida ao mundo dos humanos. A catábase é recheada de elementos positivos, levando o ser humano a adquirir a ciência dos deuses, mas sem deixar de lado a hamartia trágica, com seus erros e desconcertos.

 

Gilbert Durand tem um excelente livro que esclarece sobre a teoria do isomorfismo. Em As estruturas antropológicas do imaginário, ele disse que o isomorfismo é uma forma de aproximar símbolos, que poderiam até se apresentar como díspares entre si, mas que são sintetizadores de um mesmo núcleo temático. Fernanda Fatureto alcança esta difícil proeza ao sintetizar imagens num mesmo núcleo temático, a queda, dando-lhe corpo e substância a partir de metáforas como a estrela cadente, as pedras. O simbolismo da dureza e da petrificação comparece durante sua obra, como na mulher de Ló que olha para trás e vira pedra. Apesar das imagens de imobilização a que o erro pode levar, há uma saída final a partir do vazio e do silêncio. Sua poesia é feita de palavras importantes, mas a ausência é o outro lado deste muro petrificante, como o que encontramos na muralha da China. Porque apesar dos erros é preciso seguir em frente, quebrar a escultura de mármore que nos molda: “O movimento de seguir em frente/Ainda que sangre”. Fernanda Fatureto observa esta “polifonia” em que as linguagens se mesclam num tecido raro, que é a riqueza de suas belas imagens poéticas. Certa elegância hermética sai dos frascos de seus versos que nos encapsula num rede mágica e encantada como os sonhos. O sonho é dança dos corpos em efusão erótica. São densas suas metáforas eróticas que unem os seres naquilo que os assemelham, a humanidade quente da força lírica. È esta consciência que salta aos olhos do leitor, ávido por paragens mais amenas, longe do dualismo que nos move: o amor e a guerra.

 

O mítico e o poético se mesclam na sua poesia, em que temos as Moiras, Hera e Prometeu, como metáforas de seus versos ensaísticos. A poeta reflete sobre o real a partir dos mitos, mas sem deixar de lado, a parte grave da vida. Seus acordes são múltiplos. Temos uma poeta conhecedora de seu dom de poetar. Se, por um lado o mítico sobressai, ela não deixa na ruína e nos escombros a nossa história mais presente e real. Acompanhando o mítico, temos o bíblico, unindo as crenças no sagrado universal da verdadeira poesia, que não deve se pautar em dogmas e regras estanques, mas no maravilhamento do novo que refaça o caminho da tradição, mas com outros olhos. Se cair produz seu sonho de positividade, o levantar-se é deserto incontido: “Caímos tantas vezes./O levantar é árido como vulto”. Levantar-se exige um esforço descomunal, é difícil, lento, doído, mas necessário para a evaporação dos anos. Fatureto expõe o sofrimento humano, a dor, o outro lado do brilho de uma estrela cadente, que é a sua queda. Se por um lado, a catábase é permeada de positividade, dá-nos o enfrentamento dos espelhos e seus reflexos, qual Narciso em seu manto de dor e nulificação. O enfrentamento é seu lado ético, o olhar humano frente ao conhecimento de sua própria dor, que não pode ser visto como algo negativo, mas como um poder de autoconhecimento que leva ao crescimento do ser ético.

 

Fatureto diz: “Nunca estivemos no limite do que se chama humanidade;”. Apesar desta alusão à nossa humanidade, a poeta nos apresenta o mundo mágico do onírico e do sonho, do admirar-se com o que ultrapassa a fronteira do real. E não poderia faltar a referência a García Marquez: “Macondo existia só no papel/Seus leitores visitavam a região/Acordados.” Suas poesias têm esta mirada ao verbo delirante, a “miragem” ultrapassa o fugaz do tempo para se fazer lenda. Num tempo que percorre as pupilas do sonho, sua poesia é feita de realidade (pedra) e de utopia (fogo). Unindo o que nos humaniza ao que nos ultrapassa em chama de desejos, a luminosidade do amor nos faz ver que a vida não é só destruição, ruína e violência. O grito se abafa pelo silêncio das estrelas e sua poesia é cântico estrelado da queda e do acordar para a vida e para a beleza do amor: “O poeta já disse que o verbo delira”. A palavra, o verbo toma o veneno da queda, na poesia de Fatureto, para trazer a partir de seus versos o antídoto, o bálsamo que seca as lágrimas do desespero e da dor. Os poemas de Fatureto são um remédio vibrante para a solidão dos homens. Com eles, estamos acompanhados de vida e prazer em meio ao desconcerto do mundo. É preciso buscar uma origem nesta mistura de vozes, procurar um poder encantatório para o mundo: “Falar a língua matriz/Derivada de todos os sábios”. A poesia desta grande escritora nos revela a trilha para o aprendizado da escrita, como a urdidura poética que não se cala frente ao fracasso do mundo e o que ele nos tem a oferecer.

 

Portanto, temos nesta poeta ímpar o grito contra uma moral vigente que diz que só o acerto produz conhecimento. A falha, nossa errância é símbolo de positividade, mostrando que a descida aos infernos pode trazer as flores perfumadas da esperança e que a queda torna o ser mais grávido de luz do que de escuridão. Um parto precisa ser feito, para que o homem teça uma vestimenta de revelações de sentido, pois apesar do nonsense do mundo, daquilo que nos cerca por todos os lados, suas poesias revelam o máximo da expressão humana, contém fortes sentidos, densos, complexos e questionadores. Sua poesia mais ilumina que desertifica e apesar da natureza pétrea do humano, o fogo original do mítico nos atravessa, tornando-nos sonhadores de mundos impossíveis. Sua poesia nos fragmenta a partir da queda, mas nos une, através da reflexão desta descida nos espelhos labirínticos do ser. Fatureto sabe como ninguém como adentrar no interior do humano, mostrando-nos suas faces múltiplas, polifônicas, fazendo da miragem e do sonho uma ponte, uma travessia para o que lateja além do humano.

 

 

Alexandra Vieira de Almeida é poeta, contista, cronista, ensaísta e resenhista.Tem Doutorado em Literatura Comparada (UERJ). Tem quarto livros de poesia publicados, sendo o mais recente Dormindo no verbo ( Penalux, 2016). Tem poemas traduzidos para vários idiomas e publica constantemente em jornais, revistas, antologias, e alternativos por todo Brasil e também no exterior.

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