ANO 5 Edição 70 - Julho 2018 INÍCIO contactos

Carlos Matos Gomes


Militarização e armamento do espaço – a tragicomédia do Império decadente

É da História: à medida que se acentuam os sinais de decadência de um império, mais suicidária se torna a clique dirigente, mais cega e surda à  realidade.

 

O anúncio feito por Donald Trump da criação de um sexto ramo das forças armadas americanas, dedicado à guerra no espaço, é um excelente exemplo dessa deriva. Os conselheiros de Trump colocaram na sua boca a intenção do “domínio do espaço pelos Estados Unidos”. Não anunciaram a intensificação do uso. Anunciaram o domínio. O império contra todos!

 

Dominar, em termos militares, significa reunir meios para atacar competidores, para negar a posse ou a utilização a outros, demonstrar a intenção e a determinação de usar todos os meios para causar o maior dano possível no adversário, se possível o seu aniquilamento. O domínio é o objectivo de qualquer política imperial. É essa política de domínio que os Estados Unidos pretendem levar a cabo com o tal “sexto ramo” das suas forças armadas.

 

Na realidade, esta decisão de Trump, não sendo nova, pois as armas nucleares pretendem obter o mesmo efeito de domínio incontestável, produz resultados perigosamente novos, não apenas enquanto possibilidade de destruição total da vida, o que as armas nucleares baseadas na Terra também conseguem, mas quanto a três novos factores introduzidos por confrontos entre armas no espaço, ou ataques a objectivos terrestres partir de armas no espaço:

 

- O ataque para impor o domínio imperial será desencadeado sem indícios de preparação (as armas estão preposicionadas no espaço e não necessitam de ser deslocadas, nem de tempo para armamento). Pelo contrário, um ataque nuclear a partir de meios ditos convencionais, de bases na superfície terrestre, necessita sempre de tempo de preparação e causa sempre indícios de estar em preparação. Os satélites permitem, aliás, detetar esses indícios. Uma guerra no espaço começa por cegar os satélites dos adversários. Um adversário cego reage com toda a violência e “às cegas”, sem limites para os danos, nem respeito por alvos a preservar.

 

- Uma guerra no espaço não está sujeita à escalada sucessiva de meios, nem à introdução de factores de limitação de danos. Uma guerra no espaço chega à Terra já com todos os meios empenhados porque destrói os” olhos”, os “ouvidos” e a “inteligência” dos adversários sobre a superfície terrestre. A resposta a uma batalha no espaço – mesmo que prevista para ser limitada, conduzirá sempre à passagem à última fase, a da destruição total dos meios do adversário. Um conflito previsto para se desenrolar no espaço saltará as várias etapas de negociação de qualquer conflito até à fase do aniquilamento

 

- Uma guerra no espaço, ou a partir do espaço, terá efeitos inimagináveis sobre o ecossistema, para além do que já sabemos sobre os efeitos das armas nucleares. Com grande probabilidade, os efeitos sobre o ambiente e a vida (não só a humana) serão ainda muito mais devastadores e duradouros do que uma deflagração nuclear à superfície ou a baixas altitudes.

 

É evidente que o espaço está militarizado desde o início dos primeiros programas espaciais (que foram programas essencialmente militares), como militarizado está o espaço em que vivemos e por onde se propagam as ondas de várias frequências que tanto transmitem imagens de TV como dados com a localização de bombardeiros, canções de amor como dados para o guiamento de misseis. O espetro eletromagnético está militarizado desde o início da transmissão sem fios, mas coisa diferente é o “armamento” do espetro eletromagnético como instrumento de domínio político e económico (armar o espaço é, a uma escala infinitamente maior, o mesmo que a introdução dos mais potentes vírus nas redes de dados, sejam de acesso público sejam militares).

 

Os agentes das campanhas de condicionamento da opinião pública da administração Trump tentaram (e tentam) confundir “militarização” do espaço com domínio do espaço para fins militares e, logo, económicos. Ora, este passo imperial dos Estados Unidos não sendo novo, coloca um novo desafio à humanidade: o de o império, para tentar sobreviver, não hesitar em destruir a humanidade. É a política do lacrau que se suicida ao sentir-se ameaçado. O tal sexto ramo das forças americanas é a ponta venenosa da cauda do lacrau.

 

Militarizar um espaço é completamente distinto de o utilizar como base de ataque armado e municiado. Em inglês essa distinção é nítida. Os adeptos de Trump confundem deliberadamente os conceitos de “militarization” e “weaponization”, o que é recorrente na propaganda dos EUA: O programa Guerra das Estrelas, de Reagan deixou claro que os “Estados Unidos pretendem expandir as suas capacidades militares no espaço de modo a serem dominantes na 4ª dimensão do campo de batalha” (o que violava o Tratado Anti Misseis Balísticos e uma parte dos mecanismos de controlo de armamento) A administração de Bush filho, aproveitou os ataques do 11 de Setembro para expandir a corrida ao armamento no espaço. O Centro de Informações de Defesa (CDI) dos Estados Unidos elaborou um relatório detalhado aconselhando a estratégia de desenvolvimento do armamento do espaço: “Tal como em Star Trek, o espaço é a última fronteira do campo de batalha”. Os Estados Unidos devem ser a primeira nação a basear armas no espaço. (Theresa Hitchens, Weapons in Space: Silver Bullet or Russian Roulette?, The Policy Implications of US Pursuit of Space-Based Weapons, Center for Defence Information, April 18, 2002)

 

Este passo da administração de Trump é mais uma ameaça aos equilíbrios de forças que desde a introdução da arma nuclear, química e biológica (NBQ) têm evitado confrontos de destruição em massa na nossa espécie. É mais uma violação de acordos que se tornou prática da política imperial de Trump. No caso viola os acordos que foram sendo estabelecidos no âmbito da ONU desde Outubro de 1967, sendo o primeiro Outer Space Treaty, que definia as regras básicas das leis do espaço pela comunidade internacional, declarando que o espaço deveria ser reservado para fins pacíficos, para benefício da humanidade como um todo, de livre acesso a todos os Estados, e, num último ponto, que os Estados deveriam ser responsabilizados pelos danos causados pelos seus objectos espaciais! Este tratado foi reafirmado em 2001 (Prevention of an arms race in outer space, United Nations General Assembly Resolution, A/RES/55/32, January 2001.), com a abstenção de 3 Estados: A Federação da Micronésia, Israel e os Estados Unidos!

 

A corrida ao armamento ao espaço iniciada pelos EUA originou as respostas esperadas das outras potências, em particular a URSS/Rússia e a China, que desde 1980 acompanham e desenvolvem programas de guerra no espaço. A rutura unilateral por parte do regime de Trump de acordos sobre a proibição de armas no espaço resulta da percepção imperial dos seus dirigentes. Tem como objectivo desafiar a comunidade internacional e afirmar a supremacia dos Estados Unidos, que se sentem ameaçados por potências como a China, o inimigo principal, mas também pela Índia e pelas alianças que se estão a desenvolver na área do Índico/Pacífico e incluem a Coreia e o Japão.

 

Segundo uma análise da BBC, a decisão de impor a supremacia dos Estados Unidos no espaço tem também por objetivo impedir qualquer proposta de negociação internacional para um acordo sobre armamento no espaço. Os Estados Unidos boicotam assim, por antecipação, qualquer acordo multilateral, para evitarem verem-se envolvidos em disputas como as que ocorreram para rasgarem os acordos sobre o ambiente (Paris), o comércio (OMC/NAFTA), emigração, ou desnuclearização. Trump e os seus oligarcas pretendem ter as mãos livres de qualquer compromisso global. A sua política é a da força, jamais a da negociação para um consenso.

 

Dado os EUA terem abdicado de se apresentarem como lideres morais, como defensores de princípios, de direitos humanos e de defesa da sustentabilidade do planeta, o armamento do espaço, o tal sexto ramo das forças dos EUA, é percebido pela oligarquia de Washington como um instrumento decisivo para os EUA manterem a superioridade económica e financeira (o dólar como moeda de pagamento internacional). Colocar armas no espaço é, para os EUA, um instrumento de supremacia, de domínio total do planeta e de impedirem que a curto ou longo prazo outras potências como a UE, a Rússia, a Índia, e, principalmente. a China estabeleçam alianças e fortaleçam laços militares e económicos.

 

A questão que se coloca a esta “política” de terror, ou de “testada”, que não distingue amigos de inimigos é saber como reagirá o resto do mundo ao sentir-se dominado do espaço? Todos os países que tiverem capacidade espacial não terão outra escolha a não ser desenvolverem os seus programas anti-satélites armados, tentar “cegar” os satélites americanos, de colocar no espaço as armas mais poderosas, nucleares, biológicas, de alta energia, o que houver.

 

Mesmo os aliados mais fiéis na NATO ficaram alarmados com as consequências de um tal programa de armamento do espaço, que alterará os pressupostos do atual e previsto escudo contra misseis balísticos, além de aumentar a hostilidade mundial contra os Estados Unidos e os seus aliados. Uma hostilidade que justificará maiores investimentos em armamento e em despesas militares, com lucro para o complexo militar-financeiro.

 

O armamento do espaço por parte dos EUA coloca a União Europeia em mais uma situação de confronto com aquele que foi o seu aliado natural e visitar Trump como já comprovaram Macron e Merkel (e agora lá irá Marcelo) não altera a sua política de rinoceronte.

 

A UE tem tido como política a oposição ao armamento do espaço e a dissuasão de uma guerra no espaço. Tal como fizeram a tantas outras questões, Trump e os seus milionários do complexo militar industrial e financeiro, reduziram a cacos estes princípios de senso e consenso. Resta à Europa ou desenvolver um programa espacial credível e autónomo dos Estados Unidos, ou integrar uma aliança para negar a supremacia do tal sexto ramo das Forças dos Estados Unidos no espaço, do lacrau que preferirá suicidar-se.

Carlos Matos Gomes

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Revista InComunidade, Edição de Julho de 2018


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Paginação:

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