ANO 5 Edição 71 - Agosto 2018 INÍCIO contactos

Dario Silva


Poemas

Antão

 

Amo-te, Antão, as tuas coxas!
Louvou-te meu olhar de afetação
No balanceio imodesto das pregas
Quão justas, as tuas, varão!

 
Amo-te, Antão, as tuas coxas!
Se pelicas ou se espichas às cegas
Uma fitada ordenada atravesso
Como se apalmasse a visão

 

Amo-te, Antão, as tuas coxas!
Nem um riso, desaviso compresso
Nem um passo, antevista cisão
Furta a mirada da compostura

 
Amo-te, Antão, as tuas coxas!
Que bem afazeres, se te amado
Mas tão mais rija e formosura
Que o amar se defraudado

 

Amo-te, Antão, as tuas coxas!
Bem quis mirar o mais íntimo
Mas tão mais rija e formosura
Que cedeu o amar ao ânimo

 

01/03/2017


 

 

 

 

 

Erico

 

 – Oh, Erico, como és cândido!
Sê gentil – e não! Toca-me a mão
No ventre, e vejo se te largo, e olvido
Que não – quero ter-te por marido
E só me cedo ao ardor – à contramão

 

– Oh, Erico, como és cândido!
Não, sê gentil! Dá-me repouso
E me iluda a calmaria, que a sós
Me contenha a vaidade, e ouso
Permitir-me a solitude a nós

 

– Oh, Erico, como és cândido!
Se me sondas – a minha incompletude
E tê-la me agrada e me redime
Sê solícito, pois que amo a plenitude
E não vaneço o pecado que oprime

 

– Oh, Erico, como és cândido!
Amar-te é escambo da ternura:
Lampeja o riso e o peito lacrima
Fica, Erico, com tua fel candura
Que oferto a ti minha estima
 

– Oh, Erico, como és cândido!
Que me dizes, desta afronta, enamorado?
Não me queres, como quero a plenitude?
Se te silencias, não me volvas mais – pecado!
E aceita, Erico, desta sorte, a solitude…

 

20/08/2013


 

 

 

 

 

Senhora

 

Dei-me a sós com mia tontura
E nem de mim eu recordado
Nem teu riso enamorado
Ou mia vileza vã, impura.

 

Que redoma má acudiria?
Não a quero. Outro vaso.
Que oh! Teu fito não viria
Ter-me em mim novo caso.

 

Oh, não serias, Senhora!
Antever-me um dissoluto
Nem de mim, o arguto
Q’vista outra me penhora!

Não que és uma maldita
Mas me tenho a caridade
De não te ferir a dita
Em mim, perder a mocidade!

 

Não escuses minha deixa
Que honroso é meu amado
Não te arrimes, posta queixa
Outro a espera; o meu, errado!

Eu me vou, o sem-vergonha!
Não pranteies mia partida
Teu moço é outro – supõe
E não adies nossa ida.

 

16/12/2013

 

 

 

 

 

 

Da Nua Anônima

 

Mi caminho restou-me antiga rua
Enluarada! – Quão pracejo desta vida
De outro acaso, hora imprevenida
Protegido por travessia nua

 

Augusto instante, ombro alargado
Ríspido lábio, perene domado
Vício da carne, dano secreto
Enamoro enaltado discreto

 

Posto que logo d’amante rotura
Acanha o traquejo da via escura
Ditou-me a esperança do namorico
Mas sei que saudoso me resta do fico

 

Que fito dos olhos terei no outrora?
Da mão apalpada na pele do agora
Restou-me a saudade do namorico
Que sei da esperança do fico

 

25/10/2013

 

 

 

 

 

 

Alarido

 

Se me amas, que não dizes que me amas?
Se me amas, que só dizes que me amas?
Meu fel bromo enamorado
Que notado hás de meu terno
Amor de ti fiel guardado?
Que olho meu te é inverno

 

Se me amas, que não dizes que me amas?
Se me amas, que só dizes que me amas?
Me pranteio, choro rouco
Vista alguma me dou todo!
Tal da tua dou-me pouco?
Não crês querer-te tudo?

 

Se me amas, que não dizes que me amas?
Se me amas, que só dizes que me amas?
Verso algum dá-me em troca
Que recebo coisa amalta
Flecha solta rumo à broca
Que te quero, dou-te falta?

 

Se me amas, que não dizes que me amas?
Se me amas, que só dizes que me amas?
Bromo, que resolva a saliência
Que de mim te quer cantado
Rumo venha, tem decência
Tu de mim enamorado

 

Se me amas, que não dizes que me amas?
Se me amas, que só dizes que me amas?
Guto revel, o meu esquerdo
Peito aqui, de ti amado
Pranto tolo meu entrego
Falto amor teu, amo cego

 

25/10/2013


 

 

 

 

 

Sedição

 

Sede comigo, Ó Deus, que me dou aflito
Ó Pai, que não me venha a perecer,
Que sou manco, e se esmoreço, um falecer
Moribundo deste mundo, vão cogito!

 

Dai-me vossa mão por segurança
Que meu gozo é vossa face por herança
Se me ouso quebrar a vossa destra
Afora Sua mestra, Q’ serei senão quebranto?

 

Por que, ó Deus, que me sondas
E me enquistas em amar-me – um pecador?
Qual razão me ousará declará-lo?
Pois de bem em mim nada demanda
 Dize-me, por que tanto me avistas?
– Que comigo carrego o vil pecado!
E tão rouco em socorrer-me Tu te prestas?
Não há fugido de mim o teu grito!

 

Sede comigo, Ó Deus, que meu ser é contrito
Oh! Não valho a busca – tanta ida!
E, do vosso nome, desonroso, um cabrito
Que me quereis, Pai, cobrar-me a vida?

 

Oh! Minha paga a tua lida é desatento!
Eia, que teu Amor é Graça, o sei
– Tal minha fortuna, teu alento!
Lenitivo do praguejo que pequei!

 

23/09/2013


 

 

 

 

 

Rute

 

Rute, amada esposa minha
Faltoso estou à tua cama
E já algum pranto derrama
Meu peito, nesta espinha

                         
Amo a ti e a minha cria.
Tu bem sabes que os amo
Mas tão triste amor faria
Que te faço este desamo

 

Rute, tão só por esta noite.
Não desfraldes em pranto
Nem te tomes como espanto
Que só teu é meu acoite!

 

Oh! Amada esposa – que arrimo!
Quisesse o tempo senil, isso levado
Do teu homem, a face que oprimo
Um viril, já muito a mim castigado!

 

Não o quis o tempo, robustece...
E nem mais luto, a dor espairece
Que falta, um coito? Se amor, Rute
Tão teu é verdadeiro? Embuste?

 

Oh! Tão amo a ti e a minha cria!
Que – Oh! Sem ti ou minha prole
Saberia viver nenhum momento
- Não te quero, amada, como fole!

 

Bem sabes, Rute, que uma outra
Não deitarei a mesma cama
Nem algum sangue bojo derrama
O meu prazer – que uma outra?

 

Não te amanses nem desdenhes
Se bem amas a mim como a amo
Contém meu amor, te amo
A falta, à noite, não estranhes

 

04/04/2015


 

 

 

 

 

Renúncia

 

Negarei tua prece, Eitor, porque amo
E me quero que tu te desfaleças
Do meu – não! Rogar mais preces
Mas que da busca de benesses
D’amor mundano esmoreças

 

Negarei tua prece, Eitor, porque amo
Mia vista à tua é perdimento
Que moço algum demoraria
Soubesse q’amor eu alento
Amasio nosso ultimaria

 

Negarei tua prece, Eitor, porque amo
Q’amar que sei tu não entendes
Maior, me sei, que amor conheço
Tua prece e outra – não descendes
Amor que sei, teu é avesso

 

Negarei tua prece, Eitor, porque amo
Teu querer por mim to nego
É maior mi amor a ti, à completude
Pois amo-te além-ego
Negado a ti, amor que tenho, virtude

 

Negarei tua prece, Eitor, porque amo
E não convém o amor, que sei
Amar-te como queres
Que o meu negado to dei
Tal sim não há malqueres.

 

Negarei tua prece, Eitor, porque amo
Vai-te, que sou-me teu, tal amigo
Caso tornares, isto me é castigo!
Que bem sabes do meu não. Se tornares,
Não há de apavorar-te perdão.

 

15/02/2014


 

 

 

 

 

Rosevaldo

 

Murici, cafuzo mal matuto
Oh! Tu não me venhas com teus desdéns
Oh! Quão as palmas tuas – certeiras
Tão bem de ti desdenham com améns

 

Que miradas tuas? Nas ladeiras
Oh! São nas minhas. Oh! Não nas margens
As de além das barcas, o Piauí
As minhas que abarcas as miragens

 

Ah! Tuas palmas florescem um Auí
Não me tenhas como a um Osvaldo
Tão mais um das palmas de buriti
Tu me saibas rubro, Rosevaldo
Murici, que te acanhem os desdéns
Desmatutes, tal desmatutaram
As tuas palmas. De mim que a ninguéns
Nelas empalmares como amaram

 

08/06/2015


 

 

 

 

 

Damásio
(Diálogo)

 

I


Que Varão te degusta a carne, Helena?
E te paladeia o ventre, um glutão?
Que Rebento toda te garfa, pequena?
Té das sobras sacia, outro não?

 

Se Damásio te ofertasse de si
E de todo ruminasse de ti
Palitaria el’ o riso fugido
Do moço versado em fingido

 

Oh, Helena, te assombrarias!
Se acaso soubesses do fato
De Damásio querer das Marias
E se valer além, doutro ato

 

Que sabida não pranteasse
A sorte trazida do Afeto
Damásio é também o inverso

 

Oh, Helena, me cria morresse
Q’não querias Damásio de perto
Sabedora ser el’ um perverso

 

II


Oh, amigo, que a ti parece?
Damásio não mais só a mim estima?
O Rijo quedava comigo, tu crês?
Agora tão logo se vai, o cadimo

 

Damásio de outrem se apetece?
Cogito não tê-lo por sóbrio
Caso ébrio dele saibas – Oh, opróbrio!
Oh, amigo, não te emudeças!

 

III


Varoa, a mim me permite, que vejo
teu bojo carece! Não erro nele,
Helena! Que Damásio de pele
outra, pequena, encontra gracejo

 

IV


Amigo, que Moço! Que prenda!
Damásio não poupa contenda
Se a si vale a carne comida?
Que morro, minh’alma é despida!

 

V


Helena, não te faleças! Bojo algum
a Damásio consola! Pagão destemido
arremata outra coisa, com um
não contenta, moça, quer outro comido

 

VI


Que Rapagão meu moço se presta?
Buscar em outrem as delícias
Minha vista por ele suspira! Me resta
Que bocado de suas carícias?

 

VII


Helena, sê tola, varoa aviada!
O riso do Varão é furtivo
El’ não quer a ti desposada
Tomou outro rumo, o Altivo

 

23/10/2013

 

(fotografia de Javier Matta)

 

Dario Magalhães Sucupira Barradas Lima e Silva (Brasília – DF, 15 de dezembro de 1992) é poeta e habita a cidade de Braxília. Nasceu entre os pilotis e o verde da 308 Sul. Prestou vestibular para Geografia, na Universidade de Brasília, qual obteve aprovação. Todavia, abandonou o curso no 2º período, para dedicar-se à profusão poética.
Site: https://silvadario.wordpress.com/
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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2018


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Foto de capa:

PABLO PICASSO, 'Deux femmes courant sur la plage (La Course)', 1922


Paginação:

Nuno Baptista


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