ANO 4 Edição 69 - Junho 2018 INÍCIO contactos

Cida Sepulveda


O jardim de Antônia ou Mulher

a lua se arredonda nos olhos
amarela, miúda, introspectiva
a mulher grita, geme, suplica
deuses a livrem de insana dor
santos a socorram no parto
Nossa Senhora Aparecida
Livra-a do mal, amém!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

coxas grossas, firmes, brancas
abrem-se para o homem, febris
brisa nos cabelos, lábios acesos
a lua, no canto da janela, geme
desejo, pavor, raiva, inocências
pernas se trançam no vendaval
bocas se pervertem, se trucidam
agonia de mulher, antes do sol.


 

 

 

 

 

 

 

 

solta na cama, leve
suga o falo, o tempo
a tarde a cair febril
intérprete do oculto
luz e sombra n’olhar
mulher, me desnudo.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

O poema me espreita curioso
Pavor de me achar nas palavras
Me sufoca até o último instante
Até nascer a canção na boca torta:
Escuta, mulher, a noite vã. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Arrancavas-me o gozo!
Firo-me de ti, em saudade
Do corpo a gemer segredos
Na solidão de estrelas.

Arrancastes-me a fé
Firo-me de ti, em clamor
D’alma pela salvação
Na solidão de mãos.

Arrancaste-me o adeus
Curo-me de ti, em ruínas
Do tempo a tecer passados
Na solidão de palavras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Corre pelas invernadas
Pernas finas, ensolaradas
Sobe morros, passa rios
Rouba silêncios e paisagens
Urubus a sobrevoam:
Se a morte a apanha!
Na choupana à beira-rio
Sexo e miséria adúlteros
E orgasmos d’olhar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No vestido fingido
Me escondo mulher
N’alma intranquila
Teus gozos me abortam
Risos e lágrimas no lençol.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No dicionário incontáveis palavras
E o silêncio de olhos e bocas
A correr páginas, tonto
Um mar de sentidos
E tua voz apertada
Em mim, ecos
Na parede, o branco
Apaga imagens
Memórias da paixão
Cega. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para Cláudia e Marcos

 

O jardim de Antônia, imortal
Na esquina da rua de terra com a que dá no rio
Mesmo destruído, perfuma e colore histórias
Na casa de amigos conheci Daniel Faria
Instantes fecundos ao pé da escada
Livros, uma cadeira e um leitor
Reaprendo o valor da síntese
Em cada página, em cada amigo.
O jardim de Antônia e os poemas de Daniel Faria
Crepúsculos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre Cida Sepulveda

 

 

(Manoel de Barros sobre Cida Sepulveda)

 

 

(Manoel de Barros sobre Cida Sepulveda)

 

 

 

 

 

 

 

 

Cida Sepulveda nasceu em Piracicaba. Atualmente vive em Campinas. Publicou o livro de poemas Sangue de Romã em 2004. Desde seu primeiro livro foi elogiada e apadrinhada por ninguém menos que Manoel de Barros. Tem contos publicados no jornal Rascunho, de Curitiba, e no suplemento Prosa & Verso do jornal O Globo. Editou a revista de literatura e arte VagalumeCoração Marginal foi sua estreia na editora Bertrand.

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2018


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Colaboradores de Junho de 2018:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Adrian’dos Delima, Alexandra Vieira de Almeida, Beatriz Bajo, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Cida Sepulveda, Denise Bottmann, Erick Martínez, Eunice Boreal, Felipe Teodoro da Silva, Flávio Otávio Ferreira, Gabriel Jimenez Emán, Gociante Patissa, Henrique Dória, Hermínio Duarteramos, Hermínio Prates, João Bastos de Mattos, Joel Henriques, Leila Míccolis, Márcia Denser, María Lilian Escobar ; Rolando Revagliatti, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Ricardo Ramos Filho, Sofia Freire d’Andrade, Sônia Pillon


Foto de capa:

Júlio Pomar: 'Gadanheiro' (1945) | 'Quatro tigres: variantes' (1994)


Paginação:

Nuno Baptista


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