ANO 5 Edição 70 - Julho 2018 INÍCIO contactos

André Balaio


Sábado

Cinco e meia da tarde bateu fome de jantar. Nada na geladeira pra comer, vontade zero de ir ao supermercado, melhor entrar nesse bar da esquina, é simpático, peço cerveja e tira-gosto, depois pego o ônibus e vou pra casa dormir, não vai ter nada que preste na TV mesmo, nada que preste em canto nenhum. Entro no bar, toca uma música brega cuja letra diz: eu posso fazer o que quero, eu posso dizer o que penso, não tem ninguém que mande em mim. Parece até um musical do cinema, você passa distraído e ecoa uma canção do nada, a letra explicando a situação, todo mundo se levanta e começa a dançar. Isso no filme. Aqui, só levantou um casal para ir embora depois de pagar a conta. Me enganei, num musical o ator canta, eu não canto, não sei cantar, então minha vida é um filme normal, nem aventura nem suspense e, espero, nunca será de terror. É só um drama, um drama meio parado com um pouco de comédia. Parado demais. Não é Hollywood, é filme francês, desses bem cabeça em que nada acontece. É isso: minha vida é um filme de arte francês em que nada acontece. Tocou a música na cena em que o personagem “eu” passava pensativo na calçada de uma rua do centro histórico de Paris, não, isso aqui está muito de longe de ser Paris, dá pra ver pela sujeira das ruas e os pedintes nas calçadas que é o centro histórico decadente de uma cidade de terceiro mundo, o personagem está numa rua suja e mijada de uma cidade pobre embora não dê pra saber que a rua é mijada, só se eu torcer o nariz e comentar “Argh! Que cheiro horrível! A rua está toda mijada”, o que seria bem artificial num filme. Podia mostrar um figurante mijando no muro enquanto eu passasse, algo comum por essas bandas, mas ninguém está fazendo isso agora, então esquece, deixa só a sujeira da rua mesmo. O garçom oferece uma mesa na calçada, eu recuso, pareceria um solteirão de quarenta anos que marcou encontro pela internet com uma boyzinha, ou um boyzinho e, pior, ainda levaria um bolo, cena ridícula, eu sozinho numa mesa da calçada mirando o horizonte enquanto toca um brega. Dentro do bar há duas mesas vazias protegidas dos olhares curiosos, escolho a do canto e sento com as costas viradas pra parede. Agora tenho visão panorâmica do balcão feito de ripas de madeira com as garrafinhas de cachaça enfileiradas, da radiola de ficha no canto de onde sai a música, do chão de cerâmica e das paredes de azulejo em tom de azul claro, das mesas e cadeiras amarelas de plástico. Há três mesas ocupadas: um casal gordo se distrai mexendo nos celulares, três jovens conversam e riem (tento ouvir o que dizem mas não consigo por causa da música) e um senhor calvo sozinho na mesa mais próxima, camisa aberta no primeiro botão para ostentar uma corrente de ouro, em cima da mesa a chave de um carro com chaveiro de nossa senhora. Deve ser taxista. A posição que escolhi me deixou virado pra ele, evito encarar o sujeito pra que não pense que sou bicha, disfarço, examino meu assento como se houvesse uma sujeira ou amassado no plástico só como desculpa pra me levantar e sentar na outra cadeira, sair do raio de visão do taxista que aliás deve estar sozinho porque levou um bolo de um boyzinho ou uma boyzinha. Agora vejo o bar meio de banda, pelo menos fico mais discreto. Garçom, uma cerveja. Ele mostra duas: uma long neck e outra de 600 ml. Sou de beber pouco e devagar, mesmo assim aponto a maior porque sai mais em conta. Será que é ridículo um homem sozinho se demorar numa cerveja grande como se esperasse alguém para dividi-la? Formiga a pele da coxa esquerda logo acima do joelho, cruzo a perna, puxo a barra da bermuda e encontro uma mancha vermelha pedindo para ser coçada. Deve ser uma micose, sei lá se é micose, só sei que coça, coça muito e agora que descobri coça ainda mais. Na segunda-feira vou marcar um médico, se precisar faltar um dia no colégio troco aula com outro professor, já ajudei Marcelo de Matemática quando ele se operou de apendicite, tenho crédito. Cubro o vermelho da perna com a bermuda, ninguém vai ver. Tenho uma cerveja, um punhado de linguiça cortada com batata frita e um filme pra fazer na minha cabeça, se lessem meus pensamentos diriam que sou doido, que nada, gosto de deixar a imaginação voar. Uma moça espia da porta, entra, flana pelo bar, observa a mim e ao taxista, é magra com o rosto fino, o nariz delgado, cabelo liso e curto, a franja na testa crispada, marcou encontro e o cara não veio. Decepcionada, voltou para a entrada do bar e está virada pra fora. No filme, no meu filme, a garota se chateia, olha o relógio, tira um cigarro (em filme francês todo mundo fuma) e procura fósforos ou isqueiro na bolsa e não acha. Então vem à minha mesa: o senhor tem fogo? Eu me espanto e ela sorri. Não sou tão velho assim, respondo, não tenho fogo, mas o fogo dos seus olhos é suficiente para incendiar essa espelunca. Fogo dos olhos. Fogo dos olhos. Cafona. Incendiar essa espelunca é legal, se bem que tem mais a ver com filme B americano, em filme francês teria que ser mais blasé, diria uma cantada inteligente e ela responderia no mesmo tom. Depois elaboro essa parte, agora estou sem inspiração. Quer sentar?, pergunto em seguida, e ela aceita. Como é o seu nome? Brigite (ficou meio óbvio). Juliete (muito infantil). Isabelle (bom nome). Isabelle, e o seu? Jorge. Será uma conversa engraçada com muitos chistes, virão as cervejas, muitas cervejas, sairemos do bar trocando as pernas pelas ruas estreitas do centro antigo. Eu a puxarei pelo braço numa viela escura e lhe roubarei um beijo. Iremos para a minha casa abraçados, faremos amor até o amanhecer. Quando acordar, haverá uma frase vermelha no espelho escrita a batom de algum filósofo ou autor famoso falando da poesia dos encontros fortuitos. Não me vem nada agora, vou anotar no celular para pesquisar na Internet. A garota procura algo na bolsa e se vira, eu a vejo melhor, nem é tão bonita, ela vem pra cá, minha perna formiga, vai falar comigo, porra de coceira, para em pé na minha frente, envieso o olhar pra debaixo da mesa e me surpreendo com o furúnculo que brotou na mancha vermelha intumescida, a perna inchou, meu Deus, preciso ir pra casa, se ela sentar aqui vai ver essa nojeira, coloco a mão sobre o edema, moço, ela fala, minha mão embebida do pus que inunda o pano da bermuda, o senhor tem fogo?

 

André Balaio, brasileiro, natural do Recife, Pernambuco, é escritor e roteirista de quadrinhos. Desde 2000 edita o site O Recife Assombrado (orecifassombrado.com). Com diversas histórias em quadrinhos publicadas e participações em várias coletâneas literárias, adaptou o livro “Assombrações do Recife Velho” de Gilberto Freyre para quadrinhos pela Global Editora. Venceu o prêmio literário internacional Off Flip 2016 com a história de fantasmas “O lado de lá”. “Quebranto”, seu primeiro livro de contos, foi finalista dos prêmios literários brasileiros SESC e CEPE em 2017, e será lançado no Brasil em março de 2018 pela Editora Patuá.

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Revista InComunidade, Edição de Julho de 2018


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Foto de capa:

Cruzeiro Seixas | 'Longa viagem ao mundo das palavras azuis'


Paginação:

Nuno Baptista


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