ANO 5 Edição 71 - Agosto 2018 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


Algumas considerações em torno da obra de Raul Brandão

Raul Germano Brandão nasceu a 12 de Março de 1867 na Foz do Douro e morreu a 5 de Dezembro de 1930 na Lapa, em Lisboa.

 

Descendente de pescadores, o mar é a sua maior temática.

 

Em 1891, após o secundário, ingressa no Curso Superior de Letras , onde como ouvinte permanece pouco tempo e depois matricula se na Escola do Exército.

 

Mantém sempre uma atividade literária regular, Colaborações nas revistas O Micróbio (1894-1895), Brasil-Portugal (1899-1914), Revista Nova (1901-1902) ou Serões (1901-1911).

 

Em 1896, em Guimarães, onde foi colocado em serviço militar, conhece Maria Angelina de Araújo Abreu, com quem se casa em 1897.  Em Guimarães assenta arraiais, na famosa Casa do Alto, nos arredores da cidade, deslocando se a Lisboa múltiplas vezes. Em 1912 reforma se no posto de capitão e reinicia uma extensa obra literária de uma qualidade ímpar.

 

Escritor prolixo vagueou na ficção, no teatro, nos livros de memória, nos jornais e movimentos literários, conviveu, na juventude, com Nobre, privou com Pascoaes e Aquilino, Nemésio ou Rodrigues Miguéis.

 

A  sua principal obra, Húmus (1917),  é toda ela um hino filosófico sobre a existência humana.

 

Um grito existencial e um devaneio poeto -filosófico que se inicia assim:
“ Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste. (…) As paixões dormem, o riso postiço criou cama, as mãos habituaram se a fazer todos os dias os mesmos gestos. A mesma  teia pegajosa envolve e neutraliza, e só um ruído sobreleva, o da morte, que tem diante de si o tempo ilimitado para roer(…)” ( Raul Brandão, Húmus, Relógio D  Água, 2017, pp. 11-12).

 

Aliás, segundo os especialistas, há na obra de Brandão toda ela configurada na geração que antecedeu Pessoa (este era 21 anos mais jovem e nunca gostou de Brandão),  a geração de 90 de Nobre e Pessanha, e há o grito filosófico de Húmus , de 1917, o qual surpreende muitos críticos e estudiosos porque antecipa Pessoa,  Herberto Helder, Gabriela Llansol, Vergílio Ferreira   e ainda se compagina no expressionismo artístico alemão e nórdico. Pedro Eiras e Luís Mourão, grandes estudiosos deste escritor, alertam para estes relacionamentos literários e para a indiferença de Pessoa em relação a Brandão. Aparentemente, Pessoa e Brandão desconhecem- se. Mas claro que se leram um ao outro.

 

Húmus poderá ser considerado modernista? Sem dúvida que sim. Romance? Não se sabe. Talvez “ um longo poema em prosa”, como assinala Mourão.

 

Sem dúvida que Brandão apresenta influências de Dostoievski , sobretudo em Os Possessos,  mas vai muito mais longe na sua modernidade. Um discurso envolvente e desconcertante:
“ Remorsos? Eu não tenho remorsos. Dúvidas? Eu não tenho dúvidas. Desde que te vi-vi o universo. Compreendi tudo.  Compreendi que não tinha vivido, e que toda a minha existência tinha sido fictícia-que mais valia um minuto na vida que cem anos de vida. Que só há uma hora na existência e que é preciso aproveitá-la. Que tudo é simulacro e só tu és a verdade. E apercebi o universo como força e destino a tal profundidade, que nesse rápido segundo passou por mim numa rajada todo o turbilhão da vida, com as suas vozes, os seus mistérios e toda a sua grandeza feroz. Vi tudo. Senti tudo. Bastou ver-te. Portanto não tenho dúvidas nem remorsos. Ao contrário estou calmo, ao contrário estou decidido “ (Raul Brandão, Húmus, Relógio d Água, 2017, p.57).

 

E , em torno da ideia de Deus, veja se esta passagem extraordinária :
“ Sacrifiquei tudo a quê? Sacrifiquei o melhor da minha vida ao vácuo. Ofereci lhe em espetáculo a minha dor. Mas então que existe? Qual  a diretriz da minha vida ? Qual a ilusão com que hei de encher isto ? E para que hei de viver? Qual o sonho imenso capaz de substituir este sonho? Que é Deus agora? Deus é tudo e nada. É uma força. Deus é uma lei inexorável. Mas então tu que podes tudo-tu não podes nada.   És uma lei- e hás de cumprir essa lei. És um destino  e não podes dar um passo fora desse destino. Não vês, não ouves, não sentes. Eu sou uma insignificância e valho mais do que tu. Porque eu grito, eu sofro, eu atrevo-me. Amanhã quebro o meu destino. Tenho uma consciência. Sou ilógico e absurdo. Debato-me. E tu, Deus, não passas duma força  cega e estúpida. Não me serves de nada (…)

 

Um Deus-força, um Deus que não se comove com os meus gritos nem as minhas súplicas, não me interessa. Um Deus que caminha para um fim que não atinjo, é um Deus absurdo (…)” ( Raul Brandão, Húmus, idem, p. 106).

 

Esta longa citação de Húmus é particularmente poderosa pela ideia de Deus/absurdo que nem Pessoa alcançou de uma maneira tão intensa.  Em 1917 escrever assim  era  ser moderno, tal como Joyce ou outros grandes da Literatura Mundial.

 

Sem dúvida que Brandão não se comoveu com Orpheu, provavelmente por pertencer a uma geração mais velha. Mas Húmus é uma pedrada no charco é romance, é prosa poética, é desconstrução.

 

Herberto Helder em 1967 parte da literatura de Brandão para os seus voos poéticos.

 

Vergílio Ferreira foi um leitor e divulgador incondicional de   Brandão.  Na Contra Corrente referencia que o melhor da Filosofia em Portugal se encontra  nos poetas e escritores, nomeadamente Pessoa e Brandão.  O escritor refere mesmo  que existe com a modernidade o conceito de romance-problema , bem longe do lado de espetáculo  de Balzac ou Tolstoi.  O narrador tradicional da contemporaneidade é alterado e já não existe uma concepção de história com  ordenamento de episódios , mas sim  o labirinto  e a errância. Já não se trat< de narrar uma estória, mas de problematizar.

 

Com Húmus desagrega-se o naturalismo ainda vigente e reaprende-se a filosofia e o questionar tudo. O poeta e ensaísta David Mourão-Ferreira já o tinha dito: Raul Brandão é um precursor  do   Novo  Romance francês.

 

A angústia da existência, a vertente hipnótica da morte, o absurdo preenchem um imaginário de modernidade literária e até filosófica. Joyce, Virginia Woof, Kafka partilham estas inquietações.

 

O teatro de Brandão também é particularmente fecundo.  Jesus Cristo em Lisboa, em colaboração com Teixeira de Pascoaes (1927) ombreia com o teatro de  Valle- Inclán em Los Cuernos de Don Friolera (1921).  Peças que apelavam à mudança e já eram de vanguarda. Percursores do teatro de vanguarda.  Também aí, Brandão esteve à frente de Pessoa. Também a peça  O Gebo e a Sombra (1923).

 

Aquando dos 150 anos do seu nascimento em Março de 2017 foi republicado o livro  O Pobre de Pedir, livro póstumo com a obsessão da morte.  Desde 1923 gravemente doente, Brandão  conviveu com a ideia de morte de um modo desassombrado. Também as  Memórias foram reeditadas em 2017,  expoente máximo do memorialismo em Portugal.

 

Em suma, em   Brandão surgem  personagens grotescas como pobres, palhaços, prostitutas, velhos, etc. Mas  o diálogo com a  eternidade ou com o trágico da existência ganha ao grotesco e ao dissemelhante. A entropia na literatura. O caos e a desordem.
 


Obras publicadas]

- Impressões e Paisagens (1890);
- História de um Palhaço (1896);
- O Padre (1901);
- A Farsa (1903);
- Os Pobres (1906) (eBook);
- El-Rei Junot (1912);
- A Conspiração de 1817 (1914);
- Húmus (1917) (eBook);
- Memórias (vol. I), (1919) (eBook);
- Teatro (1923);
- O gebo e a sombra (1923);
- Os Pescadores (1923);
- Memórias (vol. II), (1925);
- As Ilhas Desconhecidas (1926);
- A Morte do Palhaço e o Mistério das Árvores (1926);
- Jesus Cristo em Lisboa, em colaboração com Teixeira de Pascoaes, (1927);
- O Avejão (1929) (teatro);
- Portugal Pequenino, em colaboração com Maria Angelina Brandão, (1930);
- O Pobre de Pedir (1931);
- Vale de Josafat (vol. III das Memórias), (1933).

 

Pedro Eiras, Com Esquecer Fausto. A fragmentação do sujeito em Raul Brandão, Fernando Pessoa, Herberto Helder e Maria Gabriela Llansol, ganhou o Prémio Prémio PEN Clube Portuguêsde Ensaio referente a obras publicadas em 2005.

 


Bibliografia

 

FRANCO, António Cândido (1996): "O romance lírico de Raul Brandão", in Poesia Oculta, Lisboa, Vega, pp. 47-51.

 

GOULART, Rosa Maria (1990): Romance Lírico — O Percurso de Vergílio Ferreira, Lisboa, Bertrand.

 

MACHADO, Álvaro Manuel (1984): Raul Brandão entre o Romantismo e o Modernismo, Lisboa, ICALP, Bibl. Breve.

 

(1995): "Pensar a literatura: Vergílio Ferreira do físico ao metafísico", in Fernanda Irene Fonseca (org. e coord.), Vergílio Ferreira (Cinquenta Anos de Vida Literária), Actas, Porto, Fundação Eng. António de Almeida, pp. 361-7.

 

MARTINS, J. Cândido (1995): "Onomástica na ficção de Vergílio Ferreira", Diacrítica, 10 (1995), Revista do Centro de Estudos Humanísticos da Univ. do Minho, pp. 165-203.

 

MOURÃO, Luís (1996): Um Romance de Impoder. A paragem da história na ficção portuguesa contemporânea, Braga-Coimbra, Angelus Novus.

 

Mourão-Ferreira, David (1992): "Releitura do Húmus", Tópicos Recuperados, Lisboa, Caminho, pp. 181-189.

 

PEREIRA, José Carlos Seabra (1995): História Crítica da Literatura Portuguesa (Do Fim-de-Século ao Modernismo), Lisboa, Verbo, pp. 269-281.

 

REYNAUD, Maria João (1995): "No limiar da Modernidade: Raul Brandão", in M. Fátima Viegas Brauner-Figueiredo (org. e co­ord.), Actas do IV Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas (Universidade de Hamburgo, 6-11 de Set. de 1993), Lisboa-Porto-Coimbra, LIDEL, pp. 819-826.
 

 

Cecília Barreira – CHAM/FCSH

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