ANO 5 Edição 71 - Agosto 2018 INÍCIO contactos

Carmen Moreno


Dez poemas de Carmen Moreno

DESTINO

 

para Ivan Junqueira

 

O morto não mora onde o corpo se expõe
no último traje.
Não cessa ali – sob o assédio dos olhos na caixa fria.
Jaz, na derradeira vitrine do rito,
apenas a casca oca
(que seus sonhos e medos já não guarda).
Inútil pranteá-lo em flores e confissões
na masmorra de mármore.
Sob a lápide, apenas pele e destroços.
Sua dor volátil migrou para o invisível, rumo ao sol.
O morto não mora no ossário,
na urna de cinzas prometida ao mar,
nos tesouros que guardava,
no quarto que o aguardava.
Não cessa no tiro, no corte,
ou quando, amorosa, a morte o elege
no sossego da noite.
O morto não morre.

 

 

PARA FABRICAR ASAS (Ibis Libris)

 

 

 

 

 

QUEM ESTÁ VIVO?

 

Quem faz teu caminho, pessoa?
Algum deus plantaste nos pés,
para alargar os trilhos, benzer os asfaltos,
acalmar teus dias sem chão?
Quem chora contigo nos temporais,
quando as janelas te trancam o peito
e a vida é lenta e pesa como um navio?
Quem voa contigo nas tardes amenas,
quando uma paz orgânica te transforma em pássaro,
e nada dói ao redor de ti?
Quem faz teu caminho, pessoa?
Tens tempo para o tempo,
ou não vês a sorte que atropelas
na rigidez das metas?
Quem faz teu caminho, pessoa?
Já acordaste o amor,
ou teus gestos secam na garganta,
e teu afago é adiado até a morte?
Estás vivo, pessoa?
Sentes pulsar o teu sangue nas veias de alguém?
Tua palavra talha ou cura?
Tens um semelhante, pessoa?
ou nada de teu pode ser nosso?

 

 

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REMORSO

 

Onde enterrar os beijos que não dei e quis?
Que luto lavará a dor do amor que não fiz?

 

 

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AINDA

 

Dizer urgente do amor ao amante.
Antes que se quebre o tempo.
E os ouvidos, dissolvidos na terra,
não apreciem mais a carícia das sílabas.
Antes que as mãos, tímidas de dar,
cessem de vez os movimentos.
E todos os gestos virem ossos.
Dizer urgente ao amigo o valor do vínculo.
Que só o amigo costura.
Só o amigo, cozeduras, cozimentos, cerziduras,
que só o amigo estanca os sangramentos.
Dizer urgente do amor, sem resistências.
Antes que a língua, de súbito, se cale
e o amor, preso por reticências, maledicências,
medos, mágoas, role pelos ralos.
Antes que o amor, quedado pela foice,
faça da palavra não dita, eterno açoite.

 

 

PARA FABRICAR ASAS (Ibis Libris)

 

 

 


 

HERANÇA

 

Existem os asilos e o exílio do velho,
hóspede dos herdeiros.
Prostrado na poltrona, macula a estética da sala:
fraldas por trocar, manias e silêncio.
O velho e seu alto custo – barganhado,
sua língua trôpega, sua dentadura afogada no copo.
Para que serve o velho e seus passos débeis,
sua fala fraturada, seus dias sem amanhã?
Para que serve o velho e sua história esmaecida,
ante os dias férteis dos entes que amou?
O velho e a surdez da casa
(a eutanásia homeopática da parentalha).
Para que servem os filhos do velho?

 

 

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REFLEXÕES SOBRE GRANDEZAS

 

As águas são maiores que o rio
A língua não prova todo o sal do mar
Ninguém apreende a chuva além da vidraça
O instante é a poeira do tempo
Todo olhar é estreito na vastidão
O espírito do poema tem a dimensão do céu
A dor é menor que o Sol
A morte só conhece o corpo
O mundo real é o invisível
Deus é miúdo e tem o vigor das formigas...

 

 

PARA FABRICAR ASAS (Ibis Libris)

 

 

 


 

NOVO ENDEREÇO ou SOBRE O MOVIMENTO

 

Tenho uma nova janela:
rasantes de gaivotas,
montanhas tangendo o céu
ofuscam a ambição dos prédios.
Já desfiz tantos tijolos...
Não há parede perene, aprendo.
Por mais que me agarre às vigas dos afetos
e finque na cal minhas unhas temporais.
Por mais que me perca no caos dos amores,
buscando o bálsamo embalsamado das certezas,
a vida se move à revelia.
Tenho uma nova janela:
estudo agora a desarrumação do vento,
o oxigênio nas encruzilhadas.
Doei minha poltrona de estimação aos fixados.
Sou inacabada.

 

 

PARA FABRICAR ASAS (Ibis Libris)

 

 

 


 

CURA

 

Que a arte me desarrume.
Densa, me desarranje.
Assombre o meu déjà vu,
Alcance-me aonde não fui, me enxergue o que não vi.
Minha face ao tapa do belo,
a alma ao chicote – gemido indolor.
Arte: espinho para as zonas mortas – amor.
O sol árduo da revelação,
sombras saltando de baús – salvação.

 

 

PARA FABRICAR ASAS (Ibis Libris)

 

 

 


 

TELA

 

Laranja, nunca o anonimato,
o descanso, o direito à sombra.
Difícil ofício de sempre acender,
animar, exceder.
Telas de Frida e Van Gogh,
versos do Boca Maldita,
matizes dos trigais, a dor do entardecer.
Nunca rios, balsa, bálsamo.
Laranja navios, queda d’água, arrebentação.
Nunca a chance de ser medo, sombra, solidão.
Laranja enfrentamento, ação.
Nunca blues, choro, boleros...
Mas samba, forró, verão.
Nunca beco, silêncio, lamento,
mas berro, luzes, multidão.
Nunca a timidez do bege, o sossego do azul,
a unanimidade do branco...
O conforto dos tons sem conflito.
Laranja, sempre o grito, delação de si, confissão.
Feições de um sol insone, a extroversão do breu.
Bravura de ser um amarelo extremado.

 

 

PARA FABRICAR ASAS (Ibis Libris)

 

 

 


 

QUASE CINQUENTA

 

O amor roçou no tempo até esgarçar-se de vez,
por excessos.
Quando caminho as coxas roçam uma na outra,
por excessos.
Cortar gorduras é exercício estoico
(às vezes esmoreço e espreguiço).
Mas tenho apreço pela assepsia da alma:
Limpo, desde menina, o lixo entranhado na história.
Há que se enxergar a dor com lupas.
Sangrá-la até libertar o sorriso soterrado.
Sorte: o sol é exercício diário.
Disciplino a fé – o medo tem recantos insondáveis.
Crescer não é uma linha reta.
Recaio e aprumo os cabelos a cada ventania.
Minha mãe há noventa anos me ensina que aprende.
Apronta-se apenas para o instante.
O presente é seu presente.
Rega as plantas e tece bordados com mãos firmes.
Teço palavras para salvar meus jardins,
a seca é perigo iminente.
Aprendo com minha mãe a brotar sementes,
podar folhagens, e espanar a fuligem que encobre os sonhos.
Tenho quase meio século.
Imprescindíveis tornaram-se os óculos para leitura.
Mas prescindo de intérpretes para almas.
Leio entrelinhas como nunca!
Venho esquecendo datas e nomes,
mas tenho lembrado de perdoar.
O tempo não seria apenas a erosão dos neurônios
e o despencar dos músculos.
Há que se gozar os ganhos da dialética:
escondo a barriga sem lipo,
mas a alma – renovada – mostra a cara.

 

 

PARA FABRICAR ASAS (Ibis Libris)

 

 

Carmen Moreno: Escritora carioca, premiada em diversos gêneros literários, membro titular do PEN Clube do Brasil. Bacharel em Artes Cênicas e Licenciada em Educação Artística (ambos pela UNIRIO). Publicou: Para Fabricar Asas, poesia (Ibis Libris), Loja de Amores Usados, poesia (Multifoco). O livro, sob o título Língua de Mulher, recebeu o prêmio Bolsa de Incentivo ao Escritor Brasileiro, MINC/ Biblioteca Nacional. O Estranho, contos (FiveStar). Entre os contos premiados, inseridos no livro, Dora foi adaptado para o cinema, e participou do Festival Internacional de Gramado 2009, como média metragem convidado para finalizar a Mostra de Curtas Gaúchos. O Primeiro Crime, romance policial (Rocco), Sutilezas do Grito, contos (Rocco). A Erosão de Eros, dramaturgia (RioArte). Diário de Luas, romance (Rocco), finalista da 5ª Bienal Nestlé de Literatura Brasileira. De Cama e Cortes - Coleção Poesia na UERJ. A autora participa de 30 coletâneas, entre as quais, Mais 30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira, org. Luiz Ruffato (Record), Antologia da Nova Poesia Brasileira, org. Olga Savary, (Hipocampo). Entre as referências e estudos sobre sua obra, seu romance foi tema da dissertação de mestrado de Lilian Gonçalves de Andrade: "Diário de Luas: um Künstlerroman no universo literário de Carmen Moreno – FURG/ RS, 2006. Algumas premiações: Prêmio Casa da América Latina (Concurso de Contos Guimarães Rosa 2003), Rádio França Internacional, Paris; Prêmio de Desenvolvimento de Roteiros Cinematográficos de Longa metragem (1ª fase: Argumento), MINC/ Secretaria do Audiovisual, 2001. Participa, desde a década de 80, de diversos recitais de poesia e eventos literários do Brasil.

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2018


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Colaboradores de Agosto de 2018:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alice Macedo Campos, André Giusti, Carmen Moreno, Carvalho Júnior, Cecília Barreira, Dario Silva, Diogo Fernandes, Edmar Monteiro Filho, Fabiana Monsalú, Flávio Otávio Ferreira, FLORIZA, Gil Cleber, Gociante Patissa, Helena Barbagelata Simões, Henrique Dória, Hermínio Prates, Itamar Vieira Júnior, Izabela Leal, Jean Narciso Bispo Moura, Joana Vieira de Almeida, Joaquim Maria Botelho, Jorge Castro Guedes, Katia Bandeira de Mello Gerlach, Leila Míccolis, Líria Porto, Marco de Menezes, Marinho Lopes, Ngonguita Diogo, Nirton Venancio, Rafael de Oliveira Fernandes, Raquel Jaduszliwer ; Rolando Revagliatti, Ricardo Ramos Filho, W. J. Solha, Wanda Monteiro


Foto de capa:

PABLO PICASSO, 'Deux femmes courant sur la plage (La Course)', 1922


Paginação:

Nuno Baptista


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