ANO 5 Edição 70 - Julho 2018 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


Da arte de atormentar o leitor

“O que sei sobre a causa que me carcome
O tempo e os nervos é de orelhada.
(Ricardo Aleixo)

 

         Extraio esses versos do poema “Eu, militante, me confesso”, do livro Antiboi, do poeta mineiro Ricardo Aleixo, para comentar, “de orelhada”, sobre o texto recente que outro mineiro, Sérgio Fantini, pôs para circular nesse último junho: trata-se de uma edição artesanal de seu romance O município e Tormenta – baseado em fatos reais. Há, nessa obra, um narrador carcomido pelos fatos cujos escritos, ou crônicas, são expostos ao leitor como farsa, por essa razão são designados por ele como “A farsa de Tormenta”.

 

Bento Santiago, o narrador de Dom Casmurro, após relatar os acontecimentos de sua trágica relação com Capitu, afirma que iria escrever a “História dos subúrbios”. No romance de Fantini, o narrador – que tem um cão chamado “Dom” – sem casmurrice, efetivamente escreve uma história que, mais do que suburbana, tange também a vida sub-humana. Aqui, em vez de Capitu, temos o satânico Capital, que dá as cartas a políticos corruptos que envenenam a tudo e a todos. Para resumir, basta atentar para um novo versículo acrescentado à Bíblia: no livro dos Provérbios, XXX, 18 e 19 lê-se esta joia de sabedoria: “Três coisas me são difíceis de entender, e uma quarta eu a ignoro completamente: o caminho da águia no ar, o caminho da cobra sobre a pedra, o caminho da nau no meio do mar, e o caminho do homem na sua mocidade.” E, no romance, o narrador acrescenta a quinta dificuldade: “O caminho do dinheiro ilícito nas contas bancárias.”(p.62)

 

O subúrbio é o Bairro Novo, onde os moradores não são ricos como os que habitam a zona sul e nem pobres como os que sobrevivem na zona norte. O município de Tormenta se parece com qualquer capital comandada pelo capeta e pelo capital. A narrativa se passa numa época indeterminada, mais para um futuro distópico, em que o Governo Central, muito parecido com uma poderosa rede de televisão, é onipresente. A ficção de Fantini é anticientífica, não lhe interessa a descrição de elementos tecnológicos de que se serve o sistema manipulador; em vez disso, o que temos é a presença muito humana de um narrador-cronista, disposto a “ficar íntimo da alma do subúrbio para compreender melhor a essência do mundo.” (p.79). Mais de uma vez, na leitura desse livro, lembrei-me de Lima Barreto (aliás, nascido num 13 de maio, como SF): um olhar de ternura para os que sofrem, contrapondo à visão satírica e contundente àquela parcela opressora da sociedade. Afirma o narrador, a certa altura, que ele não se contenta apenas em observar os fatos, mas deseja investigar quais são os agentes e seus possíveis desdobramentos, pois “seria uma humanidade mais pobre se não houvesse quem fizesse esse trabalho, desvendar o que se esconde sob as máscaras da dor e da alegria. Modestamente coloco meu talento de cronista a serviço dessa causa.

 

O narrador e seu amigo, o velho Arqleu, com efeito, lembram-me aqueles personagens humanistas e suburbanos que vemos em romances do Lima Barreto, notadamente em Clara dos Anjos. Aliás, nesse romance de Lima um vilão tem nome americanizado (Cassy Jones), assim como o Jeff, filho do político Simionato. Os nomes dos personagens ou parecem erros tipográficos (Arqleu, Releido), ou remetem para onomástica suburbana (Marciliene, Magdalice, Deuzivaldo, Genilton, Cleiton, Clayton e Clayson) ou, então, compõem uma galeria tipicamente farsesca, como o citado político, o empresário Madeinusa, o travesti Seriaela, além da jornalista Finólia e da amante do traficante, Radigunda. Se os nomes sugerem uma dança divertida de fantoches, o narrador, em verdade, não pretende divertir ninguém, e ratifica isso no final da narrativa, sem spoiler: “Espero, do fundo do coração, que você não tenha se divertido.” (p.81)

 

Como divertir-se, cara pálida, se o relato é recheado de horrendos crimes, marido matando mulher, pai cometendo incesto e matando filho, genro transando com a sogra depois de matar a esposa, e tudo isso, se não erro, não é ficção do autor: são fatos extraídos dos jornais desta cidade chamada Belo Horizonte, em cujos arredores ocorreu o acidente com um helicóptero recheado de “pasta-base”, e que até hoje a coisa não foi devidamente apurada, uma vez que importantes políticos estariam envolvidos. Isso é citado no livro e compõe também o painel da tragédia de Tormenta – um espaço marcado pela barbárie e feiura, à espera de um redentor que possa “punir os culpados [e trazer] a beleza e a poesia” (p.38).

 

A narrativa tem enquadramentos da violência doméstica, apresentados de uma forma originalíssima, evidenciando o trágico e o grotesco, como nesta passagem do capítulo cujo título é um bordão do programa do animador Chacrinha, “Quem quer bacalhau”: “A imagem da madrasta espancando seu irmãozinho foi substituída pela de um homem gordo, roupas e óculos coloridos, atirando coisas para cima. Este é o vídeo registrado. O áudio são gritos de dor e de ‘Terezinha, uh, uh.” (p.29). Se o narrador confessa que pretende “abandonar a pobreza e o horror da alma dos homens para desenhar a sutil aquarela da alma feminina”, como se lê na p.18, acabamos por constatar que tal aquarela não possui nenhuma sutileza, uma vez que algumas mulheres rilham os dentes e lançam “o bafo de ódio que as mulheres traídas têm” (p.6)

 

Em um episódio, ao abordar presidiários, o narrador busca resgatar o que ainda há de humano nas bestas-feras que são pioradas no confinamento, mas que talvez tenham sido amados por instantes pelas enfermeiras que ajudaram no parto; esses infelizes que foram indesejados desde a concepção e nunca tiveram chance de ter uma vida normal. Trechos assim, bem como a passagem em que aparecem trovadores com inflamados versos politizados e líricos, servem como fachos de luz cortando a escuridão de sociedade obscenamente dividida em classes, para evocar um poema de Gullar. Aliás, a zona dos ricos é separada do resto de Tormenta por muralhas, à maneira dos castelos medievais.

 

Para dizer que não há nada de divertido no romance, há algumas ironias que podem provocar o riso. O narrador fala de vigilantes que fazem mais perguntas do que trazem respostas, e deveriam abrir “um escritório de angústias existenciais” (p.23). Na p.8, há esse diálogo: “- Pode parar ali, anda./ - Paro ou ando?/ - Deixa de ser engraçadinho.” Há uma sigla, OINC, que evoca a onomatopeia do grunhir dos porcos, e que é explicada como “Os Incríveis Novos Cruzados”. Ademais, não faltam oportunas farpas contra as igrejas que visam os bens materiais e são designadas com nomes extraídos da geometria básica, catetos e hipotenusa.

 

O leitor começa a ser atormentado antes de começar a ler o livro: este, na verdade, não é exatamente um livro: suas 81 páginas vêm sem capa ou brochura, nem sequer encadernação com espiral. As folhas estão dentro de um envelope, que está dentro de uma pasta, onde se lê “Confidencial”. É preciso rasgar uma fita adesiva, romper o lacre, cortar o barbante, ler um prólogo que é um “Aviso aos desavisados”, depois encontrar um rol com os nomes dos personagens, à maneira de uma página introdutória de uma peça de teatro. Depois começa a farsa. Mas não disfarça não, você vai levar algumas porradas (embora os palavrões não sejam escritos com todas as letras). Espera-se que, em breve, algum editor ponha em livro essas crônicas que fizeram o incansável Fantini as escrever, pois, citando outro poema de Ricardo Aleixo, “Escrever porque este,/ só um cego não vê,/ é o melhor tempo/ para escrever.” Enfim, é um trabalho que vai virar efetivamente um livro e que vem para incomodar.

 

Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

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Revista InComunidade, Edição de Julho de 2018


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