ANO 4 Edição 69 - Junho 2018 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


Cantigas populares em duas narrativas de Sagarana

O cantor e compositor mineiro Celso Adolfo musicou algumas das cantigas presentes em Sagarana, de Guimarães Rosa. Uma vez, sentamos para conversar sobre um projeto, que acabou não indo para frente, em que misturávamos aula e cantoria, tendo como objeto de estudo esse grande livro de narrativas do escritor de Cordisburgo. Fiz algumas anotações, e as passo para o público que tenha interesse em conhecer um pouco mais sobre a relação entre cultura popular e a literatura de João Guimarães Rosa.


De fato, é impensável dissociar a escrita de Rosa da cultura popular, principalmente no que tange às cantigas. Folheando Sagarana, constatamos que, em várias passagens de seus contos, emergem transcrições de cantigas, que não são meros elementos decorativos, mas interagem com a tessitura dramática das estórias. Em um trecho da narrativa de “A hora e vez de Augusto Matraga”, encontramos uma pequena ode ao canto que, de forma categórica, justifica a íntima relação entre a literatura e a música:


Cantar, só, não fazia mal, não era pecado. As estradas cantam. E ele achava muitas coisas bonitas, e tudo era mesmo bonito, como são todas as coisas, nos caminhos do sertão.” (p.329)


Selecionarei a primeira e a última narrativa do livro, apontando a presença de cantigas e de outras formas musicais que aparecem ao longo desses contos. A edição consultada é da José Olympio Editora, de 1969.


O Burrinho Pedrês


“O Burrinho Pedrês” tem, como epígrafe, uma “velha cantiga, solene, da roça”:


                            “E, ao meu macho rosado,
                            Carregado de algodão,
                            Perguntei: p’ra donde ia?
                            P’ra rodar no mutirão.


Para quem conhece esse conto, sabe que “o macho rosado”, o burrinho protagonista, terá desempenho heroico, sobrevivendo à travessia de um rio em plena enchente, salvando, inclusive, dois vaqueiros. É de se notar, logo no início da narrativa, um conjunto de aspectos associados à música, à sonoridade. Por exemplo, na p.3, em vez do “era uma vez”, o narrador ecoa esse início tradicional nas palavras: “Era um burrinho pedrês”. Mais adiante, um verso decassílabo com rima interna, sintetiza o passado do burrinho: “mas, vida a fora, por amos e danos”. Na p.6, chama atenção o berro de um boi caracu, que “solta seus mugidos de nariz fechado, começando por um eme e prolongando-se em rangidos de porteira velha, respondem-lhe o lamento frouxo do pé-duro e o berro em buzina, bem sustido e claro, do curraleiro barbatão.” Na p.9, o simpático Major Saulo, proprietário da fazenda da Tampa e do burrinho, comenta: “- Tenho vaqueiros, que são bons violeiros...” Na p.11, o vaqueiro Leofredo, que é contador e cantador, dá a despida, começando a cantar: “- Eu vou dar a despedida, como deu o bem-te-vi...” Na p.17, o Major diz um de seus tantos provérbios, com rima, que formam dois versos em redondilha menor: “Suspiro de vaca não arranca estaca”. Nessa mesma página, o vaqueiro Badu ironiza seu rival Silvino numa frase que pode ser escandida num verso em redondilha maior e dois em redondilha menor: “Silvino é medroso, mole, está sempre em véspera de coisa nenhuma.” Na p.22, há uma cantiga cantada pelos vaqueiros, associando toponímias do sertão mineiro, incluindo a terra natal do autor, com a temática amorosa:


                            “O Curvelo vale um conto,
                            Cordisburgo um conto e cem.
                            Mas as Lages não têm preço,
                            Porque lá mora o meu bem...


Nessa mesma página há um parágrafo extraordinariamente musical na descrição de chifres e pelagens do gado:


         “Galhudos, gaiolos, estrelos, espácios, combucos, cubetos, lobunos, lompardos, caldeiros, cambraias, chamurros, churriados, corombos, cornetos,  bocalvos, borralhos, chumbados, chitados, vareiros, silveiros... E os tocos da testa do mocho macheado, e as armas antigas do boi cornalão...


Na p.23, outro belíssimo parágrafo repleto de cadência, na descrição dos bois:


         “As ancas balançam, e as vagas de dorsos, das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estralos de guampas, estrondos e baques, e o berro queixoso do gado junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do sertão...


Ainda nessa página há outra cantiga, em que a temática amorosa é mediada pela pelagem do gado:


                            “Um boi preto, um boi pintado,
                            Cada um tem sua cor.
                            Cada coração um jeito
                            De mostrar o seu amor.”


E ainda nessa página, um trecho em prosa bem musical, repleto de aliterações:


         “Boi bem bravo, bate baixo, bota baba, boi berrando... Dansa [sic] doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito... Vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando...


A isso, segue-se outra cantiga, curiosamente em versos brancos, enfatizando o caráter amoroso, que compõe um dos aspectos dramáticos da narrativa, tendo conta a rivalidade entre os vaqueiros citados:


                            “Todo passarinh’ do mato
                            Tem seu pio diferente.
                            Cantiga de amor doído
                            Não carece ter rompante...


Na p.27, quando começa a chover, vem mais uma cantiga, salientando o aspecto lúdico da linguagem:


                            “Chove, chuva, choverá,
                            Santa Clara a clarear
                            Santa Justa há-de justar
                            Santo Antônio manda o sol
                            P’ra enxugar o meu lençol...


Na p.49, o burrinho pedrês é assim descrito, em seu descanso, numa sequência de aliterações e assonâncias: “Só e sério. Sem desperdício, sem desnorteio, cumpridor de obrigação, aproveitava para encher, mais um trecho, a infinda linguiça da vida.” Ainda nessa página, o narrador retoma o começo convencional das histórias, com alterações e com rimas: “Era uma vez, era outra vez, no umbigo do mundo, um burrinho pedrês.”


Na p.50, Badu, o vaqueiro apaixonado, canta a seguinte cantiga, em que se destaca um índice de violência:


                            “Rio Preto era um negro
                            Que não tinha sujeição.
                            No gritar da liberdade
                            O negro deu para valentão...


Nessa mesma p.50, uma frase com rima evidencia a bebedeira dos vaqueiros no vilarejo: “Dansando [sic] estão, dansando vão, as casas todas, em procissão.” Na p.51, um vaqueiro reclama que Leofredo está cantando uma cantiga que é o “coco do Mestre Louco”, mas não há transcrição dos versos. Na p.57, o vaqueiro Manico, que narrava a história do pretinho triste, entoa a cantiga que esse menino cantava:


                            “Ninguém de mim
                            Ninguém de mim
                            Tem compaixão...


Um dos vaqueiros que acompanhava o menino, comenta: “- Deixa o menino chorar suas mágoas, que o pobre está com alminha dele entalada na garganta!” (p.57) Na p.66, em plena enchente do córrego da Fome, um trecho que evidencia a filosofia serena do burrinho, passagem também marcada pela musicalidade: “Nenhuma pressa. Aqui, por ora, este poço doido, que barulha como um fogo, e faz medo não é novo: tudo é ruim e uma só coisa, no caminho: como os homens e os seus modos, costumeira confusão. É só fechar os olhos. Como sempre. Outra passada, na massa fria. E ir sem afã, à voga surda, amigo da água, bem como o escuro, filho do fundo, poupando forças para o fim. Nada mais, nada de graça; nem um arranco, fora de hora, Assim.


Na p.68, a última dessa narrativa, o bêbado Badu, ao acordar, “bradou nomes feios, e começou a cantar um ferra-fogo – dansa velha, que os negros tinham de entoar em coro, fazendo de orquestra para o baile dos senhores, no tempo da escravidão.”


No canto dos negros oprimidos da época da escravidão, a centelha da liberdade e o sinal forte da vida – que marca por assim dizer a ressurreição de Badu, salvo pelo intrépido burrinho pedrês.

 

A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA


Duas são as epígrafes dessa emblemática narrativa que fecha o livro Sagarana: a primeira foi extraída de uma “cantiga antiga” (p.319):


                            “Eu sou pobre, pobre, pobre,
                            vou-me embora, vou-me embora...
                            ......................................................
                            Eu sou rica, rica, rica,
                            vou-me embora, daqui!...


A outra epígrafe é um provérbio capiau:


                            “Sapo não pula por boniteza,
                            mas porém por percisão.


A epígrafe da cantiga assinala dois elementos importantes na trama desse conto, cuja extensão, aliás, o aproxima de uma novela: o deslocamento espacial (na reiteração do verso “vou-me embora”; e o deslocamento da condição social pobre/ rico, que ganha conotação espiritual no transcorrer da narrativa).  Já a epígrafe do provérbio caipira remete para o momento epifânico do relato, em que o protagonista dará seu salto para a salvação do oprimido e de sua própria alma.


O primeiro parágrafo desse conto contém, além de notáveis encontros fônicos, indícios da importância da religiosidade que pautará as atitudes do herói. O nome “Matraga”, que evoca as matracas tocadas na Paixão de Cristo, segue ao emblemático “Augusto”, que também se harmoniza com “Esteves”, que significa “glória”; de resto, a toponímia do lugarejo reforça o aspecto religioso: “Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Estêves. Augusto Estêves, filho do Coronel Afonsão Estêves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto – o homem – nessa noitinha de novena, num leilão de atrás de igreja, no arraial da Virgem Nossa Senhora das Dôres do Córrego do Muricíu.


Na p.321, em meio a uma festa na vila, uma “voz bem entoada cantou”:


                            “Mariquinha é como a chuva:
                            boa é, p’ra quem quer bem!
                            Ela vem sempre de graça,
                            só não sei quando ela vem...


A imagem da mulher associada à chuva fortalece a dimensão erótica e poética da narrativa, e a rima entre “bem” e “vem” já é um indício do desfecho do conto, com o empolgante duelo entre o protagonista e o jagunço Joãozinho Bem-Bem. É de se atentar, também, na presença da palavra “graça”, que, ao longo do conto, mescla aspectos humorísticos e espirituais. Na p.322, na cantiga entoada na festa, convém atentar para as três formas do verbo “chegar”, construindo uma estrutura trágica ao relato:


                            “Ei, compadre, chegadinho, chegou
                            Ei, compadre, chega mais um bocadinho!


Na p.329, um capiauzinho, ao descer o porrete em Nhô Augusto, canta:


                            “Sou como a ema,
                            Que tem penas e não voa...


Essa cantiga precede o momento em que Nhô Augusto será lançado ao abismo e dado como morto. Mas, mais adiante, na p. 332, a negra que cuida de Nhô Augusto, ao lavar as panelas, canta:


                            “As árvores do Mato Bento
                            deitam no chão p’ra dormir....


Tais palavras realçam o espaço como bendito, e, em vez de morte, há é o sono reparador, atribuído às árvores, mas, metaforicamente, indica a futura florescência do protagonista. E nesta mesma página, o narrador informa que havia também “as cantigas miúdas dos bichinhos mateiros e os sons dos primeiros sapos.” Ou seja: é como a natureza, através da cantiga, conspirasse a favor da ressurreição do herói.
O componente da violência é indicado, de forma humorística, por um cantador de nome igualmente humorístico: no bando de Joãozinho Bem-Bem, o cantador Tim Tatu-tá-te-vendo assim se manifesta, como se lê na p.350:


                            “O terreiro lá de casa
                            não se varre com vassoura:
                            Varre com ponta de sabre,
                            bala de metralhadora...


Na p.352, um bando de maitacas, que prenunciam o renascer do protagonista, é descrito com se fosse um desorganizado concerto: “De repente, na altura, a manhã gargalhou: um bando de maitacas passava, tinindo guizos, partindo vidros, estralejando de rir. E outro. Mais outro. E ainda outro, mais baixo, com as maitacas verdinhas, grulhantes, gralhantes, incapazes de acertarem as vozes na disciplina de um coro.


Na p.353 é Nhô Augusto que “pega a cantar” a cantiga de um “capiau exilado”, em que se nota, claramente, um viés erótico, sinalizando a volta do corpo às suas funções elementares:


                            “Eu quero ver a moreninha tabaroa,
                            arregaçada, enchendo o pote na lagoa...


E, vendo o voo das maitacas, Nhô Augusto ainda canta, nessa mesma página:


                            “Como corisca, como ronca a trovoada,
                            no meu sertão, na minha terra abençoada...

 

                            “Quero ir namorar com as pequenas,
                            com as morenas do Norte de Minas...


É de notar a relação entre mulher/ chuva, já indicada no início da narrativa, corroborando a vitalidade do herói, fundamental para o embate entre Eros x Thanatos, os instintos entre vida e morte, estudados por Freud. E logo adiante, na p.354, Nhô Augusto entoa uma cantiga que aprendera com o Tim Tatu-tá-te-vendo:


                            “A roupa lá de casa
                            não se lava com sabão:
                            lava com ponta de sabre
                            e com bala de canhão.


É de se observar, novamente, o aspecto humorístico ligado à violência, o que conferirá, no desfecho da narrativa, um outro tipo de graça, de valor espiritual. Logo depois, na p.356, Nhô Augusto encontra um cego, que declama uma “lenta e mole melopeia”, que lembra os versos surrealistas do poeta do absurdo, Zé Limeira:


                   “Eu já vi um gato ler
                   e um grilo sentar escola,
                   nas asas de uma ema
                   jogar-se o jogo da bola,
                   dar louvores ao macaco.
                   Só me falta ver agora
                   acender vela sem pavio,
                   correr p’ra cima a água do rio,
                   o sol a tremer com frio
                   e a lûa [sic] tomar tabaco!...


Tais versos, que remetem para a dimensão barroca do “mundo às avessas”, e em que se nota, de novo, a presença da ema – ave que não voa – pode-se perceber que o humor aponta para a violência que vai “acender a vela sem pavio”, metaforicamente encarnada em Nhô Augusto. Apesar da “poderosa simpatia” que Joãozinho Bem-Bem sente por Nhô Augusto, ele não aceita o pedido de perdão ao velho que seria morto pelo jagunço. Um dos capangas do chefe, com o sintomático nome de Teófilo, investe contra o herói, que bradará os nomes da Santíssima Trindade condensados em um só nome: “Nomopadrofilhospritossantamêin!” E logo a seguir “a casa matraqueou que nem panela de assar pipocas”. O nome “Matraga” aí se insinua, e quando o jagunço vai reagir, ele evoca capanga chamado “Epifânio”, salientando a epifania que virá no momento em que a morte coroará suas existências. E uma cantiga marcará a morte de Joãozinho Bem-Bem, na boca do  povinho miúdo do lugarejo:


                   “Não me mata, não me mata
                   seu Joãozinho Bem-Bem!
                   Você não presta mais pra nada,
                   seu Joãozinho Bem-Bem!...

 

Nhô Augusto repele essa cantiga, pois afrontava contra o chefe dos jagunços que, afinal, era como se fosse um parente para ele e que merecia ser enterrado em chão sagrado. Antes de morrer, Augusto Matraga ainda vê João Lomba, conhecido velho e meio parente, e por intermédio dele manda bênção para a filha que se prostituiu e para a esposa que o abandonou, dizendo que “está tudo em ordem”. Porém, tudo já estava em ordem, desde a primeira epígrafe, já que as cantigas continham o triunfo do cosmos sobre o caos.

 

 

Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

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