ANO 5 Edição 71 - Agosto 2018 INÍCIO contactos

Alice Macedo Campos


Recensão sobre o livro “Adeus. 23 separações funestas e outros acidentes naturais” de Luís Miguel Rainha

 

Pode o nome definir o que se espera da pessoa com quem temos uma relação íntima? Luís Rainha fala-nos de um homem que vive durante semanas na dúvida de estar a cometer traição, ao mesmo tempo que desconfia de si próprio e chega a convencer-se de que tal não é possível quando os seus amigos e familiares reconhecem a namorada. Será a ‘Rita’ um protótipo de normalidade ou bastará àqueles que o rodeiam vê-lo feliz para simplesmente ignorarem a presença de uma mulher diferente? Ou estamos tão alheados da realidade que não chegamos a sentir a curiosidade de perguntar quem é esta mulher? Ou a dinâmica das relações adquiriu um estatuto de tal forma descomprometido e volátil que já não há surpresas quando mudas de companheira? Ou pode um homem confundir-se ao ponto de ficar refém do aparente consentimento alheio quanto ao seu conjugue? Ou ter estado com a consciência alterada devido ao consumo voluntário de drogas é já meia justificação para semelhante equívoco? Desde que se chame ‘Rita’, pelos vistos, está tudo bem.

 

 Um homem está sentado numa sala centrado nos seus pensamentos a ver com a imaginação o filme da sua vida passar diante dos seus olhos (“a fealdade do mundo a turvar a calma bela mas insustentável“). Enquanto progredimos numa viagem pelas suas memórias, somos confrontados com a existência de um cadáver ao seu lado. Será que a morte de alguém próximo levanta a necessidade de elaborar um conjunto de imagens das nossas acções passadas no sentido de arriscar uma tentativa de reconciliação? Ou seja, o corpo está irremediável, não há regresso da posição da morte à posição da vida, mas se tiver a coragem de admitir uma mão cheia de enganos num derradeiro acto de ‘contrição’ e conseguir alinhavar o refrão de uma canção do adeus, talvez se torne menos desprezível.

 

Qual é a reação da sociedade quando é o homem a vítima de violência doméstica? Numa vila pacata, assistimos à chegada das autoridades à residência de um casal em crise avançada. Está a violência digerida ao ponto de a considerarmos aceitável nas relações? Pode um homem sair de casa e enfrentar os vizinhos e comentários feitos a seu respeito com a descontração de que tudo não passou de mais um episódio lamentável na sua vida? A revolta e indignação que nos assola se uma mulher é agredida pelo marido é igual ao que sentimos no caso inverso? Neste conto, as mulheres de uma comunidade juntam-se em segredo na aprendizagem de técnicas de defesa, formando uma comissão chamada “CAMA”. Além do evidente jogo semântico, atinge-nos uma mensagem bem mais subliminar: é com violência que se resolve a violência?

 

Uma mulher sofre de alucinações e ouve vozes que, entre outras frases desconexas, a aconselham ao suicídio. Depois de algum tempo de contrariado convívio com tais vozes, distingue três diferentes: a de uma idosa, a de um adulto e a de um adolescente. Decide então tomar medidas para eliminar o problema e recorre a um especialista. Encontra desde logo na terapia sugerida uma série de defeitos que a leva num périplo de idas a diferentes psiquiatras. Ficamos totalmente absorvidos pela situação desta mulher e chegamos a solidarizar-nos no desejo de cura. No entanto, surge algo com que não contávamos: o psiquiatra não passa de um amigo imaginário! Contabilizando as vozes de todos os não envolvidos percebemos estar diante de um caso de múltipla personalidade. Mais interessante porém é a capacidade do autor em fazer-nos sentir melhor com o que somos.

 

 Estamos sãos se estamos lúcidos de que podemos enlouquecer. Com acesso multimédia podemos acompanhar um dos contos através de um blog onde há imagens das obras de arte em análise. Talvez seja o momento mais sinestésico do livro. Ao ler conseguimos ter os nossos óculos tridimensionais perfeitamente operativos tal é o efeito de comando da descrição (“assumimos como nossa a visão do artista, capaz de tudo gerar e transfigurar”). Embora seja um livro não poético, deparamo-nos com algumas subjectivações que aguçam o estilo e nos desafiam a uma interacção introspectiva (“esta tecnologia criava mundos únicos, imersivos e hipnotizantes, capazes de agarrar o intruso com a firmeza do papel autocolante”).

 

A certa altura, Luís Rainha abre a janela da sua vida pessoal (“quando a minha mãe morreu, percebi que a orfandade ultrapassava a circunstância mais ou menos melodramática”). O conto nono saiu à rua, foi para os bairros sociais e viu um grafito muito bem feito. Novamente, mais questões: para que serve o talento; tem o grafito uma autoria racial? Uma escritora envia uma carta de resposta ao convite para ser fiel depositária dos direitos de autor de uma biografia na qual terá colaborado. O autor, pedófilo confesso, procura manter-se no anonimato sem contudo ocultar quaisquer pormenores sórdidos das suas experiências. Talvez uma mulher não tivesse escrito esta carta sem vomitar.

 

Um homem desperta numa maca de hospital e fisga uma possibilidade de lucro com o doente da maca ao lado. Seríamos capazes de trair uma pessoa que vai morrer? Na escala de medição de valores, onde termina a ética e começa o crime?

Alice Macedo Campos

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2018


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Foto de capa:

PABLO PICASSO, 'Deux femmes courant sur la plage (La Course)', 1922


Paginação:

Nuno Baptista


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