ANO 4 Edição 69 - Junho 2018 INÍCIO contactos

Beatriz Bajo


Poemas

equilibrarte

 

ofereço-te uma rosa dos ventos alvos
alvas sementes sobre a cúpula íntima do céu da boca dormente
cópula de estações primitivas enlaçadas pela estrela desenhada
no meio do teu peito que refulge e foge

 

nó embarcado nas oscilações da saliva sibilante
pelas cordas fundamentais dos arcos vertidos nas vertigens
das cartas marítimas dos meus barcos naufragados pelas fragilidades
solares

 

no ponto sul do meu ventre há uma semente de flor-de-lis
para equilibrarte no jardim de lírios silenciosos dos meus ossos
arquitetados para acolher teus músculos e ósculos nos escuros
criados

 

felicidade é pantera que ruge urgências pelo corpo da vida
suas garras arranham os tempos fora do instante
e os caninos robustos são o amor rasgando almas intactas
distraídas


 

 

 

 

 

inverno austral

 

estrelas pinçam o cuco dourado
curvado ante a luz do tempo tocado
Juno abocanha a ponta da escura linha
ateia fogo na entrelinha do tapete persa
brama bramindo o baralho de tarô
21 é a carta que o leque dispersa
carvão carmim lambendo o platô

 

mundo aceso para janelas arregaladas
verde intenso sob patas de uma vaca
fêmea observando de fio a pavio
o feitio incandescente de Mitra
antecipando a imersão da memória
deslembrada que a musa arbitra
frente aos rios riscados de glória

 

azimute nas asas insolentes da águia
rebentando meadas: em nó solar rodopia
gemas fulgurantes invocadas ao milagre
que se consagre por inverter romã
– sonho tantas vezes plantado –
no jardim intacto artesanal talismã
utopias de girassóis imantados


 

 

 

 

 

ode às distâncias

 

I
existe um mar dentro de um envelope sem remetente
a tinta usada para a carta é opaca
talvez escrita a lápis
existe uma constelação de palavras sem significado
aparente
quem sabe ápis
um tanto de saudade nos olhos de ressaca
atravessados

 

II
existe um pé dentro de um galope sem acidente
o tango traçado para o corpo empaca
talvez uma cicatriz
existe um coração descompassado
saliente
quem sabe aprendiz
um tantã de samba gris na mão que aplaca
inveterado

 

III
existem países dentro de um xarope sem entorpecente
o tinto bebido para o peito é faca
talvez arranque a raiz
existem línguas aladas sem agasalho
frementes
quem sabe fuzis
um tasco de silêncio na tez que arrebata
bordado


 

 

 

 

 

segunda maré cheia de Santos

 

havia vida na barriga de uma mulher que lia salmos todas as noites
hinos embalavam a esfera embrulhada de poesia maior

 

um mar inteiro coube na criança de asas na ponta
da língua que alcançariam as árvores primeiras
nascidas nos dias brancos

 

a família não tinha dinheiro
porque a criança engolia moedas
amarelas
mas tinha um avô alquimista e uma avó cigana
que bailavam no sótão dos encantamentos

 

um corte no pé na dobra da esquina
um revólver na mão do amigo
especiarias da mercearia
proibida
bandido é o tempo
roubando cabimentos
estreitando as indumentárias
ultrajes engasgados
verdades
deitadas pelas veredas

 

um irmão morando
na casa suspensa
do pensamento
outros graus de latitude
pardais no peito
ensanguentado
bicando fotos preteridas
para compor o álbum
não cicatrizado da vida
que urra
e tatua peles sobre as peles
com a agulha feroz
que trabalha nos temporais

 

salas de cores impronunciáveis
ornamentariam clássicos
sobre a espinha montanhosa
da nuvem que cintila águas bentas
lenha às solidões abraçadas

 

nas orelhas
um fio cravejado de dissonantes
pingentes
um pedaço de mangue no canto dos olhos

 

o ocaso materno
semeia a casa invertida
um colo aos sonhos
encolhidos
beliscões na vida que desacorda
entre véus opacos
muralhas de mulheres
histéricas
ajoelhadas sobre o templo
inolvidado de ladainhas
penduradas nas bainhas negras
como um deserto antigo
engolido
com café requentado
e repartido
fantasmas refletidos
por espelhos solares
debruçados nos negativos
quasares para fora dos lares

 

o que o livrou
foi O livro
armazenado no céu
estrelado da boca
arma branca
arma zen
espada que corta
sinas
deixa sinais
no aço inoxidável
do espírito

 

 

 

 

 

 

arma de fogo do mundo

às crianças de Alepo

 

por favor, chorem por nós
os desgraçados
chorem por todos os tolos
uma lágrima que seja
como um destroço de tudo
o que têm visto e desvisto
por todos os fantasmas
o monstro é esse carregar
desumano de desenganos
em ganos secos inférteis
como a varinha desengonçada
de feitiços emocionados de sangue
e pó
um dó, Senhor, a quem nota
a miséria de todas as nossas
almas
um dó maior ainda às crianças
que nem chover podem em si


 

 

 

 

 

de carne e osso

 

a palavra de osso
sustenta ouroboros
dentes rasgando a terra
fofa das certezas
a palavra com sangue se move
a palavra encarnada 
comove
pra dentro dos sentidos
muda
a plantar-nos

 

outrossins

 

re com por

 

 

BEATRIZ BAJO (São Paulo/SP, 1980). Poeta, diretora-geral da Rubra Cartoneira Editorial, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ). Seus livros são sobre nossas línguas a carne das palavras (Ed. Patuá, 2017), domingos em nós (PR), publicado em 2012 pela Rubra Cartoneira Editorial, : a palavra é (PR) e a face do fogo (SP), os dois de 2010. Traduziu os livros Respiración del laberinto, do poeta mexicano Mario Papasquiaro, pelo Coletivo Dulcinéia Catadora (2009). Esteve com um poema na mostra POESIA AGORA, da Caixa Cultural Rio de Janeiro, jun/ago de 2017. Participou das antologias 29 de abril: o verso da violência, ed. Patuá: 2015; 101 poetas paranaenses. V.2 (1959-1993), org. Ademir Demarchi (SEC: Biblioteca Pública do Paraná, 2014); En la otra orilla del silencio (Na outra margem do silêncio) org. José Geraldo Neres, lançada e traduzida no México em 2012; Diálogos com a Literatura Brasileira – volume III, org. Marco Vasques (Movimento, Porto Alegre/RS; Letradágua, Joinville/SC, 2010); Moradas de Orfeu, org. Marco Vasques (Letras Contemporâneas, Florianópolis/SC, 2011; Realengo: poetas pedem paz, Revista Germina Literatura & Arte, junho 2011. Mantém o blogue Linda Graal (http://lindagraal.blogspot.com/) e o Esquina Literária, de ensaios, resenhas e divulgações, (http://esquinaliteraria.blogspot.com/). Morou por 17 anos no Rio de Janeiro (RJ) e vive há 11 em Londrina-PR.

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2018


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Foto de capa:

Júlio Pomar: 'Gadanheiro' (1945) | 'Quatro tigres: variantes' (1994)


Paginação:

Nuno Baptista


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