ANO 5 Edição 70 - Julho 2018 INÍCIO contactos

Carlos Pessoa Rosa


Contos

A FERRADURA ESTALA NO ASFALTO ONDE O HOMEM É A COISA

 

Fiel e verdadeiro, o cavaleiro rompe barreiras. O cavalo tem as ancas musculosas, pelagem de cor branca e não leva arreio. Das ventas acesas do belo e apocalíptico animal, foge uma fumaçada branca; no corpo, o sangue circula estuante, desenha avenidas negras. A ferradura estala no asfalto ao som de Vivaldi. As cordas criam um clima de fantasia. No MASP, o animal para, empina as patas dianteiras e rincha alto. Aproveita o olhar no passado do cavaleiro e retoma o ar. A cidade resfolga no vazio, não reconhece mais as estações do ano. As roupagens e as artes dizem da época.

 

As curvas do animal continuam nas do homem que se segura em sua crina. Onde começa um e termina o outro? O cavaleiro conversa com o animal, trocam sutilezas. O homem do passado continua seu caminho, não é rei, não é santo, é presente. Viaja em círculos, sempre retorna, mas nunca é o mesmo. Sem elmo e couraça, nosso herói está nu, tem grandes olheiras ao redor dos olhos e o peso do conformismo. Os pelos negros ocupam o tórax e parte dos braços. Introspectivo, é puxado pelas trevas e abismos. Na noite o cavalo é seu guia. Não está à procura de aventuras, de proteger e defender os excluídos que margeiam as calçadas. Sem motivos, é um corpo retorcido sobre si mesmo, um vulto, um espírito entre carros e buzinas.

 

Um batalhão de pequenos fragmentos sem forma e peso insiste em perseguir o animal pela cidade. A cisão é a palavra de ordem desses minúsculos e invisíveis seres. Atômicos, eles lançam o césio sobre os neurônios, desintegram.  Esparramam frases nos ouvidos e imagens nos olhos dos viventes. O medo de perder está nos oblíquos da cidade, nos cantos escuros e vazios. A promiscuidade se espalha entre parceiros diversos e dispersos, o homem acredita ser um espelho. “Nada nos salvará da destruição”, é o que afirmam surdos às quatro estações de Vivaldi. Passou a ser crença...

 

O que é real e o que é fantasia para o cavaleiro nu que alucina no asfalto? O facho de luz do carro e a janela do sonho não veem mais que os olhos do cavalo sem viseira. O homem à deriva na calçada, chicoteia ódio, inunda-se de terror, pressagia o fim dos tempos, quer vestir os pequeninos de duende, rezar preces em todas as igrejas e acreditar em visões de crentes. Já não julga, a frustração incomoda e desintegra, vê a cidade amortecida, sem vida, mas também sem morte, torna-se pó.

 

Clareia. Na cidade, o cavaleiro, dono de sua montaria, olha pela última vez a mobília de seus sonhos e desaparece entre torres e o pico do Jaraguá. Palavras a galopar na página transformam-se na coisa; é o próprio objeto de delírio.

 

 

 

 

 

 

O CHEIRO

 

O que mais se ouviria entre homens além de assuntos estéreis e escrotos? Saí depois do jantar sem que me notassem. Já na calçada, o céu transforma a rua num inferno, uma chuva em queda livre leva todos a procurar abrigo. Me protejo no saguão de um prédio antigo, o passado a revestir paredes e pisos. O zelador, um sujeito barrigudo, a pele do rosto em cicatrizes, o nariz aduncado, não retribuiu meu sorriso. Neguei sua presença ao virar o rosto. As pessoas no celular a avisar de possíveis atrasos ou conectadas ao ciberespaço. Não tenho celular, sou chão, preciso apalpar o que vejo, tocar quem eu conheço. O lugar começa a me sufocar. À minha esquerda, uma escada, ao lado de um elevador antigo, daqueles de portas vazadas e de correr. A luz é pouca, o que acentua a escuridão nas frestas e nas dobras do saguão. Enfrentar a chuva ou o estranho lugar. Opto pelo segundo. Espero o zelador se distrair e subo, degrau a degrau, com cuidado para não tropeçar. Deparo com uma porta, há uma abertura onde antes, um vidro. Adiante, um corredor escuro. Várias portas, apenas uma delas aberta. A do apartamento 21. Não é comum alguém deixar a porta de entrada sem trancas. Empurro-a com cuidado para não provocar ruídos que possam assustar o morador. Uma faixa de luz avança no assoalho do corredor. Ouço apenas o som do que me parece ser o chuveiro ligado. Apalpo algumas peças velhas que estão sobre os móveis, são animais de louça. Sigo por um corredor. A porta da direita dá na cozinha, sobre a pia, pratos, copos e talheres sujos. Sobre a mesa um bule ainda quente. Pego uma xícara, uma colher, o açúcar, faço uma pausa para um café. A porta da esquerda dá no banheiro, não há ninguém, entro e fecho o registro. Pego a toalha jogada no chão, aproximo do nariz: cheiro de mulher. Volto à sala. Um vento agita a cortina que dá para uma varanda. Há um aparelho de som ao lado de um sofá de dois lugares, de couro envelhecido. Ligo o aparelho. Yo Yo-Ma, tango. Há um maço de cigarros sobre a mesa de centro e o SUPLEMENTG, Belo Horizonte, Novembro e Dezembro de 2016, Edição no 1.369, Secretaria do Estado da Cultura, com o desenho de capa de Nélson Cruz, da ilustração do livro O Edifício (Ed. Positivo), baseado no conto de Murilo Rubião. Trata a ilustração em cores frias, azuladas, de uma tentativa de criar uma outra linguagem, através da perspectiva e dos personagens, de modo a ampliar os diálogos e o universo da história criada pelo autor. Abro o jornal e o folheio aleatoriamente, aprecio o barroco da igreja de São Francisco, a fachada principal da Igreja de N. Sr. do Bonfim... Há muito não fumo. Pego um cigarro e o acendo. Debulho frases desconexas seguindo o movimento da fumaça. Sentado no sofá, a cortina incomodada pelo vento, o ruído da chuva em cascata rareando, eu a observar a mancha provocada pelos pés úmidos no assoalho de madeira corrida. Sigo as marcas até a janela. Não cedo à curiosidade. Apago o cigarro e saio. Deixo a porta como a encontrei. Rejeito o elevador. Retorno pelo mesmo caminho, degrau a degrau um medo se acrescentando. O saguão vazio, já não chove. Na rua, uma multidão, vou empurrando as pessoas, pedindo licença, até chegar no centro onde um corpo encharcado e nu, adormecido no asfalto: é o cheiro da mulher do 21.

 

 

 

 

 

 

tortura

 

Odeio o sujeito. Mas seu rosto é natureza morta. Congelado pelo tempo. Ao chegar, eu já me encontrava imobilizada. Nua. Meu corpo suado debaixo de um cone de luz. Já não apertava mais as coxas para esconder o sexo. Mataram qualquer expressão de vergonha ou resistência. As pernas abertas como as da profissional do sexo que aguarda a próxima moeda; como o cofre da infância. Um metro e sessenta, não mais. Não me esqueço dos passos do coturno e da valise que depositava sobre a mesa velha e engordurada. Como esquecer o nariz rosáceo e as enormes sobrancelhas negras. As mãos pequenas a abrir, sadicamente, a valise, com a lentidão das lesmas. De lá retirava o chicote, o alicate, agulhas de diversos tamanhos, velas, fósforos, gel condutor e chumaços de algodão que enfiava em minha boca para que não gritasse. Quando todos os recursos não me levavam a alcaguetar algum companheiro, abria a braguilha, retirava o pau duro - excitava-se com a tortura - e o levava até minha boca. Naquele dia guardou na valise um dente e uma unha recém conquistados: colecionava nossos pedaços. Decidida, mordi com tanta raiva o membro, que guardei comigo sua glande. Hoje vivo em uma cadeira de rodas, fruto do espancamento que se seguiu. O que senti? Ouça The Ants-Whip in my valise. Há um chicote na minha valise oh yeah/Who taught you to torture? Quem te ensinou a tortura?/ Quem te ensinou?Who taught you to torture?

 

 

 

 

 

 

BROTAMENTOS INSEPULTOS

 

O portão é o do sonho. Ao atravessá-lo, não sei se entro ou saio. O momento é um construir de cenários e arredores. Dos frequentadores, nem vaga ideia, se pessoas ou talvez fantasmas que já desvendaram o mistério. Há o silêncio do medo e dos mortos, a expectativa dos pigmentos ainda na forma virgem. Não sei o que fazer com dois gêmeos mortos, no colo do pai, vítimas da perversidade humana. São contaminações esparsas que não se consegue evitar. Dos corpos, perdeu-se o sopro, o hálito. O miasma não veio do solo, mas pelo ar.

 

Oportuno o homem de branco andarilho. O adiante é passagem, transitoriedade, derradeiro é o infinito. De nada adiantam os esboços, início sem continuidade. As marcas dos pés no barro logo serão desfeitas pela chuva. Fazer-se aluado é o modo de seguir avante, como um herói invisível. O branco é como se não houvesse corpo. Não adianta invocar. Não há arco-íris nas orgias dos projéteis urbanos e nos conflitos humanos. Não sei o que fazer com as castas que rejeitam os desfavorecidos. Brotamentos insepultos, a céu aberto.

 

O mundo, vasto mundo... O cacoete delirante de um constructo ou conceito. Das pesquisas como simulacro da verdade. Consumir-se. Tornar-se a carne exposta no balcão do açougue. Não há como calcetar gotas de chuva ou interromper avalanches. O viver é um eco eterno e repetitivo em paredes de pedra. A vida é uma programação de TV a cabo que qualquer assinante contrata. No mangue, mulheres se prostituem e usam craque. É da praça Roosevelt a vocação pela multiplicação das vozes e dos nômades, a morada na Augusta. Não há como dramatizar pesadelos sem a poética das insônias das bestas noctâmbulas.

 

Quando entrei, se pensar início antes da matéria, nem ideia ou desejo de presença. Não escolheria campos vermelhos de sangue e seria ingenuidade pensar que creditaria a um Pai maquinaria tão cruel. Estaria mais para um endiabrado tal constructo. A amnésia do antes e a incerteza do depois, pontuadas pelo apodrecimento da carne, torna o viver um presente contínuo sustentado na impotência transformada em peças de poder e do sensível, em politica e simulacros do amor; armas e paixão. A razão não passa de sôfrego arroto ou fétido resultado do digestório neuronal de filosofias vãs e mundanas. Entrei sem opção...

 

Na presença, curto o sonho. Sei dele algo de pinçamentos em lagos azuis, de mariposas em névoas rasantes e arco-íris em campos de centeio. O louco é o sujeito que optou dormitar por completo; eternamente. Deixo a sanidade para os construtores de cercas e muros, para os manipuladores da intolerância em uso próprio, para os corruptos e corruptores, para os representantes de um Deus desprovido de qualquer materialidade ou vocação noctâmbula. Estuprar a carne é do homem. No sonho, estupramos delírios e vontades reprimidas.

 

 

Carlos Pessoa Rosa é escritor, editor do site e blog MeioTom. Publicou "A cor e a textura de uma folha de papel em branco", prêmio ficção nacional UBE-CEPE, 1998, "Mortalis: um ensaio sobre a morte", prêmio Xerox-Ed. Livro Aberto; "Não sei não",, "Sobre o nome dado" e "Nada poético", pelo coletivo Dulcinéia Catadora, "Destinos de vidro", Ed. Meiotom; "Una Casa Bien Abierta" pela Pequeño Editor, Buenos Aires, Argentina; "A visão bipolar de um ovo de avestruz" e "A cor e a textura de uma folha de papel em branco", prosa, "Mu Kambo", poesia, e o infanto-juvenil "Mistérios invisíveis que não brotam igual ao seio", todos pela Amazon.com. Participa de várias coletâneas nacionais e internacionais. Prêmio Literatura para Todos com "Sabenças", novela, em 2010. Tem trabalhos publicados na revista "Olhar" da UFSCar, D.O. Leitura, Instituto Piaget, Portugal, Revista Ser do Conselho Regional de Medicina, Revista Linguagem Viva, nos sites Germina e Blocos, entre outros.

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Foto de capa:

Cruzeiro Seixas | 'Longa viagem ao mundo das palavras azuis'


Paginação:

Nuno Baptista


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