ANO 5 Edição 71 - Agosto 2018 INÍCIO contactos

André Giusti


Poemas

Depois de tanta euforia

 

Nos últimos tempos
ficamos mais sérios,
inconveniente que é
contar piadas a toda hora.

 

Agora somos mais breves,
aconselhados que fomos
a falar apenas
do que é pertinente.

 

Nos tornamos mais práticos,
estamos nos acostumando
a agir apenas
em benefício próprio.

 

De uma hora para a outra
o vento trouxe folhagens
amarelas ao nosso rosto
na meia-estação.

 

Do mesmo modo,
um ciclo acabou
sobre nossos pés
carpintados pela terra.

 

A primavera este ano
virá feito um toque
de recolher em Gdansk,
despertando ímpetos
de justiça com
as próprias mãos.

 

1988


*


1989

 

A noite quente quieta
repleta de pesos
e medidas indefinidas.
Uma angústia cismada
de silêncio e poucas luzes.
Sobras do que perdi
nos últimos anos
me olham com um cinismo triste
e cruzam as pernas nas poltronas,
impossíveis de serem reaproveitadas.
E um gosto de sangue
vem de dentro da garganta
se transformar em hálito e perfume
desse fim de década.
Tantas estradas tantas estradas
e tão poucos pés
em minh’alma fatigada
de cruzar nossos desertos.
Meus olhos vidrados
procuram formas de suicídio
na televisão sem som.
Ah, cara, que vazio, cara,
que vazio.   

 

*

 

 

 

 

 

 

Não adianta fazer yoga e não dar bom dia ao porteiro

 

Os frequentadores do restaurante natural
vestem camisetas de Marley Gandhi Luther King e Mandela.
Usam cabelo rasta
ferrinhos no nariz no beiço acima do olho
acendem incensos
e outras coisas
que fazem fumaça também
pra libertar a essência cósmica
interior transcedente de não sei onde
(eles não explicam muito bem).
Praticam taishi
meditação
terapias do além
seguem o guru malabarashibalabadoooom
e gritam que matar boi é crueldade
animalidade bestialidade
inferioridade espiritual.
Os frequentadores do restaurante natural
vão às passeatas
pedir pelo aborto
o amor entre iguais
o fim da corrupção
e ao fórum social
pela igualdade entre os povos.
Mas se a mulher pobre nordestina negra
aparece com criança no colo
catarro descendo eczema à vista cabelo ensebado
vendendo pano de prato
(um é três dois é cincoou intera a minha passagem, moço?)
olham pra ela de soslaio,
discretamente nauseados
procuram em volta o gerente:
“nesse mundo liberal escroto
nem se pode mais comer
sossegado um quiche
de alho poró e tomate seco”.

 

2012


*

 

 

 

 

 

 

Os dias em que você começou a ir embora

 

Você não é essa que saiu porta afora
anteontem
levando em sacolas roupas sapatos escovas
o passado feliz
o presente morto
e o futuro sem rosto.

 

Você é aquela cujo sorriso
era lua cheia dobrando noite de tempestade,
era sol transformando quartos escuros em câmaras de luz.

 

E essa foi se mudando daqui
em pedaços
e um pouco a cada dia
ao longo dos últimos anos.

 

Eu percebia e te avisava
que você estava indo,
mas você não ouvia,
não se dava conta de que a toda hora
você partia
e deixava a porta aberta
para que sempre um pouco de você
fosse embora todos os dias.

 

Anteontem, amor, você já havia
saído de casa há muito tempo.

 

2012


*

 

 

 

 

 

 

Retrato de Ana Maria


Me falta a palavra
exata,
a que seja síntese
resumo sinopse
do que provoca em mim
teu cabelo despencando
sobre a ligeireza vesga 
de teus olhos vivos de estudante.
É como se eu procurasse
na praia outra vez a concha perfeita
que um dia achei na infância.
Nessa agonia,
sou um índio tolo lançando 
flechas no nada.


2015


*

 

 

 

 

 

 

Poema sem título 4


Em silêncio,
misturado às sombras,
vago pela rua
procurando a lua
para iluminar pensamentos imundos.
Mas não acho
nem lua
nem vida
nem nada.
Não há notícias de sobreviventes
nos últimos meses.
Quando durmo, sonho erótico
e as mulheres que me amaram
assassinaram as que eu não tive.
Acordo ao lado do meu corpo
duas horas antes do despertador.


1995


*

 

 

 

 

 

 

Poema sem título 12.

 

À luz raquítica do dia nublado
havia em teus olhos
um lenço de despedida.
Se o cristal quebra,
não há volta, eu deveria saber,
mas é que sempre
usei copos baratos de vidro,
e agora tento o desespero da minha poesia
- essa faca cega
esse rádio sem pilha –
tão linda tão funda tão sentida
tão inútil pra te fazer ficar.

 

2015


*

 

 

 

 

 

 

Choveu de madrugada

 

Terra molhada avisa: a vida se renovou.
No fogão, o café prepara o dia.

 

2010


*

 

 

 

 

 

 

Petrópolis

 

A mudez do piano na sala
é música perfeita para esta manhã nova de sábado:
o silêncio da rua 
só perde para o dos quartos.
O frio dá preguiça nos relógios
e entre sete e oito horas
podem se passar dois séculos
(para frente ou para trás).
Com pressa, 
há somente o nevoeiro em fuga
descobrindo o sol e azulando o céu
como se fosse colcha grossa 
que mãe vai tirando 
quando não queremos acordar.
Olho pela vidraça gelada 
não arrisco sequer uma fresta de janela.
“É hora de fazer café”!,
me chama da cozinha 
o grito agudo da chaleira,
enquanto lá fora
passam em seus dias mais felizes
os mortos de nossa infância.

 

Inverno, 2017

 

*

 

 

 

 

 

 

Frente fria

 

Evitemos despedidas
Nessas tardes geladas e chuvosas
Em que a multidão deserta
Nos atravessa o peito
Na busca pela fuga das marquises.

 

São mais tristes as partidas
Com essa temperatura caindo lá fora,
Essa névoa ocultando terraços
Torres e antenas.

 

Torna-se mais bruta a lâmina
Do sumiço
e mais frio fica o sangue
Nisso tudo que se assemelha
A perder num golpe
O braço da mão com que se escreve.

 

Me dói
ter te ferido,
é um arrepender-se
que cresceu feito massa
cancerosa
de carne cinza amarronzada
com manchas leitosas
a imprensar pulmão
fígado um dos rins.

 

Quisera encontrar
Que me operasse
O médium polêmico
O de arrancar com os dedos
Caroços do pescoço
Usando faca de cozinha
Tesoura de costura.

 

Suporto a casa vazia
Mas temo
enfrentar nas vitrines
Os vestidos que te cabiam nos meus sonhos.

 

Tenho Medo de que o tempo passe
Para sempre com essa chuva lá fora no meu mundo
Com esse caroço aqui dentro
Medo de saber o amor da vida inteira
No braço que perdi por minha culpa.

 

2018

 

 

André Giusti nasceu em maio de 1968 no Rio de Janeiro e mora em Brasília desde a década de 90. Entre contos, crônicas e poemas, A Maturidade Angustiada (Penalux, 2017) e Os Filmes em que Morremos de Amor (Patuá, 2016) são seus livros mais recentes. Atualmente trabalha em seu primeiro romance. Também é jornalista. Mantém site e blog em www.andregiusti.com.br

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2018


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Colaboradores de Agosto de 2018:

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Foto de capa:

PABLO PICASSO, 'Deux femmes courant sur la plage (La Course)', 1922


Paginação:

Nuno Baptista


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