ANO 5 Edição 71 - Agosto 2018 INÍCIO contactos

Carvalho Júnior


Poemas

Clarão


a fome – ave de rapina –
fita o que nos desalimenta,
cada farelo que nos consome:


os ásperos grãos
de pão,
de guerras,
de prêmios,
de dinheiro,
de poder...


caberia tudo
num só clarão de espanto ou
num bater de asas sovinas?


a fome, de modo inclemente,
mata com pílulas de culpa,
de exílios e silêncios cortantes!


um sonho de capa de jornal:
em fase de inapetência e autoflagelo,


a fome suicida-se,
com uma garfada,
no fundo da vasilha
em que jantava vazios.

 

 

 

 

 

 

Abrigos

 

lá onde desdormem as borboletas hematófagas,
no buraco da fechadura dum castelo de marimbondos,

 

no sétimo sonho do menino sonâmbulo,
nos zigue-zagues das sombras das asas das libélulas,

 

na chúvida versilínea polissemia das nuvens,
na luz de lamparina dos lábios do relâmpago,

 

nos becos dos bicos de cores da boca do arco-íris,
nos cúrvidos assobios dos ventos,

 

no rastro do rabo de uma estrela cadente,
no piercing da orelha do livro em construção,

 

na oca do olho do coração do homem,
na casca do ovo e do coco dum santo do pau oco,

 

nos cândidos caminhos do umbigo da lua,
nas saliências das pernas de meu amor...

 

em todos esses lugares eu moro, desmoro,
corro, namoro, choro, morro e desmorono.

 

dos melhores abrigos, 
apartamento que divido
com um joão-de-barro.

 

 

 

 

 

 

O nariz da minha mãe sangra...

 

enquanto o político derrocado 
posa de moralista na estação de rádio,
o nariz da minha mãe sangra.

 

enquanto jogam peteca a cidade e o caos 
nas fendas da ladeira vermelha do sono, 
o nariz da minha mãe sangra.

 

enquanto o trânsito segue áspero 
e a delicadeza murcha
nas hortas e palavras (dos homens?),
o nariz da minha mãe sangra.

 

enquanto as filas não diminuem
no número de desrespeito 
e o farmacêutico vende pílulas antiamor,
o nariz da minha mãe sangra.

 

como se falasse com Deus,
toda vez que me toma nos braços 
e me embala com o curioso cântico
— tingadonga-donga-donga/
tingandanga-danga-danga —
o nariz da minha mãe 
morre o sangue e vive o sonho.

 

 

 

 

 

 

A dança mística das sementes vermelhas no meio-fio da vida

 

para tomar no cuspe da índia o segredo dos assobios dos pássaros das cercas de enganos da infância. para me juntar ao abandono dos umbigos dos riachos mortos. para correr nu pelos paralelepípedos da rua Santa Cruz em finais de semana de solidão chuvosa.

 

para ouvir tua bolsa pele de serpente bárbara declamando Shakespeare e destelhando a abóbada celeste na explosão de orgasmos. para me esticar na grama que acolhe os alfabetos sentimentais das minhas origens.

 

para rasgar nas unhas do arame os calos de sangue dos pés dos meus fantasmas. para me desconhecer e me matar quanto possa da companhia dos punhetas incrédulos sem fome de travessia.

 

escrevo para ver meus abismos se equilibrando na dança mística das sementes vermelhas no meio-fio da vida na volta para o ninho invisível.

 

 

 

 

 

 

No alto da ladeira de pedra

 

no alto da ladeira de pedra,
vô Quirola remenda
as redes de pesca.

 

enganchos e tarrafas
do tempo, saudade é linha
que me abrange.

 

não me desprendo do pé
de amêndoa, campo-santo
dos meus ascendentes.

 

dormem aqui os peixes
nas cabaças, os pés
de puerícia, o balé
das petecas...
todos os meus cavalos
de palha.

 

 

 

 

 

 

O rio e eu

 

uma folha duma árvore qualquer
dançava na corrente de águas,
flutuávamos o rio e eu
um no silêncio do outro,
até o instante em que mergulhamos
num voo de segredos dos silvos
dum pássaro de nome não revelado.

 

 

 

 

 

 

O poço

 

descem a corda e o balde
para buscar a lágrima
na última manilha
do poço que me afoga.

 

 

 

 

 

 

Cigana

 

apressa o passo, cigana.
urgente preciso
um cigarro de Macondo
para pôr fim a esta
minha solidão
de quase trinta anos.

 

 

 

 

 

 

Taça de absinto

 

a solidão é uma taça de absinto
em goles tomados do avesso.

 

 

 

 

 

 

Suicídio

 

matei-me com a corda que não pulei na infância.

 

 

Carvalho Junior. Maranhense da cidade de Caxias, o professor e poeta Francisco de Assis Carvalho da Silva Junior, vencedor do Troféu Nauro Machado no I Festival Maranhense de Conto e Poesia (FESTMACPO) promovido pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), publicou os livros de poemas Mulheres de Carvalho (Café & Lápis, São Luís, 2011), A Rua do Sol e da Lua (Scortecci, São Paulo, 2013), Dança dos dísticos (Editora Patuá, São Paulo, 2014) e No alto da ladeira de pedra (Editora Patuá, São Paulo, 2017). Membro da Academia Caxiense de Letras (ACL), é um dos organizadores do Encontro de Poesia Na Pele da Palavra e faz parte do coletivo de autores alternativos Academia Fantaxma. Edita a página de poesia QUATETÊ. Tem poemas publicados em jornais, revistas e antologias  literárias nacionais.

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2018


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Colaboradores de Agosto de 2018:

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Foto de capa:

PABLO PICASSO, 'Deux femmes courant sur la plage (La Course)', 1922


Paginação:

Nuno Baptista


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