ANO 5 Edição 72 - Setembro 2018 INÍCIO contactos

Danyel Guerra


Carne e Carneval (I)

“Daí a ociosidade que devora os dias, pois os excessos no amor
  exigem descanso e refeições reparadoras.Daí, esse ódio pelo
  trabalho que obriga essas pessoas a procurarem meios rápidos
    de arranjar dinheiro.”

 

                                                                         Honoré de Balzac

 

“Pourquoi filmez-vous?” Convidado a participar numa enquete do diário francês ‘Libération’(1), Joaquim Pedro de Andrade enunciou algumas das motivações que o levaram a trocar a Física pelo Cinema. P’ra começo de conversa, ele garantiu que pegava numa câmera, antes de mais, “para chatear os imbecis.” Quase no final, lançando mão do megafone, conclamou. “E para insultar os arrogantes e poderosos, quando ficam como cachorros dentro d’água no escuro do cinema.”

 

 

Indícios do acinte certeiro e da provocação afiada com que respondeu ao Lib podem ser percebidos e detetados no percurso de sua filmografia, inaugurada em 1959 com um par de curtas, perfis biográficos  do  poeta Manuel Bandeira, seu padrinho de crisma, (‘O Poeta do Castelo’) e do sociólogo Gilberto Freyre (‘O Mestrede Apipucos’).

 

Na tela do Cinema Novo (CN) brasileiro é de sua lavra uma das carreiras que mais se deixou  impregnar por uma tripla constância. A de ser politicamente consequente, esteticamente impressiva e eticamente procedente. Um percurso, (quase) sem mácu…la, fatalmente interrompido  aos 56 anos, pelo corte da tesoura da parca, quando preparava uma adaptação antropofágica de ‘Casa Grande & Senzala’ (1933), a magna obra de  Freyre.

 

Nesse tripé de conceitos se apoiam, firmes como um rochedo, ‘Macunaíma’ (1969) e ‘Os Inconfidentes’ (1972). Duas abordagens prenhes de alusões subliminares ao Brasil da época da ditadura militar, veiculadas sob a forma de alegorias. Fabulatória e burlesca no primeiro caso, histórica e dramática no segundo.

 

Se o frenético ‘Macunaíma’ funcionou como o passaporte para a posteridade, o atilado ‘Os Inconfidentes’ sobreviverá enquanto exercício artisticamente depurado. Na sua (muito arguta) leitura política da Inconfidência Mineira, Andrade ensaia o desacato de “insultar os arrogantes e poderosos”. No estranho ‘Macunaíma’, ele não economiza munição e alveja, metralha, com destra precisão, os imbecis de todas as idades, latitudes e nacionalidades.

 

    Esta avaliação não significa menosprezo pela qualidade da obra subsequente (2), culminada em ‘O Homem do PauBrasil’ (1981), biopic de Oswald de Andrade, o exacerbado pródomo do Modernismo tupiniquim*, que ele representa como um ser andrógino  (representado  por uma atriz e um ator), num assomo de delírio fantasista. Ou precedente, polarizada na longa de estreia, o documentário  ‘Garrincha, Alegria do Povo (1963), que  alguma crítica saudou, talvez apressada e extemporaneamente, como um lídimo exemplar de Cinéma Verité.

 

Capetalismo canibal

 

     O ano de 1969  é um tempo cruel tanto para o Brasil como para o CN. Vendo os generais golpistas definitivamente aquartelados no Palácio do Planalto, os cinemanovistas tomam consciência de que passaram a ser “cabras marcados para morrer” e serem devorados (3). Entra-se num período de carência e frugalidade, em que o arbítrio pulveriza o que resta de Democracia, Liberdade e Estado de Direito. Apesar desses pesares, esse ano testemunha o advento de um filme cru e crucial.

 

    A controversa película é uma transposição, muito livre, para o ecrã, do livro homônimo do modernista Mário de Andrade, cuja primeira edição data de 1928.  Na sua obra mais (re)conhecida, Andrade narra os feitos e os desfeitos do herói mitico amerindío, atribuindo os devidos créditos às pesquisas do etnólogo e explorador alemão Theodor Koch-Grünberger.    

 

    Se acaso JP Andrade apenas exibisse em seu curriculum esse título, mesmo assim teria lugar cativo na galeria dos grandes autores do Cinema nacional. Além de ser sua obra epítome, impõe-se como um filme axial no percurso do movimento de que ele foi um dos próceres.

 

    Nessa absurda manobra de diversão momesca, o realizador caRioca se expressa sob o véu dos códigos da parábola zombeteira, tentando assim driblar, como um Garrincha endiabrado, a tesoura da Censura(4). Numa farsa mais que descarada, Andrade, tal como o irrequieto Macunaíma (Grande Otelo/Paulo José), monta uma presepada onde vira o inconsciente coletivo brasileiro pelo avesso do avesso do avesso. Na terceira longa, ele atinge, sem risco de incoerência, o zênite de uma opera inscrita no epicentro de uma interpretação polissêmica da Antropofagia(5).

 

  Através desta (re)visão, tão livre e libertina quanto paródica e alegórica da rapsódia do modernista Mário, Joaquim Pedro codifica uma mensagem perspicaz. No Brasil dos anos 60/70, o Capetalismo aprofunda o ímpeto de sua voragem canibalesca. Tanto assim que se justifica a troca do primeiro “i” por um “e”, muito porque essa eminência se tornou uma emanação do capeta. Contrariando a profecia de Lênin, o Imperialismo não se impôs como o estádio supremo do Capitalismo. Essa fase superior –e apocalítica- se denomina Capetalismo.

 

Porém, os selvagens da fábula não são os descendentes dos nativos das eras pré-cabralinas, que ainda vivem numa Pindorama paleolítica. Nem os miseráveis retirantes, fugindo da seca e coagidos a viajar para as grandes cidades, amontoados, feito gado, em paus de arara*, como visionamos numa sequência ressumando a cinena neorrealista. Não! Agora, os canibais são capetalistas insaciáveis como Wenceslau Pietro Pietra (Jardel Filho), “o gigante comedor de gente”, acintoso a ponto de preparar, na piscina de seu palácio, uma pantagruélica feijoada, em clima de grande bacanal gastronômico.

 

 

O filme veicula acutilantes, embora, com frequência, encripitados, recados ideológicos, intervindo politicamente na realidade brasileira pós- A.I. 5. O diretor transforma a guerreira Cy, no livro a líder das amazonas, numa intrépida guerrilheira esquerdista. E faz a caridade de metamorfosear o sapo Macunaíma num príncipe encantado, sempre que fuma, fantasiado de hippie, o baseado* que a cunhada Sofará (Joana Fomm) vai buscar às partes pudendas.

 

Consistiria, contudo, um equívoco grosseiro confinar este exagero hiperbólico aos limites da (r)estrita metáfora político-ideológica. Acerca de uma trama transcorrendo sob a égide do picaresco, deixando escorrer cachoeiras de excesso, não soará a extemporâneo sublinhar uma reflexão inadiável. ‘Macunaíma’ se insinua como um dos exemplos mais pertinentes da ideia filosófica que turbinou o CN: canibalizar, sob os auspícios da carnavalização tropicalista, o Cinema estrangeiro e “nacionalizar” o Cinema Nacional.

 

Estamos, assim, perante o binômio Antropofagia/Autofagia, numa interação catártica e resgatadora com uma Cinefagia. Dialética que se sente, a nível formal, no frequente recurso a filmagem com câmera na mão, replicando as fórmulas do Cinema Documental, obediência bem evidente na ágil cena em que o enfant terrible, chutando o pau da barraca do sistema, sobressalta a Wall Street da capital e do capetal (6).

 

                                             (continua no próximo número)

 

NOTAS

 

1-‘Pourquoi filmez-vous?’, jornal ‘Libération’, Paris, maio de 1987. Adriana Calcanhoto transformou a resposta de JPA na letra da faixa ‘Porque você faz Cinema?’, que abre seu disco ‘A Fábrica do Poema’, edição Sony Music, Brasil, 1994.

 

2- A Antropofagia insiste em ser um signo tenso e intenso no título seguinte, ‘Guerra Conjugal’ (1975). O filme expõe, através do desfile de curtas estórias, a vida particular de vários casais que se odeiam, se devoram, mas mesmo assim, persistem em morar juntos. A fita é baseada em diversas narrativas de Dalton Trevisan. O ficcionista paranaense não economizou nos elogios a esta adaptação. Em ‘O filme visto por Dalton’, publicado em ‘O Globo’, a 24 de março de 1975, ele realçou: “Melhor que o livro é essa fabulosa obra-prima dirigida com garra, humor e consciência crítica. Uma experiência inesquecível.”  

 

3- No período da produção/direção de ‘Macunaíma’ (1968-69) JPA esteve preso nos cárceres da ditadura militar.

 

4- Mesmo assim, ‘Macunaíma’ foi vilmente golpeado. Patrulhamento que prosseguiu nos filmes seguintes. Em ‘Vereda Tropical’, episódio de ‘Contos Eróticos’ (1977), JPA adapta uma narrativa de Pedro Maia Soares, em que o protagonista nutre um fetiche sexual por melancias. Imbecil, a censura rotulou a estória, uma paródia às pornochanchadas, com o labéu de aberração e proibiu, em primeira instância, a difusão do segmento.  

 

5. “A Antropofagia é um modo de consumo adotado, de maneira exemplar, pelos subdesenvolvidos”, assim abria JPA a nota de apresentação de  ‘Macunaíma’, no Festival de Veneza de 1969.

 

6. No curso da sua formação teórico-prática, JPA  estagiou nos EUA com os irmãos Albert e David Maysles, pioneiros do Cinema Direto.

 

Glossário

 

Tupiniquim- termo da língua tupi, usado coloquialmente como sinônimo de brasileiro.

 

 Pau de arara-caminhão, cuja caixa aberta acolhe precários e rudes bancos de madeira, onde os passageiros se sentam.

 

Baseado-charro

 

 

Danyel Guerra é natural da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro (Brasil).Tem uma licenciatura em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Escreveu e editou os livros 'Em Busca da Musa Clio' (2004), 'Amor, Città Aperta' (2008), 'O Céu sobre Berlin' (2009), 'Excitações Klimtorianas' (2012), 'O Apojo das Ninfas' e 'Oito e demy' (2014). No prelo está 'O Português do Cinemoda' (edição Douro Editorial).

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Paginação:

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