ANO 5 Edição 71 - Agosto 2018 INÍCIO contactos

Diogo Fernandes


Uma poética da perda

Disse-me o ancião, avô, ave ou peregrino, não há outro
caminho a não ser este que desce,
contornando o vale.1

 

Atravessa-se a poesia de José Agostinho Baptista com uma inconspícua sensação de espanto, como se de uma peregrinação se tratasse, mas sempre com a percepção de que se percorre um caminho inexorável, a cujo destino não é possível escapar. Desde o seu primeiro livro ― Deste Lado Onde, publicado em 1976 ― até ao último título ― Caminharei pelo Vale da Sombra, em2011 ―, distam quase 40 anos, que se desdobram em 21 obras (incluindo a sua antologia poética, Biografia, publicada em 2000), e dessa vasta produção literária é impossível não salientar, senão a sua exigência, a capacidade inesgotável de retratar, continuada e coerentemente, os elementos que a atravessam.

 

Os versos acima transcritos, retirados do seu último livro, são o reflexo exacto desse percurso e desse movimento, e fazem recordar a epígrafe com que se inicia o seu segundo livro ― Jeremias o Louco, 1978 ―, retirada de Quatro Quartetos, de T. S. Eliot «Vai, vai, vai, disse a ave: / o género humano não pode suportar muita realidade». Se desde o início, em Deste Lado Onde, a poesia de José Agostinho Baptista revelava uma vertente melancólica bastante pronunciada ― recorde-se, por exemplo, uma passagem de “Romance”, penúltimo poema da sua primeira obra: «era aí que o coração crescia, oprimido pelas invernias, / obsessivo no silêncio e na doença; // entretanto, a casa acumulando presságios e ruínas, guardava / o ocaso e o medo de uma aldeia ameaçada» ―, a partir de Jeremias o Louco irá adquirir contornos expressivos de uma viagem por vezes alucinada, por vezes lancinante, um poema contínuo que se confunde com uma fuga através dos séculos e dos continentes, por lugares destruídos pelas chamas ou já em ruínas ou reduzidos a cinzas, visitados por Jeremias, o peregrino da sagrada loucura.

 

Apesar de notória, a influência da poesia de Eliot nesta obra (manifesta, através da referência de Quatro Quartetos, ou implícita,opondo-lhe a leitura de A Terra Devastada) será tão importante quando considerada numa perspectiva mais abrangente, porque determinará a inflexão que o resto da sua poesia irá adoptar, sendo retomada em O Último Romântico, Morrer no Sul ou O Centro do Universo. Recorde-se o início emblemático de Morrer no Sul: «Às portas de Al Kibir via-se o templo em / ruínas». Podiam ler-se, no entanto, indícios desta influência já no seu primeiro livro, no poema “A rigorosa inutilidade de tudo”, não obstante o facto de à loucura se optar pela expressão de um cansaço quase existencial, como forma de reagir às vicissitudes da condição humana: «foi nesse tempo de meditação que li rilke e eliot e / sobretudo / os viajantes do cognac e da morfina»; como também havia já indícios dessa devastação do espaço físico («outrora aqui foi a casa, o vale sereno de antes da destruição, / quando todos partiram para as incendiadas terras do mundo») e de uma possibilidade ou desejo de alienação através da procura de lugares longínquos («Já partiram um dia as embarcações guerreiras, as / mulheres do trigo em / setembro, / os viajantes enlouquecidos»), no poema que dá o título à mesma obra.

 

A coerência deste caminho evidencia-se ― ou, melhor, consagra-se ―,  no último livro que compõe o seu percurso poético, Caminharei pelo Vale da Sombra («Pousa e repete, / quase em querer, / três palavras que sejam as do vento, / antes de a tempestade murmurar que o seu ofício é / enlouquecer, / espancar o mundo, / desordenar a simetria das acrópoles em ruínas. / Em ruínas, / navego na barca dos meus rios»), e poder-se-ia sintetizar por «De mim, uma asa chega ao teu ombro. / Atormentada, a ave que fui, ainda vive, / mas, / incessantes, / as ferramentas da loucura trabalham, / rasgam subterrâneos, / escavam, com pás de óxido, uma arqueologia indócil, / multiplicando, numa ardósia, algumas cifras ao / desvario».

 

Sofrendo diferentes formulações ao longo da sua poesia, a necessidade de alienação, como resposta a uma dor insuportável, irá encontrar aqui um movimento de oposição, sob a forma de uma posição solipsista, um despojamento de tudo o que não é essencial («Talvez fosse esse o destino: / despojar-se, despir-se, abandonar as searas,  desnortear / o rumo dos navios»), consequência da aceitação gradual de uma realidade, por vezes, excessiva. De facto, lê-se esta obra como quem atravessa o deserto ― levando apenas o essencial: «Escrevemos, / cantamos às vezes, / conhecemos o fervor dos livros, / perseguimos o rumo das caravanas, nos vastos desertos / onde nos perdemos. / Pouco resta do que trouxemos». À fúria e à loucura substitui-se a amargura, que mais tarde se converte em melancolia, numa longa reflexão sobre a consciência da perda: «Foi há muito, / este sonho. / Agora, estou de pé sobre as escarpas, / imaginando as caravanas sem rumo, / preso às cruéis manhãs do teu luto, / de onde partirei depois, / até ao vale da sombra». A renúncia à estética alucinada de Jeremias o Louco, ou à alienação de outras obras, traduz-se numa opção deliberada pela lucidez, pela aceitação da perda e, inevitavelmente, pelo luto: «Ah, / se aqui estivesses a ladrar à inutilidade das odes escritas / com sílabas amargas,/ se perseguisses, incansavelmente,/ a caravana dos nómadas, / verias que não vou por aí, / que ficarei para trás, / que percorrerei sonambulamente um rosário de pérolas».

 

Se já em Jeremias o Louco estava subjacente uma noção bastante acentuada de perda («tudo o que a Vida afinal não destruiu, / e foi tão pouco»), em Caminharei pelo Vale da Sombra essa percepção adquire uma dimensão mais intensa, sobretudo pela sinceridade e honestidade com que é tratada. Quando já nada nos resta, devotamo-nos à memória, à recordação do que se perdeu ao longo da vida («Sou tão pouco. / À beira dos ciprestes, / penso naqueles que perdi. / É por eles que os sinos dobram?»), daqueles cujo amor outrora definiu a nossa existência («e ao caminhar pelo vale da sombra, sem olhar para / trás, / virão ao nosso encontro aqueles que amámos, / pois no amor, / impetuosamente, / respira uma orquídea que é, por fim, aquilo que fomos»). No caso da poesia de José Agostinho Baptista, estas ausências conduzem a uma ‘celebração’ da perda traduzida pela recordação constante dos elementos mãe, amada e cão, fiel companheiro que já em Jeremias o Louco, como na Odisseia, de Homero, esperava o seu regresso a casa, após uma viagem de contornos épicos («E ardendo, balbucio algumas palavras: / mãe, amada, / amigo que ladravas à lua», ou «ser esta despedida, / este pavor de assistir ao teu fim, / de recordar as tardes em que falava contigo e com elas, / a mãe, / a amada»).

 

Parece ser este movimento de perda que dá resposta à pergunta enunciada em O Último Romântico («Como redimir um clima insondável, / como retomar uma laboriosa ortografia, / inebriadas formas e a fala suspensa?»), porque o despojamento de vários referentes ou influências que constituíam a génese da sua poesia ― o fascínio do Sul e da cultura mexicana, temas como a viagem, a alienação ou a representação de um espaço físico devastado ― acabam por recentrar a linguagem em si própria, alimentando-se o discurso de si mesmo.

 

Sobra a incerteza e a apreensão de percorrer um caminho a partir daqui diferente, mas não inesperado, solitário e final porque se atravessa o Vale da Sombra  da Morte («E se fui príncipe outrora, / se fui o mago e o encantador de serpentes, sou, / por fim, / aquele que caminha para o vale da sombra, / e tenho medo. / Tenho sede»). A influência do texto bíblico é aqui fundamental, como também já o era em Jeremias o Louco, quando o discurso se aproximava de uma formulação que se assemelhava a uma oração, ou quando remetia para a figura do profeta Jeremias; mas a perspectiva que adopta difere substancialmente, seguindo uma expressão mais nostálgica que já nos havia sido sugerida em Paixão e Cinzas ou em Agora e na Hora da Nossa Morte. Revela, voluntária e conscientemente, a aceitação da sua condição humana, da sua falência e do seu cansaço, da dimensão da sua dor e do seu luto, que não esquece a memória de um passado distante, porque é necessário recordarmo-nos do caminho que percorremos se queremos chegar ao nosso destino: «Não me peçam para contar outra vez o que já sabem. / Fugi, / carregando tantos fardos que não eram de trigo nem / aveia. / Eu trazia o peso de outras eras. / E se me perguntassem quando, onde, porquê, / eu diria sem temor: / é esse o preço de deambular pela floresta negra».

 

Dessas recordações remotas que aparecem, a espaços, através da distância do tempo, destacam-se a memória de uma paixão («oh, / desassossegada adolescência de espadas convexas, / fio da lâmina, / cortando o grito como se fosse uma espiga. / Assim amadurecias»), que faz relembrar o poema “E as casas são brancas, loucamente brancas”, de Deste Lado Onde («entretanto tu atravessas a minha poesia com espadas de / neve / e falas de casas como quem fala do surdo rumor do casco / dos navios»); o som de um violino («E se a canção se ouvir depois, / que a acompanhe um violino») que surge recorrentemente na poesia de José Agostinho Baptista, mas com especial relevância em Paixão e Cinzas, no poema “México” («Quem conspira em silêncio, atrás da loucura? / Um violino toca solitariamente nos templos vazios do mar. / Ténue, arde a chama na fronte do violinista cego»); a ligação ao Sul, quando se recupera um momento em que a mãe se lhe dirige, dizendo: “Meu filho, / meu enigma azul dos céus do sul, dizias»; e, obviamente, as viagens realizadas em Jeremias o Louco, quando se enumeram alguns dos elementos que tanto a caracterizam: «Descende e eleva-te como a pirâmide no planalto da / minha ausência, / (…) e serei, quer queiras quer não, / uma promessa de aves mudas, / um altar profano, / o senhor das alucinações», ou «Ao voltar as costas, amaldiçoei os escravos, os / tribunos e as cortesãs, / ateei os incêndios, contemplei a devastação. / Se ouvi gritos, esqueci. / Esqueci toda a humana condição. / Eu fui as vestes rasgadas do peregrino, os pés descalços, / a oração».

 

É entre o diálogo permanente com o resto da sua obra e a recordação (voluntária, porque consciente) da memória daqueles que se perdeu, que o discurso do sujeito poético de Caminharei pelo Vale da Sombra se vai alimentar e desdobrar, continuamente. Imaginamo-lo sozinho, na sua ilha, por fim (reencontrando um tema e uma terra que é evocada desde logo no primeiro livro e que se consubstancia em Canções da Terra Distante), rodeado pelos vultos que pertencem ao seu passado, imagens que não podem, no entanto, substituir a sua ausência («tu não estás lá nem aqui, / tu és a ausência que perdurará nos baldios de giestas / supremas. / Não caminharemos juntos pelo vale da sombra, nem / algures, / pela estrada larga»). Imaginamo-lo também cansado, porque o caminho foi longo e excessivo, e enfrentá-lo implica uma dor tremenda («Lateja a fonte. / Lentamente, / por expressa vontade, por temível audácia, / reabre-se a ferida até à dor insuportável, / e ao cimo dessa dor, despenho-me»), uma coragem que não teria sido possível, anteriormente, porque a realidade era insuportável («Lembrar, / é um ofício atroz, / é o preço a pagar por aquilo que amámos»). Despido, mas não completamente nu, porque se despojou apenas daquilo que não era essencial. Imaginamo-lo, por fim, esquecido, porque se isolou («Não imaginas a desolação de quem perdeu o pouco que / teve») e perdeu a fé na humanidade («E tu, leitor que não me amas, / habitante das trevas, / (…) fecha de vez este livro cujas palavras queimarão os / teus dedos»), mas preparado para enfrentar a eternidade, no instante derradeiro de um caminho implacável que o conduz até ao vale da sombra. Da Morte? É pouco provável, porque algures a sua resolução se converteu em desafio e as suas palavras num discurso que, como a literatura ―  e já desde um tempo bíblico ―,  se torna inesgotável e não poderia nunca ter fim:


Orámos.
Ao longo do vale, à sua sombra,
fomos a inocência,
o cordeiro ensanguentado, nas páscoas do ocidente,
antes de aqui construirmos,
com vagar, sem tréguas,
uma habitação pródiga,
uma habitação,
entre a calma e o desespero,
tão-somente a eternidade de cada instante, uma
voz alta,
um rufar de tambores,
anunciando o que não se alcança.
         Nunca esqueceremos.

 

Nota

1 Baptista, José Agostinho. Caminharei pelo Vale da Sombra. Assírio & Alvim, 2011.

 

Diogo Fernandes

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Paginação:

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