ANO 5 Edição 70 - Julho 2018 INÍCIO contactos

Cláudia Cassoma


Amor ao primeiro orgasmo

Na primeira noite tiveste-me imediatamente sob os teus lençóis acostumados. Dedicaste-te inteiramente ao alcance do mais alto grau de satisfação sem medo de te definires fácil, oferecida, ou qualquer outra coisa pejorativa. A tua petulante figura emanava uma fragância própria de mulher despreocupada. Sabias exactamente o que querias e ao encontrares te rendeste. Pensei em ensinar-te a minha língua, mas já me tinhas beijado. Pensei em mostrar-te as minhas vias, mas já te tinhas entregado. Pensei em saber do teu agrado, mas, de orgasmo, já te tinhas banhado. Por isso, deitei-me em ti sem previsões de me levantar.

 

         Não sei quantas horas teve aquela manhã, nem me dei conta de quando ela eclodiu. Do que pareceu um breve repouso, despertei-me ao ouvir tordos. Parecia que sobre o céu que anoiteceu calmo e frio deambulava um bando. A complexa melopeia foi o único sinal que tive de que um dia novo tivera começado. Por outro lado, poderia também dar-se o caso destes, assim como eu, estarem acometidos de paixão e, por isso, não cessavam o cantar nem com a chegada das trevas. Cheguei a questionar-me sobre como seria uma vida onde nossas vidas fossem uma. E,  em meio a ternas inquietações, o cantar dos passarinhos que sempre me incomodou, naquele instante, soou diferente. De repente, já era mais melódico e empolgante, já transmitia algo muito mais aperiente. As coisas deixaram de simplesmente existir, passaram a ser.

 
         Pelo espaço me ser desconhecido, não sabia se existia abertura para o dançar do ar, mas assumo que sim, e essa devia estar mesmo paralela a mim. Havia uma longa cortina na abertura a meia altura da parede e isso fazia com que o vento entrasse soletrado. A brisa soprava o cortinado adentro. Cada nota daqueles madrugadores vinha com um ar mais contaminado do que a outra.

 

         Eu devia estar num subúrbio; não que importasse, apenas foi fácil notar, uma vez que o barulho dos carros chegava com os boatos das bocas madrugadoras e o alaranjado do astro do dia chegava com o mau cheiro próprio de locais negligenciados comprometendo o meu desvairado conforto.

 
         Um tecido fino e macio revestiu a minha dureza; pareceu-me seda. Cheguei a essa conclusão ao notar o seu leve dançar entre a corpulência dos meus dedos. Ao pôr as fibras em mim, de tão leve que era, o pano me banhou com arrepios deixando os meus pêlos ainda mais hirtos. Se em terra houvessem nuvens, e se as pudéssemos tocar, provavelmente seriam assim e resfolgar-nos-iam como aquelas almofadas.

 

          A escolha desse pano de bastante resistência, maciez e alta qualidade, de corpo leve e de aparência cintilante me fez pensar em ti como mulher requintada. Não que não tenha considerado ostentação; o fiz, e foi fácil. Reparei no arrabalde em que tinhas a tua casa e o que tinhas dentro dela e o contraste facilitou tal conclusão. Mas, os sinais que descartavam essa possibilidade estavam em maior número, claramente, não passavas de uma mulher aprimorada.

 

         Pelo temulento dançar do colchão imaginei que eu não estivesse nem no rodapé da tua primeira página; haviam outros, talvez muitos. A tua astúcia te expunha. Conhecendo a minha remota arrogância, coisas como estas matariam o meu interesse no espaço de um instante. E se me pusesse sob o inerente poder falocrata, certamente já me teria ido. Ainda bem que dessa vez foi diferente. O que descrevi foi exactamente o que me deixou ainda mais desvairado. Ao saber da extensão do teu historial não só me enchi de vontade de me integrar como ansiava saber sobre o teu classificar. Ansiava a honra de te deixar desvairada.

 

         Encantei-me com a lonjura da tua vivência. Queria conhecer as tuas experiências. Queria que me privilegiasses com as tuas loucuras. Queria que colocasses as algemas no meu pulso. Queria que segurasses na argola que, diferente da outra, não estava presa à cama e que a cercasses em meu carpo. Queria que usasses em mim as vendas que sei que tinhas escondidas algures. Queria que com isso me privasses de testemunhar a tua viagem pela vilosidade do meu corpo. Queria sentir-te. Queria-te nos buracos mais finos da minha pele! Queria que me abstivesses de qualquer esforço. Queria que me desses a oportunidade de fazer parte do que a meu ver era um longo historial orgástico. Estava-me nas tintas para as críticas que viriam com o teu currículo; aliás, o que realmente me interessava era a oposição de todas as teorias que até aquela altura roíam os meus miolos. Queria-te!

 

Deitei-me em ti sem previsões de me levantar. Do balcão do bar a este da  tua casa, a viagem não foi morosa. Passamos alguns semáforos, trocamos alguns olhares, insinuamos umas vontades e, quando demos por nós, já não havia mais ninguém. Sob a nudez do dia, as tuas pernas fizeram do meu ponto-Y o vértice do teu ângulo. E, o teu ponto-X se fez meu palco.  Os sucos dos teus beijos ocasionaram o transbordar dos meus. Os arrepios causados pelos teus abraços endureceram os meus braços expondo a veemência dos meus desejos.

 
         Pensei em saber do teu agrado, mas de orgasmo já te tinhas banhado. Ainda que por breves segundos, concluímos o ciclo em nota alta. Senti os soluços rítmicos que emitiram os teus lábios inferiores. Assisti o relaxar das tuas feições e sorri também. Não sei se tive muito a ver com tudo aquilo, mas não podia estar mais feliz por testemunhar um momento tão abrasado.

 

         Pensei em mostrar-te as minhas vias, mas já te tinhas entregado. Notei que eras dona de ti própria quando dispensaste qualquer ajuda minha. Olhaste pra mim, pronto, e já sabias por onde ir. Percorreste sem reservas a distância entre o meu hálux e a minha última calvície. Paraste a meio corpo e como bomba da melhor marca, desembuchaste o meu bueiro.

 
         Pensei em ensinar-te a minha língua, mas já me tinhas beijado. Foste desigual e isso está longe de ser novela. Nos meus outros passados precisei trabalhar um pouco mais. Não só no primeiro bar como no segundo também, mas contigo tudo foi muito mais fluente; sem giros. Queria ir lento: olhar nos teus olhos, sorrir. Tocar na tua mão como se estivesses a ponto de fugir e outra vez sorrir para que te convencesses de ficar. Queria colocar a palma da minha mão na parte posterior do teu pescoço e, de forma leve, trazer-te a mim. Queria assegurar-te que tudo estaria bem, mas isso já sabias. A tua afoiteza guiou-te e livrou-te do chavão em que quase me transformei.

 

Sabias exactamente o que querias e ao encontrares te rendeste. No primeiro encontro dos nossos olhos, decidiste que seria eu. Tiveste-me como o próximo.  Posso estar errado, mas vi algo na impudência dos teus olhos. O brilho era tesão; era determinação. E hoje entendo que, ao contrário do que foi pra mim, pra ti, esse brilho não passou de a(l)or. Encheste-te de uma necessidade imperiosa que te levou à prática dos actos mais irrefletidos sobre os quais fui alguma vez submetido. Em momento algum te deste como confundida.

 

No lugar do (l) estaria um (m), tal como esteve pra mim, não fosse a transparência do teu ímpeto. Fui tolo ao julgar que serias como as outras; que estarias nas linhas dos comentários ofensivos de seres machistas. Hoje já não me abalo com isso; entendo! A noite foi preenchida por sinais de que eras desatada eu é que os quis ignorar.

 
A tua petulante figura emanava uma fragância própria de mulher despreocupada e era isso que me prendia. Embora me tivesse equivocado  exorbitando a situação, contentei-me com o que havíamos experimentado. Descobri naquele bar exactamente o que procurava. No meio de toda aquela vulgaridade; ou isso ou a hipocrisia que vestiam as mulheres, foi aliviante encontrar uma mulher nua.

 

         Na primeira noite tiveste-me imediatamente sob os teus lençóis acostumados. Dedicaste-te inteiramente ao alcance do mais alto grau de satisfação sem medo de te definires fácil, oferecida, ou qualquer outra coisa pejorativa.

 

Publicado no livro de contos Ahetu: Vozes Desprendidas. Adquire-o seguindo o link: https://www.amazon.com/Ahetu-Vozes-Desprendidas-Mulheres-Portuguese/dp/0692084835/ref=tmm_pap_swatch_0?_encoding=UTF8&qid=1530557334&sr=8-

 

 

Cláudia Cassoma é jovem angolana, nascida em Luanda, mergulhada na arte de escrever desde tenra idade. Música, canto, teatro, dança, foram (são) outros dos seus devaneios; hoje, além de estudante, amante das letras e dos menores, vive crendo que "o voluntário ajuda quem precisa, contribuindo para um mundo mais justo e mais solidário", e dedica qualquer hora vaga ao trabalho social. Entre as coisas que lhe alegra fazer está a edição do seu blogue; visitar www.claudiacassoma.com é garantia de conhecer melhor esta emergente escritora.

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Revista InComunidade, Edição de Julho de 2018


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Cruzeiro Seixas | 'Longa viagem ao mundo das palavras azuis'


Paginação:

Nuno Baptista


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