ANO 5 Edição 71 - Agosto 2018 INÍCIO contactos

Henrique Dória


EDITORIAL

Em Outubro próximo, o Brasil terá eleições para a Presidência da República. Entretanto, está sujeito a uma violência sem precedentes, uma guerra civil não declarada. Assassinatos e violações atingiram um escala nunca vista. Em Rio Branco, capital do Estado do Acre, alcançou-se o número de cerca de 84 assassinatos por 100.000 habitantes, 84 vezes mais que o número de assassinatos na Europa. No conjunto do país, com 208 milhões de habitantes, a taxa de homicídios é 30 vezes superior à da União Europeia, com 512 milhões de habitantes.
Se aos homicídios somarmos as violações e os roubos, o crime no Brasil atinge proporções espantosamente inaceitáveis.


Entretanto, o que oferece como solução um dos candidatos com mais possibilidades de aceder à Presidência, um indivíduo sinistro que dá pelo nome de Jair Bolsonaro. Seguindo os ensinamentos de Trump, propõe liberalizar o uso e porte de armas.


Escusado será dizer que, caso isso aconteça, o número de assassinatos irá crescer exponencialmente: qualquer assaltante, sabendo que pode ser morto num assalto, tomará a precaução de assassinar primeiro e roubar depois.


E escusado é também dizer que essa medida servirá não só a importação como o fabrico de armas, isto é, a ganância de alguns à custa da morte de muitos.


Bolsonaro esconde também as razões de tanta violência: esta cresceu brutalmente com a Ditadura Militar a que o Brasil esteve sujeito entre 1964 e 1985, e que Bolsonaro defende, com uma transferência colossal de pessoas dos campos para as grandes cidades, de que o Rio de Janeiro e São Paulo são os maiores exemplos. Esta transferência destinou-se a proporcionar mão de obra barata a uma indústria que a própria Ditadura Militar foi incompetente para criar. Sem terra e sem trabalho, isto é, sem pão, que resta aos desgraçados das imensas favelas brasileiras senão dedicar-se ao crime que é o seu único meio de subsistência, já que a sua vida não tem qualquer valor?


Em vez da paz, do pão, da saúde, da educação, da habitação, Bolsonaro oferece ao Brasil, como solução, a violência para combater a violência.


E fá-lo usando mentiras que qualquer pessoa minimamente informada poderá desmontar com toda a facilidade. Numa intervenção pública disse o seguinte:
Castelo Branco, o primeiro presidente da Ditadura Militar, foi eleito pelo congresso e não imposto, sendo eleito até com o voto favorável de Ulisses Guimarães, o líder dos democratas no congresso.


Mentira descarada: ele bem sabe que quem votasse contra naquela câmara  seria preso, torturado ou assassinado. Por isso o medíocre e criminoso Castelo Branco obteve quase 99% dos votos expressos. É esta a democracia de Bolsonaro.


Também afirma que o período de mais crescimento económico do Brasil foi o período da ditadura. Outra mentira.


Entre 1945 e 1965 o Brasil cresceu mais do que entre 1965 e 1985, período da ditadura. Isto apesar da imensa riqueza criada pela exploração do petróleo e que atingiu o auge na década de 1970.


Afirma que as forças armadas salvaram o país quando o destruíram.


Basta pensar-se que a Ditadura Militar destruiu os caminhos de ferro e não construiu rodovias para favorecer os interesses da aviação civil, ligados aos militares no poder. É por isso que hoje o Brasil tem um dos transportes aéreos mais caros do mundo.
E qualquer pessoa minimamente informada sabe que bons caminhos de ferro e rodovias são o maior suporte do desenvolvimento.


Mente também ao dizer que no fim da ditadura militar o Brasil era a sétima maior economia do mundo. Na realidade o PIB brasileiro, em 1980, 149 mil milhões (m.m.) de dólares, segundo dados do FMI, após 15 anos de Ditadura Militar, e pese embora a riqueza imensa do país, a sua população e a particularidade de o petróleo ser um dos seus grandes recursos, estava abaixo dos seguintes países: Alemanha ( 828 m.m.) Arábia Saudita ( 164 m.m.) Argentina (209 m.m.) Austrália ( 163 m.m.) Canadá (269 m.m.) China (202 m.m.) Espanha (224 m.m.) EUA (2.788 m.m.) França (691 m.m.) India (181 m.m.) Itália (470. m.m.) Japão (1.087 m.m.) México (226 m.m.) Holanda (181 m.m.) Grã Bretanha (543 m.m.) URSS ( 750 m.m.).


Isto é: ao contrário do que afirma o Bolsonaro a economia brasileira, em 1980, era não a 7º mas a 17ª economia do mundo.


Por isso, só uma imensa estupidez da classe média brasileira e, espantemo-nos, de muitos pobres, pode fazer ascender ao poder esse  indivíduo sinistro chamado Jair Bolsonaro, mesmo que tenha a Rússia de Putin por detrás dele, como teve idiota Trump.

 

HENRIQUE DÓRIA

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2018


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Paginação:

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